Sementes de carvalho sobre uma mesa de pinho

21.05.2012 - Leave a Response

Na mesa montada na Fabrico Infinito no Sábado, pelas 16 horas, para a apresentação do número duplo da revista PLI. Da esquerda para a direita: Luís Miguel Castro, Sandra Vieira Jurgens, José Bártolo, eu e João Martino. Quando abri a boca, limitei-me a transmitir a sensação com que fiquei desde o primeiro contacto físico com revista, dois dias antes, e que se reforçou com a leitura quase completa deste número: que, neste particular formato, a PLI é um objecto irresistível, tanto visual e tactilmente como pelo seu conteúdo.

Optando por um arriscado sortido de formatos e texturas, como se fosse, de facto, a aglutinação de um conjunto heteróclito de pequenas edições (a propósito de um dos textos aqui publicados, lembrei-me da Aspen de 1965-1971, a “revista numa caixa”, uma das quais foi concebida por Quentin Fiore logo após a publicação do Medium is the Massage), a dupla Bártolo (editor) e Martino (director de arte) conseguiu criar um objecto editorial que tem na ausência aparente de uma vontade uniformizadora do estilo ou temáticas dos textos um dos seus maiores trunfos e apelos para o leitor, pelo desafio que coloca a este e pela recompensa que o espera nos possíveis (necessários mesmo) regressos à revista para novas leituras, novos cruzamentos. Receio diferir aí da Sandra Jurgens, que defendeu um caminho estilisticamente mais uniforme e coeso no futuro da revista: é precisamente esta oferta multiforme, quase caótica, que me fascina, tanto mais quando a qualidade dos textos à disposição complementa a cola da lombada na função de elemento aglutinador desta miríade de propostas.

Dos dezasseis “artigos” (termo que aqui pecará, de alguma forma, por defeito), poderia começar pelo de Maria João Baltazar, “Design e mediação comunicacional”, onde se analisam duas obras incontornáveis na história do design editorial e no contexto do estatuto do designer como autor: Malerei, Fotografie, Film de Moholy-Nagy (1927) e The medium is the massage de Quentin Fiore e Jerome Agel, “samplando” obras de Marshall McLuhan (1967). Desde que li o artigo sobre ele no já distante Design Writing Research da dupla Abbott Miller/Lupton que o trabalho de Fiore neste paperback (e noutros, genericamente conhecidos como “inventory books”) é uma das minhas referências e uma fonte de deleite. Calhou a coincidência de ter recebido a revista quando estava a ler precisamente o notável ensaio de Jeffrey Schnapp e Adam Michaels The Electric Information Age Book (Princeton AP, 2012) sobre o trabalho de Fiore e Agel na redefinição da função do paperback e as suas experiências de fusão do mesmo com o layout das revistas, fazendo a produção ultracomercial de livros de bolso na América mergulhar (durante uns anos: de 1967 a meados da década seguinte) na mesma fonte de inspiração de onde brotara o livro de Moholy-Nagy e outros produtos do modernismo dos anos 20 e 30. O texto de Baltazar não recorre ainda a este decisivo estudo (seguindo mais o texto de Miller/Lupton, que não acentuava ainda o papel crucial de Agel na produção do livro), e usa como fonte iconográfica a edição da Gingko de 2001, e não a original da Bantam (Carson não bate Fiore no que toca a este livro, lamento), mas como não ficar “agarrado” à revista quando se entra por um raríssimo texto em português sobre um dos quase esquecidos da história do design gráfico?

Incontornáveis: o texto de José Bártolo sobre os anos de 1970, essa década “perdida” entre dois booms sócio-culturais (um dos muitos  trunfos do texto está numa revalorização da obra gráfica de Armando Alves); Almada e Ernesto Dois Nomes de Guerra, de António Quadros Ferreira e Paulo T. Silva, sobre o “mixed media” de Ernesto de Sousa em torno da figura de Almada Negreiros, longo work in progress entre 1969 e 1983; a entrevista (necessária mas infelizmente curta) de José Bártolo a Luís Miguel Castro, o designer e director de arte da revista K e de alguns dos melhores catálogos da Cinemateca (e que grande conversa não seria ainda mais se a ela se tivesse juntado João Botelho?); Self-initiated design, uma surpreendente e interessantíssima excursão de Patrick Lacey e Susanna Edwards a outro livro que teve um designer como “iniciador” e autor, Fischer V. Spassky de Derek Birdsall (Penguin, 1972); “Entusiasmo pela publicação”, um panorama das small presses e (auto)publicações na Holanda, Espanha e Reino Unido; uma curiosa recolha de “Statements” sobre a edição feita por designers, da qual destaco o belíssimo texto de Steven McCarthy, para quem estas pequenas edições de autor/designer se assemelham às centenas sementes de carvalho caem no terreiro junto à sua casa, as quais dificilmente germinarão e se tornarão em futuros carvalhos, mas que forçam, pelo seu exemplo, muitas outras sementes a espalharem-se por muitos outros terreiros. Novos regressos à revista poderão fazer-me baralhar e renovar este naipe de escolhas (baseadas, mais do que num critério objectivo, em afinidades de gosto e referências).

