Recorte e costura

Amostra da recensão de José Mário Silva à edição Montag  A Técnica do Golpe Literário, publicada no suplemento “A(c)tual” do semanário EXPRESSO no passado dia 5 de Julho.

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Segunda edição

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Está já à venda a 2.º edição revista de A Última Sessão, a história da edição dos Textos Malditos de Luiz Pacheco na Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello em 1977, cuja primeira edição lancei em 2012. Compras e encomendas no site Montag.

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Começar com um estouro

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Se a carreira de Fernando Ribeiro de Mello acabou com um “elliotiano” gemido, submergido na vaga de concorrência livre de censura e de insegurança financeira que os novos tempos pós-revolucionários fizeram abater sobre um certo tipo de pequeno editor raivosamente independente que, em Portugal, ele personificava sem par, pode-se afirmar também, e com toda a certeza, que ela começou com um dos maiores estouros de que há memória no mundo das letras nacionais nas últimas cinco décadas (se, por “nacional”, entendermos o que se entendia há cinquenta anos, e se entende ainda hoje: de Lisboa). Mas não começou com um livro. Antes dessas absolutas e muito corajosas loucuras que foram as edições do Kamasutra e da Filosofia na Alcova de Sade num meio cultural oprimido pela censura e pelo corpete da moral católica, houve algo chamado “o Teste”. Se a fama da Afrodite se fez com o lançamento desses títulos impensáveis numa altura em que o Estado Novo parecia ainda monolítico, é também verdade que foi esse “Teste” que deu ao nome de Fernando Ribeiro de Mello uma notoriedade que ele aproveitou, investindo-a no arranque como editor. Podemos então concluir que, se a Afrodite nasce no Verão de 1965 com o Kamasutra, a figura do provocador estético Fernando Ribeiro de Mello surge na noite de 8 de Junho de 1964 (tinha ele apenas 23 anos), no salão da Sociedade Nacional de Belas Artes à Barata Salgueiro, a partir das 21:45 horas.

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Sobre o que se passou nessa noite há 50 anos, o que a antecedeu e as consequências imediatas desse “Teste” (em particular uma renhida polémica no Jornal de Letras e Artes com Francisco Sousa Tavares, o marido de Sophia de Mello Breyner) acabo de publicar pela chancela Montag um pequeno livro chamado A Técnica do Golpe Literário. Trata-se de um excerto (ligeiramente editado) do texto da monografia que preparo sobre o fundador das edições Afrodite, intitulada Fernando Ribeiro de Mello: Editor Contra (e onde se incluem testemunhos e/ou textos de Vitor Silva Tavares – que trouxe Almada Negreiros ao salão da SNBA, nessa noite, e que começaria aí uma longa amizade com o futuro editor da Afrodite –, Aníbal Fernandes, Eduardo Batarda e Nuno Amorim).

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Para além da óbvia (e, espero, desculpável) estratégia de amostra e promoção antecipada desse livro (tendo em vista até uma campanha de crowdfunding), decidi-me pela publicação deste excerto como livrinho independente também para colmatar um notório esquecimento deste “Teste”, que as memórias publicadas dos anos 60 em Lisboa têm ou omitido completamente ou aludido de forma vaga: em suma, para resgatar das fontes bibliográficas ou jornalísticas e dos testemunhos de quem o viveu este momento crucial e iniciático na carreira de uma das figuras incontornáveis da vida cultural da capital na última década antes da Revolução de 1974 (como exemplo desse esquecimento, há um artigo publicado na Sábado de 10.04.2014, em torno da vida do casal Sousa Tavares / Sophia de Mello Breyner, onde nem uma referência se faz à polémica que o primeiro teve com Ribeiro de Mello depois da sessão do “Teste” – à qual aquele assistira –, quando, por admissão do próprio Sousa Tavares na carta publicada no Jornal de Letras e Artes a 26 de Junho de 1964, e que iniciou a polémica, essa fora a primeira vez que ele pedia a um jornal “a publicação de umas linhas”).

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O livrinho pode ser comprado aqui (e pago por Paypal) ou encomendado através do formulário de Encomenda.

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Loja Montag aberta

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Já se encontra aberto o site Montag, para encomendas das edições que forem sendo produzidas. Estão disponíveis para encomenda exemplares de A Técnica do Golpe Literário (aqui), um excerto e amostra da edição mais longa que preparo sobre o editor Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite, intitulada Fernando Ribeiro de Mello: Editor Contra. Este blogue ficará apenas para o habitual botar de escritura.

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Os livros dos mil dias

Andam, quase literalmente, aos pontapés. Encontram-se por essas feiras de velharias, no chão, ou em cantos esquecidos das lojas de alfarrabistas, entre antigos almanaques e revistas, nalguns casos ao preço da chuva, o preço de quem faz um favor ao vendedor por livrá-lo de papel velho. Essa circunstância reflecte, creio, a sua quase invisibilidade e o seu pouco valor na (ainda incipiente, é certo) historiografia da edição e do design editorial destes últimos quarenta anos: desprovidos, na sua maioria, de uma marca autoral forte (ou de um designer de “nome” da ficha técnica), foram projectos montados “a quente” nos meses que se seguiram à Revolução de Abril de 1974, ou durante os três anos seguintes, em que a normalização democrática arrefeceu as paixões do PREC.

Tipologicamente, são difíceis de definir: nem livros de fotografia (ou “fotolivros”, categoria nobilitada historicamente na última década a partir da pesquisa bibliográfica de Martin Parr e Gerry Badger no projecto monumental The Photobook – a History), nem livros de registo (foto-)jornalístico, nem livros de reflexão política, sociológica ou historiográfica, nem meros repositórios de documentos, são um misto de tudo isso, caracterizados por uma certa embriaguez da urgência e do momento (sobretudo naqueles produzidos em 1974) e um nítido fascínio por uma nova iconografia nacional que eles, fixando-a e publicando-a, ajudaram também a impor.  (Uma excepção possível seria, por exemplo, Deus Pátria Autoridade, edição da Contraeditora de 1976, a que o design gráfico de José Brandão – um nome incontornável e referencial da prática profissional nesses anos – confere qualidades potencialmente “redentoras”, mas que, sendo não mais do que a publicação do guião do filme homónimo de Rui Simões de 1975, decidi manter fora desta selecção).

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Publicado em Junho de 1974, este Portugal Livre será, certamente, um dos melhores exemplos deste tipo de livros, tão mais extraordinário pela enorme quantidade de material fotográfico reproduzido e pelo contexto de escaldante pressão e euforia em que foi produzido. A qualidade das fotos estende-se ao design da capa (com a omnipresente combinação preto-e-vermelho em cor directa) e à folha de rosto, com um uso dramático da grotesca condensada do título e uma ficha técnica tipograficamente cuidada: sendo esta uma edição d‘O Século, é seguro presumir que Luís Filipe da Conceição e Vitorino Martins, os responsáveis pela maquete, a capa e a orientação gráfica, fossem colaboradores do jornal. A ficha técnica é, aliás, uma autêntica lista da nata do jornalismo escrito e da fotografia de imprensa portuguesa dos anos 70: aos textos de Adelino Gomes e Fernando Assis Pacheco juntam-se as fotos de Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha, Carlos Gil, Inácio Ludgero e outros. A paginação é clara e ritmada, evitando a acumulação de fotos por página e jogando com o contraste de escala, com spreads de enorme impacto. É uma espécie de “número especial” de revista, paginado como tal e dando primazia à narrativa e à legendagem informativa e sucinta, mas que a soberba qualidade das fotografias e a prosa requintada transportam a um nível superior, concedendo-lhe quase a intemporalidade de um “clássico”.