À minha frente na mesa, além do livro de Schnapp/Michaels, tinha comigo dois exemplos precisamente desta “vontade de publicar” que é transversal a designers/artistas de várias gerações e condições profissionais ou sociais. São dois livrinhos (auto)publicados por Robert Massin na sua Typographies Expressives: de como um designer com quase noventa anos não baixa os braços perante a dificuldade em aceder à edição comercial de “primeira divisão” (onde ele, aliás, trabalhou durante décadas) e usa os recursos tecnológicos à disposição (como a impressão digital, que permite tiragens reduzidas e uma gestão faseada da produção) para publicar conteúdo de qualidade.

Perante este presente tóxico, a PLI oferece-nos (e nas escolhas que listei atrás isso é notório) uma capacidade de regressão e reflexão sobre objectos da história do design gráfico (ou da produção artística no campo editorial) português, e consegue fazê-lo através de um objecto editorial que, em si mesmo, não empalidece na comparação com os que podemos ver sob as suas páginas/lentes. É, pois, um veículo perfeito para retronautas. Luís Miguel Castro falou da crença dos chineses de que se caminha para o futuro de olhos bem postos no passado e que, quanto mais se conhecer este, melhor se chegará àquele. Eu lembrei-me do personagem do La Jetée de Chris Marker, que procura  no passado a sua própria identidade e as soluções de que necessita, quando o presente não lhe dá espaço e tempo para o fazer.

Bastou-me saber pelo José Bártolo que um dos “artigos” da próxima PLI é sobre a influência do Tropicalismo no design gráfico brasileiro (esperando ecos dessa excelente leitura que foi O Design Gráfico Brasileiro dos Anos 60 de Chico Homem de Mello) para ficar já de bilhete na mão e ouvido pousado sobre os carris. Esperemos que a solidez financeira da ESAD seja suficiente para manter o comboio a circular.

Entretanto, na imprensa

19.05.2012 - Leave a Response

Recensão de José Mário Silva no suplemento A(C)TUAL do Expresso (19.05.12). Clicar na imagem para ler. O livro compra-se na LOJA deste blogue.

Entusiasmo justificado

17.05.2012 - Leave a Response

A revista está excelente. Não podia, realmente, estar melhor para quem procura conteúdos no cruzamento da história do design editorial, da edição e, mais genericamente, da cultura popular. Perante a qualidade das pessoas aqui envolvidas, foi algo arriscado do José Bártolo convidar-me para sequer emitir dois bitaites sobre a revista, mas fui de tal forma contagiado pelo “Entusiasmo” (tema deste número duplo da PLI, o 2/3) que, mais do que uma honra, será um prazer falar sobre ela ou sobre o que seja a pretexto dela. Sábado 19 de Maio, às 16:00 horas, na Fabrico Infinito (ao Príncipe Real) e, espera-se, com pouca ou nenhuma chuva.

Já à venda

06.05.2012 - Leave a Response

Já está disponível para encomenda a primeira edição Montag, A Última Sessão, sobre o processo de edição dos Textos Malditos de Luiz Pacheco entre 1974 e 1977. O biógrafo de Pacheco, João Pedro George (Puta que os pariu!, edição Tinta da China, 2011) afirmou ter ficado com “a melhor das impressões. Gostei sobretudo das observações relativamente aos aspectos gráficos do livro, componentes importantes no acto de leitura que a crítica e a história tendem a ignorar ou deixar injustamente esquecidas.” Os interessados devem dirigir-se à LOJA deste blogue onde, por uns módicos 4,00 Euros (mais portes de envio), poderão encomendá-lo. Aviso à navegação: o texto desta edição não obedece ao Acordo Ortográfico de 1990.