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Não é preciso olhar muito tempo para a capa de O Último Dia da Pide (1974) para pensarmos em Armando Alves e na Inova (o “Porto” do subtítulo ajudará também). Ainda que não seja uma edição da Inova (esta distribuiu-a, tendo a edição sido do Movimento Democrático do Porto) e que o nome de Armando Alves não apareça sequer indicado, tudo aqui – a tipografia da capa e sua composição, as badanas largas, as guardas em papel vermelho e a mesma cor no tratamento cuidado da folha de rosto, a ilustração na contra-capa – remete para a elegância de muitos dos livros da Inova e (a partir de 1978) da Oiro do Dia cujo design foi da sua responsabilidade. É, aliás, um livrinho tão elegante que quase nem parece ter sido produzido nesses meses de fornalha revolucionária. As fotos de António Amorim não são particularmente notáveis, limitando-se ao seu papel de documento visual da tomada da delegação da PIDE no Porto a 26 de Abril desse ano.

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Num momento delicado e crítico da sua carreira, vendo-se subitamente rodeado de múltipla e tenaz concorrência no seu nicho, dado o fim da censura, o editor Fernando Ribeiro de Mello arriscou também a sorte nesta onda de livros em torno dos dias da Revolução de Abril com este Último relatório sobre a situação geral do país do ex-Ministério do Interior para a ex-PIDE-DGS (1974), uma reprodução facsimilada do dito relatório acompanhada de algumas fotografias. É a montagem destas que dá personalidade a esta pequena edição, sobretudo o contraste entre algumas soluções visuais pouco elegantes e nitidamente influenciadas pelo calor do momento e a sofisticação de outras (como o excelente spread que coloca, lado a lado, a fotografia de uns óculos de aros grossos e severos e outra de duas mãos agrilhoadas). O recurso à suástica como símbolo identificador das figuras do regime deposto em 1974 é incomodamente profético: dois anos depois, a mal preparada edição do Mein Kampf pela Afrodite ditaria o esgotamento do capital de prestígio acumulado pelo editor  durante a última década da ditadura.

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Projecto inicial de uma editora de livros “interventivos” que o fotógrafo e publicitário Sérgio Guimarães lançou em 1978, a Mil Dias, Da Resistência à Libertação foi um álbum que funcionou como uma espécie de catálogo post-factum: na sua origem esteve uma exposição fotográfica patente no Mercado do Povo, em Lisboa, em comemoração do terceiro aniversário (daí o nome da editora?) da Revolução em 1977. Sérgio Guimarães é um caso tão curioso como fugaz na história da edição depois do 25 de Abril: aproveitando o fim da censura, tentou a publicação de banda desenhada erótica, à imagem de Eric Losfeld (cujo catálogo lhe serviu de guia), em edições cuidadas, chegando a publicar em 1976 a História de O adaptada por Guido Crepax (edição acompanhada da primeira publicação nacional do romance de Pauline Réage, ligando ambas edições através do design tipográfico das capas), o Fornicon de Tomi Ungerer e Lolly Strip de Pichard. O seu plano de se tornar o “Losfeld português” (publicando como “Edições Sérgio Guimarães”) gorou-se, e a Mil Dias, que poderia ter sido um recomeço, acabou por marcar o seu fim como editor: as dívidas arcadas com a montagem da exposição de 1977 e, certamente, com a produção deste álbum, terão sido o golpe de misericórdia. O seu nome está tão esquecido que nem na abrangente tese de Flammarion Maués Silva sobre a edição política em Portugal na década de 70 (Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80, São Paulo, 2013) se consegue encontrar mais do que uma listagem dos títulos da Mil Dias.
A sua marca mais duradoura parece ainda continuar a ser a foto da criança de cabelo encaracolado a enfiar um cravo no cano de uma G3, que correu mundo reproduzida em milhares de cartazes, e não é por acaso que é um tratamento gráfico dessa mesma imagem que aparece na capa deste álbum. Mais ambicioso do que o Portugal Livre no seu âmbito (uma crónica em imagens da história portuguesa da revolução republicana de 1910 ao 1.º de Maio de 1974), o resultado final é um volume visualmente menos homogéneo, em que a acumulação de imagens fotográficas e de outras fontes (documentos oficiais, páginas de jornais, cartoons, etc) e a ausência de imagens reproduzidas ao corte nos spreads (algo que abunda naquele álbum), por óbvia economia de meios, retiram algum impacto visual e concedem pouco espaço de respiração. Ainda assim, é um feito editorial notável tendo em conta a precária situação financeira do editor.

Apesar dessa falência anunciada, Sérgio Guimarães publicou pela Mil Dias ainda mais três livros profusamente ilustrados em torno da iconografia do PREC: Diário de uma revolução, O 25 de Abril visto pelas crianças e As paredes na Revolução (em baixo), todos em 1978. Este último é particularmente interessante (tendo até em conta o actual contexto de revitalização do muralismo político), servindo de registo visual dos murais que adornaram as paredes de algumas zonas da capital e, de resto, um pouco por todo o país, durante mais de uma década.

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Trata-se de um volume sem qualquer pretensão de análise estética ou sócio-politica dos murais (não há sequer legendas indicando a sua localização), limitando-se a reproduzir fotos dos mesmos em maior ou menor grau de detalhe (particularmente apelativas são as fotos que permitem ver o contexto mais alargado dos murais, quando articulados com janelas, portas, etc).

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Publicado dez anos depois da Revolução de Abril, como catálogo de um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, o que torna pertinente a inclusão deste volume nesta lista é a inevitável reflexão que, tanto os textos como o projecto gráfico de João Botelho e Luís Miguel Castro, acabam por fazer sobre a iconografia do PREC e a imagem fotográfica, mesmo que grande parte das imagens reproduzidas sejam fotogramas dos filmes exibidos ou mencionados. A referência à fotografia de imprensa, contudo, é ainda incontornável, até pelo recurso ao extremo aumento de alguns detalhes dessas imagens, impondo a trama de pontos do offset como elemento estético. Essa reflexão é articulada na “mesa redonda”, em que vários intervenientes (entre os quais o fotógrafo Jorge Molder e o cineasta Rui Simões) analisam a relação das imagens (fotográficas, cinematográficas, televisivas) da Revolução com o seu tempo. É precisamente Molder que dá um exemplo desse “arrefecimento” analítico que o recuo de dez anos permitia:

“De todas as imagens, aquela de que me recordo melhor é a de um poster com uma criança a pôr um cravo na espingarda de um militar. E era uma imagem de estúdio. Na altura isso fez-me confusão. Num momento em que tudo se passava na rua, enquanto as imagens tentavam captar a espontaneidade das pessoas e uma certa euforia, a imagem que para mim prevaleceu era cheia de tiques e, acho que isso é importante, era uma imagem de estúdio”. (25 Abril Imagens, Cinemateca Portuguesa, 1984, p. 10)

 

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Mil dias. Teria sido essa a distância precisa entre as ilusões revolucionárias e a definitiva desilusão, amparada pela “normalização democrática”? Numa cena perto do final de Ecce Bombo de Nanni Moretti (1978), Michelle (o jovem interpretado pelo próprio Moretti) vasculha os seus recortes de imprensa dos últimos anos, os restos dessas ilusões revolucionárias. Um desses recortes é precisamente sobre a revolução portuguesa. “Já não me dizem nada”, conclui. Quantos Michelles portugueses, por essa mesma altura, não terão dito o mesmo e lançado esses recortes, essas revistas, esses cartazes, esses livros para os cantos escuros dos alfarrabistas ou os caixotes das feiras de velharias onde ainda hoje repousam?