O espírito e as letras

01.05.2012 - Leave a Response

Eis o spread do texto que publiquei na LER deste mês sobre Robert Massin e a propósito da visita deste a Lisboa em Março, para uma conferência nas Jornadas Cantianas. Tenho de saudar o editor João Pombeiro pelo simples facto de ter aceite a proposta do texto e, finalmente, a sua publicação, apesar de um contexto muito nacional em que os livros se vêem apenas como emanações da criatividade e vontade dos “autores” (sobretudo os literários) e não como produtos de um trabalho colectivo em que outras aportações são tão ou mais importantes do que a autoral propriamente dita. Detalhe acertado (e inesperado) de Rui Leitão no tratamento da foto que fiz a Massin, puxando-lhe o contraste ao máximo até a aproximar das imagens que o fotógrafo Henry Cohen produziu para a edição de 1965 da Cantatrice Chauve de Ionesco.

Salva-se assim, através da LER, a imprensa cultural portuguesa, que, na sua generalidade, deixou Massin andar por aí sem o incomodar sequer com uma ou duas perguntas… Publicarei em breve a entrevista que lhe fiz e que serviu como uma das bases de consulta para o texto (juntamente com a monografia incontornável de Laetitia Wolff publicada pela Phaidon e as memórias de Massin, Journal en Désordre 1945-1995, publicadas pela Robert Laffont). A foto em baixo foi tirada por mim a 17 de Março, junto às instalações da Oporto em Lisboa (ao Miradouro de Santa Catarina).

Oito meses

26.04.2012 - Leave a Response

No dia 17 de Fevereiro de 1972, o editor Ralph Ginzburg foi encarcerado no estabelecimento prisional de segurança mínima de Allenwood , na Pensilvânia, para cumprir a pena de cinco anos de prisão a que tinha sido condenado. De que se tratava? De uma irregularidade fiscal particularmente grave? De associação a grupos de resistência política armada, uma das obsessões da administração Nixon? Não. Ginzburg fora condenado em 1963 pela edição e, sobretudo (providenciando assim a “prova de crime”), pelo envio por correio de uma revista considerada “obscena”, a Eros. Ainda mais estranho: em Junho de 1972, estreava, com fanfarra e cobertura (favorável) em jornais insuspeitos como o New York Times, o fime pornográfico Deep Throat (Garganta Funda). Ou seja: no ano em que a pornografia se tornava não só  “aceitável” como até “chique” (não havia figura do jet-set que não confessasse ter visto ou querer ver o filme), no preciso mês em que milhões de pessoas acorriam aos cinemas para verem Garganta Funda, Ginzburg estava na cadeia, ainda a meio de um pena de prisão (acabaria por cumprir apenas oito meses) por publicar o que dez anos antes se considerara… pornografia.

Este Castrated: my eight months in prison é, como o subtítulo deixa claro, o testemunho desses oito meses de cadeia. Publicado em 1973, a sua única ligação ao passado “glorioso” de Ginzburg como editor de projectos “picantes”, aguerridos, sofisticados e “vanguardistas” estava no design de Herb Lubalin, o seu colaborador regular ao longo da década precedente em revistas como Eros, Fact e Avant Garde: é Lubalin que dá a este relato seco e sombrio a marca visual e tipográfica que fizera dele, através do trabalho nessas mesmas revistas, um dos máximos representantes desse virtuosismo “expressivo” da tipografia americana que fora uma reacção aos ditames do racionalismo suíço do Estilo Internacional. Nem o logo bem visível da Avant Garde Books, contudo, poderia já esconder que a carreira de Ginzburg como editor cultural de relevo estava acabada: os anunciantes fugiam de associações a penas de prisão como o Diabo da cruz e Ginzburg sabia-o bem.

A história do processo Eros tinha sido já pormenorizadamente contada num número da Fact de 1965. Encerrada já aquela (que não tinha passado dos quatro números até 1963), a Fact era o mais recente projecto de Ginzburg, uma revista bimensal de informação e opinião no-nonsense, sem os luxos visuais da Eros, impressa apenas a uma cor, mas de novo com excelente trabalho de direcção de arte de Lubalin. Este número em particular apresentava um segmento em papel couché com amostras de alguns dos melhores spreads da Eros (cujo maior feito tinha sido a publicação das últimas fotos de Marylin Monroe, tiradas por Bert Stern poucos dias antes da morte da actriz).