 

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Martim Avillez: incandescentes apocalipses

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Martim Avillez faleceu a 24 de Janeiro, no meio do esperado e já quase proverbial silêncio dos “especialistas” em “cultura” na imprensa portuguesa. Junte-se a esse habitual silêncio a existência de um jornalista/comentador televisivo homónimo e encontrar uma referência ao acontecimento e ao artista torna-se impossível, por muito que se puxe pelo Google.

Em conversa com o pintor Eduardo Batarda no ano passado, no contexto do livro sobre a Afrodite que preparo, Martim Avillez (com quem eu desejaria ter também conversado) tinha obviamente sido assunto, mas foi aí que soube que ele  estava infelizmente já muito mal. Má sorte ter sido ilustrador da Afrodite, tê-lo sido (ilustrador) nos anos 70 e com alguma fama ou ter-se definido como autor de BD. Tomada em partes ou em mistura, eis uma receita tóxica e conducente ao esquecimento por estas bandas. Exemplos? Henrique Manuel (morto há 20 anos no meio da indiferença geral, indiferença que continua, até para os lados da Gulbenkian, que o incensou fugazmente), Eduardo Batarda (que não voltou a ilustrar um livro depois da Antologia de Poesia Latina da Afrodite, em 1975) ou Martim Avillez, notável ilustrador do Apocalipse do Apóstolo João, da mais excêntrica edição do Livro de São Cipriano e do Sade da 2.ª edição da Filosofia na Alcova para a Afrodite, já para não falar de um dos mais icónicos livros dos anos 70, o Pacheco versus Cesariny. Não fosse uma nota na página de “Diversos” do Público do dia 29, a anunciar para o dia 31 a missa do 7.º dia da sua morte (ocorrida, portanto, no dia 24 de Janeiro), nenhum registo teria ficado do acontecimento (não sei se entretanto chegou a ser publicado um obituário – em 1993, Henrique Manuel teve, pelo menos, direito a um – mas pesquisas na internet continuam sem revelar nada até ao momento em que escrevo este texto). Por manifesta ignorância minha, não pretendem estas linhas ser essa contribuição obituarista, mas antes uma referência ao seu trabalho como ilustrador de livros, em particular o notável portfolio que desenvolveu na primeira metade da década de 1970 para a Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello.

Se não nos move o desejo de conhecer mezinhas para deixar um ou uma amante “cativados” (ou, pelo contrário, para fazer com que se “desliguem”), a única razão para se procurar hoje um exemplar do Grande Livro de São Cipriano (em particular, um exemplar da primeira edição desse texto pela Afrodite em 1971, na sua colecção de “Clássicos”) escreve-se com duas palavras: Martim Avillez. A ilustração deste popular grimório medieval foi a grande entrada do artista no catálogo da chancela, num momento de particular pujança da Afrodite, passados que estavam os anos das perseguições policiais, dos livros proibidos e dos julgamentos no Plenário (o julgamento sobre a Antologia da Poesia Erótica e Satírica fora em 1970 – com as esperadas condenações – e em 1971 é incluído no Index censório o último livro da Afrodite antes da Revolução de Abril de 74, o Anti-Duhring de Engels). O início da década é marcado por lançamentos “bombásticos”, como o de Dezembro de 1971 (o do “editor na banheira”, como titulou o Diário de Lisboa), colecções importantes como a dos “Clássicos” e notáveis edições de textos importantes como a Alice no País das Maravilhas de Carroll (a primeira edição “não infantil” desse texto em Portugal) ou A Sociedade do Espectáculo de Debord (a quarta edição mundial desse texto). Avillez juntava-se a um grupo de jovens artistas que orbitava em torno da Afrodite, como o seu colega nas Belas-Artes (1) de Lisboa Eduardo Batarda (que ilustrara de maneira brilhante a Arte de Furtar em 1970) ou Carlos Ferreiro (vindo já do grande sucesso de crítica e vendas que fora a Antologia do Humor Português de 1969), e a sua estreia não podia ter sido melhor.

Trata-se, como esperado, de um autêntico catálogo de bizarrias, às quais Avillez empresta algum humor, denotando já as influências da banda desenhada na composição dos desenhos (uso de vinhetas, recurso a onomatopeias), e num estilo que varia do traço minucioso, pleno de detalhes e meios-tons em hachuras delicadas, até ao quase esboço, sempre com um uso muito eficaz dos espaços em branco na composição (apesar do seu gosto pontual pelo excesso, Avillez estava longe de cultivar o “horror vacui”). O que torna esta primeira edição da Afrodite verdadeiramente notável é o facto de ser impressa na sua quase totalidade – capa e miolo – com cores directas (incluindo dourados e prateados) e num efeito de gradiente (uma técnica conhecida como “split fountain”). Sugestão do próprio ilustrador, por influência do grafismo psicadélico Pop londrino e californiano do final dos anos 60? Decisão do “controlador gráfico” José Marques de Abreu (2) à revelia do ilustrador (o efeito faz com que se perca o impacto e a intensidade dos negros em alguns desenhos)? Obra do acaso acolhida por ambos? O certo é que o resultado final eleva a edição a um nível visual que certamente nenhuma outra do mesmo texto atingiu ou procurou fazê-lo, acentuando o carácter mágico e alucinante deste e dando cor ao “satanismo light” que Ribeiro de Mello tão astutamente explorou na campanha de promoção e na sessão da “banheira”, fazendo-se acompanhar por figurantes vestidos de “Diabo”.

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Em 1972, na celebração do Ano Internacional do Livro, Ribeiro de Mello decide publicar o texto bíblico conhecido como o Livro do Apocalipse, atribuído ao apóstolo João, e encomenda de novo a Martim Avillez as ilustrações. Estamos ainda na ordem do mágico e do irracional, na linha do livro anterior, mas a escala e o âmbito são mais vastos, o que permite ao ilustrador dar uso ao seu pendor tonitruante e ao gosto pelo macabro, com um requinte de detalhe no desenho  e na composição dos planos que extravasa os limites que o livro de S. Cipriano impusera. A colecção “Extra” da Afrodite, inagurada pela edição da Alice no País das Maravilhas em 1971 – e em que o Apocalipse do Apóstolo João foi publicado – não era, na verdade, uma “colecção” propriamente dita mas uma lista de obras próximas ao espírito do catálogo do editor e cuja preparação gráfica estava isenta de qualquer constrangimento: os formatos variavam enormemente de livro para livro, e a liberdade dada às soluções de paginação e ilustração era igualmente muito vasta.

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O formato quadrado e o impacto visual (o desenho continua pela lombada e contracapa e repete na folha de rosto, permitindo uma dupla valência e uma segunda leitura mais abrangente do plano) e tipográfico da capa (o uso de uma fonte muito semelhante à Avant Garde no título, numa versão ultra fina e com espaçamento apertado, é, ao mesmo tempo, uma concessão compreensível à moda tipográfica do tempo e uma solução certeira no encaixe com a composição geométrica que sobreimprime o desenho) concorrem para criar a entrada perfeita num livro sobre cuja aportação visual de Martim Avillez se pode dizer que é “incandescente” (como o escreveu de facto Isabel da Nóbrega no Diário de Lisboa de 21 de Dezembro desse ano).

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Óbvio devedor do Surrealismo e consciente da tradição iconográfica escatológica, Avillez aproxima-se também dos modos gráficos e narrativos da banda desenhada, sobretudo da que na altura saía das páginas das revistas francesas próximas do underground, como a Hara-Kiri ou a Actuel (veículos de influência óbvios para artistas gráficos portugueses daquela geração e naquela “onda” cultural: numa nota biográfica publicada no 2.º número do jornal & etc sobre Nuno Amorim, já então ilustrador na Afrodite, a influência da Actuel é admitida de forma explícita), como é nítido, por exemplo, no uso das “vinhetas” na composição de alguns quadros, ou no ritmo “sequencial” de algumas ilustrações.