Mas a má fortuna de Ginzburg não largava: um artigo lançando dúvidas sobre a saúde mental do senador Barry Goldwater, publicado na Fact em 1964, originou um processo contra a revista. A perda deste, junta ao “processo Eros”, foi um enorme revés e ditou o fim da Fact. Seguiu-se a Avant Garde, entre 1968 e 1971, em tempos de maior soltura moral, na qual a colaboração de Lubalin foi preciosa (foi nesta revista que ficou, possivelmente, o melhor do seu trabalho, a começar no logótipo e na fonte criada para o mesmo), mas as dificuldades financeiras devidas aos contínuos recursos em tribunal e a uma má distribuição ditaram o seu encerramento. (Sobre a Avant Garde e a Eros, tinha já escrito aqui e aqui).

Estranha a carreira em comum destes dois homens. Apesar das vitórias em tribunal em casos de “obscenidade” relativos às edições da Grove Press de Barney Rosset do Lady Chaterley’s Lover de D.H. Lawrence, dos Trópicos de Henry Miller e de Naked Lunch de William Burroughs, todos anteriores a 1963, todos resolvidos a favor da sua publicação e pondo, de facto, um fim à possibilidade de censura na edição americana, Ginzburg parece não ter tido qualquer tipo benefício dessas conquistas, e a sua contínua dedicação à publicação de material “arriscado” com uma apresentação visual de enorme qualidade (tão grande que é, essencialmente, pelo seu grafismo que hoje as revistas de Ginzburg continuam a ser resgatadas do esquecimento) também parece não ter tido qualquer efeito atenuante. Quanto a Lubalin, o seu grande momento poderia ter chegado quando lhe foi encomendado o redesenho do respeitável Saturday Evening Post em 1961 (uma célebre capa de Norman Rockwell para a revista mostrava-o de costas, no seu estirador, a redesenhar o logótipo), mas os leitores não gostaram das mudanças e a revista entrou em declínio financeiro (em 1968, uma nova direcção da revista voltou a pedir-lhe um redesenho, ao que ele terá respondido: “are you out of your fucking minds?” – vide U&lc, n.º 2, 1974, p. 17); foi, contudo, apenas a colaboração com este editor marcado pelo infortúnio, que arrastava o inconveniente ferrete de “pornógrafo” quando ainda não era cool sê-lo ou assumi-lo, que permitiu a Lubalin criar algumas das suas mais decisivas aportações à tipografia e ao design editorial, e isto para revistas que corriam o sério risco de serem encerradas por ordem do tribunal. Castrated pode ser visto, então, como um último “magafone” tipográfico que Lubalin pôs à disposição das palavras de Ginzburg. (Este refaria a carreira como fotógrafo freelancer em Nova Iorque, morrendo aos 76 anos em 2006).

Quem seria o Ernst Bettler português?

20.04.2012 - 8 Responses

Não vou poder ir amanhã à última conferência do Mário Moura na Culturgest, desta feita sobre a revista DOT DOT DOT (entretanto já encerrada). Mas recomendo-a vivamente (à conferência, pois claro, e à revista): apesar de a conhecer pouco (alguns números folheados na loja da Fábrica Benetton do Chiado), foi lá que no distante ano de 2000 se publicou um dos textos que mais me fascinaram em torno do design gráfico. Este “I’m only a designer: the double life of Ernst Bettler” de Christopher Wilson, sobre um suposto designer gráfico suíço, Ernst Bettler (veterano do Estilo Internacional dos anos de 1950, e que teria denunciado um cliente – uma farmacêutica com um passado secreto de colaboração com os Nazis – da forma mais subtil: através dos próprios cartazes encomendados) foi uma patranha que enganou alguns (o nome de Bettler chegou a ser incluído em algumas histórias do design gráfico publicadas pouco depois), irritou outros (Rick Poynor, por exemplo) e confundiu quase todos, mas, na sua concisão e simplicidade (e no twist que constitui o seu núcleo dramático) é quase tão perfeita como um pequeno conto de Cortázar, algo que o autor de Bestiário ou As Armas Secretas poderia ter publicado nos seus livros mais experimentais, gráfica e literariamente, como Último Round ou A Volta do Dia em Oitenta Mundos. (Cheguei uma vez a mandar um email ao autor perguntando-lhe se não gostaria de estender o artigo para uma noveleta. Não tive resposta.)

Como tiro apontado da anca, à Sam Spade, em direcção à vacuidade ética de muita da prática comercial do design gráfico, é terrivelmente certeiro, tendo até (é a minha humilde opinião) mais impacto do que muitos manifestos do estilo First Things First (cujo “remake” se publicou precisamente também em 2000). Não é por acaso que a Adbusters lhe chamou, num artigo de 2001, “uma das maiores invenções no design de que há registo” (citado a partir do artigo de Michael Bierut no Design Observer).