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Em cima: nestas quatro ilustrações do Apocalipse é nítido um ritmo sequencial, criando, através do folheamento, uma ilusão cinética e um efeito cinematográfico.

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Anúncio de imprensa para promoção da edição do Apocalipse do Apóstolo João (1972).


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Exemplar da tiragem especial em capa dura e sobrecapa de 200 exemplares da edição do Apocalipse (fotos gentilmente cedidas por Paulo da Costa Domingos).


Prova das cumplicidades “operativas” que o editor da Afrodite cultivava é o texto que Manuel João Gomes escreveria sobre esta edição, publicado no número 4 (de 28 de Fevereiro de 1973) do “quinzenário cultural” & etc de Vitor Silva Tavares, antigo editor da Ulisseia e que fora até aí o responsável pelo “Suplemento Literário” do Diário de Lisboa (e, em breve, editor de livros sob a mesma chancela da & etc, e com Ribeiro de Mello e a mulher como sócios fundadores). Manuel João Gomes personificava precisamente essas pontes de contacto entre Ribeiro de Mello e Silva Tavares: começara a escrever no DL pela mão deste pouco tempo antes de a Afrodite publicar a sua tradução (com José Vaz Pereira) da Alice de Carroll, fazendo-a acompanhar das suas notas manuscritas sobre os significados arcanos e psico-sexuais do texto original, naquela que foi uma das melhores edições de Ribeiro de Mello. Nesse número do & etc, ele assina um texto largamente encomiástico sobre essa edição do Apocalipse do Apóstolo João, chegando a cotejar as ilustrações de Avillez com uma das gravuras de Durer:

“Como se fez uma edição marginal. Foi a que fizeram Ribeiro de Mello e Martim Avillez. A leitura que iconograficamente MA realizou, segue processos que [...] não deixam em certos pontos de nos chamar a uma outra forma de ler. Tomando como modelo de leitura muitas vezes a liberdade que o Autor usou na sua escrita, podemos dizer que MA:
– reconstituiu iconograficamente o texto-fetiche e chamou-lhe seu; podemos designar a operação realizada como uma leitura de grau zero: vive a ilustração de uma tal inocência frente a escrita que isso acaba por imprimir violência e crueldade à leitura, criticando o texto como nenhuma ilustração das que conhecemos o conseguiu…”

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Em cima: “confronte-se Durer e Martim Avillez” (Manuel João Gomes in & etc n.º 4, 28.02.1973).


Num registo mais contido (tanto em qualidade como em quantidade), revisitando iconograficamente algum do território do S. Cipriano, é de 1974 a sua colaboração na 2.ª edição da Antologia do Conto Fantástico Português, com uma ilustração para a capa (que não faz esquecer a que Rocha de Sousa fizera para a 1.ª edição) e outra no interior e um friso decorativo que se repete na introdução de cada texto.