Chegaria ao ponto de afirmar que esta pequena pérola falsa devia servir de mote a exercícios dentro do que agora soe chamar-se pomposamente “escrita criativa”. Teria até já preparada a primeira proposta: “quem seria o Ernst Bettler português?” Imagino-o um veterano da publicidade da primeira metade dos anos de 1970, envolvido depois na onda revolucionária, criando cartazes para os programas de dinamização cultural e social (como o SAAL), e tendo de fazer escolhas incómodas para sobreviver na ressaca do PREC, nos finais da década ou inícios dos oitenta. Mas já estou a divagar…

(Com mil agradecimentos ao Paulo Pereira pelo envio dos scans).

Para retronautas

03.04.2012 - One Response

Um bocadinho cansado já de esperar pela publicação do texto na revista que mo tinha pedido, decidi-me: em Maio vou publicar A Última Sessão, transformando esse texto numa pequena, modesta, barata mas, espero, atractiva edição comemorativa dos 35 anos da publicação “oficial” (Maio de 1977, tal como consta da ficha técnica) dos Textos Malditos de Luiz Pacheco pela Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello. Trata-te não só de uma homenagem ao escritor, como, sobretudo, ao editor e ao ilustrador Henrique Manuel, figuras cuja memória se foi diluindo por entre a espuma dos dias. Será a minha primeira publicação com a marca Montag. Devo desde já deixar claro que agradeço a extrema amabilidade de Aníbal Fernandes, Ricardo e Artur Henriques, Nicolau Melo, Antonina Ribeiro de Mello e Paulo da Costa Domingos.

“Diableries”: o caso de Le Miroir de la Magie de Kurt Seligmann

28.03.2012 - Leave a Response

Um dos exemplos do arrojo técnico e gráfico de Robert Massin e outros graphistes ao serviço dos vários clubes do livro franceses nos anos de 1950. No caso, trata-se da edição de 1955 do Club du Meilleur Livre de Le Miroir de la Magie de Kurt Seligmann (título original: The History of Magic, Nova Iorque, Pantheon, 1948). Para uma edição limitada de 150 exemplares, Massin propõe uma caixa preta para guardar o livro, em cuja capa, revestida a couro vermelho, faz incrustar um genuíno “espelho mágico” oval de superfície convexa, emoldurado a ébano com um rebordo dourado. Para rematar, o toque de magia obrigatório: finamente gravado na face do espelho, um rosto do Diabo (imagem que o autor retirara dos seus arquivos e sugerira a Massin) era visível em “negativo” quando se aspirava sobre o espelho, desaparecendo da vista assim que a humidade se evaporava.

Apesar da abundante iconografia do livro de Seligmann (um excelente pintor e gravador surrealista americano de origem suíça), Massin dirigiu-se à Biblioteca Nacional de Paris em busca de outras fontes de imagens. Dessa busca, reteve dois títulos: o Dictionaire Infernal de Collin de Plancy e Le Musée des Sorciers de Grillot de Givry. Quando pediu conselho sobre este último a Blaise Cendrars, autor suíço interessado no oculto, a resposta dele foi misteriosa e inquietante: “mon petit, ne touchez pas à ce livre, c’est trop dangereux…” Perante o riso de Massin, Cendrars conta-lhe a história de um outro pesquisador do oculto que, saindo da Biblioteca com o exemplar do Musée des Sorciers nas mãos, caiu fulminado, morrendo ali mesmo. Com maldição ou não, o certo é que este Mirroir (tanto na edição limitada como na normal) vendeu muito bem, e Massin tem hoje uns bem conservados oitenta e sete anos, pelo que Cendrars pode ter exagerado ligeiramente quanto à seriedade e eficácia da mesma.

À l’origine de ma carrière

28.03.2012 - Leave a Response

“J’achète aussi Histoires, de Prévert et Verdet, dont la couverture, dessinée par Faucheux, avait fait mon admiration. C’était en 1948, et je n’avais pas revu depuis lors cette création d’un confrère qui, près d’un demi-siècle plus tard, me parait toujours aussi neuve, aussi originale. Pourquoi cacher qu’à l’époque, de voir ce que faisait Pierre Faucheux en matière de graphisme a été pour beaucoup à l’origine de ma carrière?”
(Robert Massin, Journal en Désordre 1945-1995, Paris, Robert Laffont, 1996, p. 367)