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O livro final de Avillez para a Afrodite, em 1975, seria um projecto de suma importância no contexto do catálogo de Ribeiro de Mello. Quase dez anos depois da 1ª edição da Filosofia na Alcova do Marquês de Sade ter sido retirada do mercado e transformada no pretexto para um duro e sumário processo do qual saíram condenados quase todos os seus colaboradores, o editor, dois anos após a Revolução, volta à carga e muda tudo. Motivo forte para isto foi, por certo, o facto de a edição de 1966 ter sido considerada, quase unanimemente, bastante medíocre (a tradução fora um processo caótico sem qualquer controle, e as ilustrações de João Rodrigues – habitualmente um bom cartoonista no Jornal de Artes e Letras, desenhador repentista de “mesa de café”, com uma veia sombria e sarcástica e um traço vivaz – pareciam traduzir a impreparação ou o receio do artista perante tamanha encomenda: já Luiz Pacheco se referia, em carta a Cesariny, ao “nojo dos desenhos” de J. Rodrigues e a sensação de rigidez e insipiência anatómica destes deixava-os longe do nível que ilustradores anteriores de Sade como Valentine Hugo, Lilian Gourari ou Schem [Raoul Serres] tinham atingido). A escolha de Avillez é mais uma prova do “olho” certeiro de Ribeiro de Mello (afinal de contas, Henrique Manuel, habitual já na Afrodite, estaria também disponível, tal como Nuno Amorim, que estaria  no seu melhor a ilustrar esse ano o Super Macho de Jarry, ou mesmo Cruzeiro Seixas, que recuara em 1966 perante a possibilidade de fazer as ilustrações e teria em 1976 desenhos seus num livro da Afrodite, Do General ao Cabo Mais Ocidental): o Sade seria um passo lógico na continuação dos dois livros anteriores, passando do “gabinete de curiosidades” feérico do São Cipriano ao meticuloso exercício de escatologia do Apocalipse para culminar neste Sade pós-68, quase contemporâneo do de Pasolini (Saló sairia um ano depois), soturno e desencantado, em que o sexo e a possibilidade de titilação sensual (que eram ainda visíveis nos tímidos desenhos de João Rodrigues, e notórios nos ilustradores franceses anteriores) são cruamente dissecados e expostos como maquinações (literais, dado o recorrente desenho de máquinas) de um jogo de poder e de opressão por parte da “classe dominante”. O colchão cor de rosa, desenhado meticulosamente num traço delicado, que cobre a capa, contracapa e – de perfil (bela solução) – a lombada, é a ilustração perfeita dessa crueza sem sombra de sofisticação, que nem a cuidada factura manual da tipografia desfaz. (A curiosa decisão de Ribeiro de Mello de incluir, em “posfácio”, a reprodução dos documentos do processo da 1.ª edição de 1966 reforça esse aspecto sombrio do livro).

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Esta nova edição do Sade foi um dos cinco livros “invulgares” com que o editor “investiu” na Feira do Livro de Lisboa no “Verão Quente” de 1975, e um dos desenhos “do trotamundos Martim Avillez”chega a ser reproduzido pelo Diário de Lisboa na notícia que disso dá conta a 24 de Junho.

A coroar essa brilhante primeira metade da década de 70, Avillez tinha sido ainda o responsável pela capa e as ilustrações do último livro de Luiz Pacheco na célebre colecção da Estampa “Novas Direcções”, onde se tinham publicado Exercícios de Estilo e Literatura Comestível, livros que deram a tardia fama (e algum proveito) ao autor quase quinquagenário no arranque da década. Pacheco Vs. Cesariny (1974) estava pensado pelo seu autor como um grande regresso em forma num estilo em que era mestre consabido – a epistolografia – e como meio de limpar as teias de aranha na sua relação já longa com o “papa” do Surrealismo português, Mário Cesariny. A Revolução de Abril relegou subitamente o livro e as polémicas geracionais e inter-pessoais nele contidas para um plano secundário (disso se lamenta o autor no Diário Remendado), mas o trabalho de Avillez é mais uma vez notável, com uma mão cheia de ilustrações em torno do mote da máquina de escrever e, sobretudo, uma capa icónica, conjugando o seu estilo exuberante de hachuras e traço nervoso no desenho da caneta de dois aparos (que apontam para os dois nomes titulares) com um esquema cromático e tipográfico minimalista (o uso da tipografia “stencil” é particularmente eficaz).

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Em cima: apesar da desilusão com a carreira do livro após a sua publicação, Pacheco terá gostado minimamente dos desenhos de Avillez para o Pacheco versus Cesariny, a julgar pelo facto de em 1992 ter usado um deles na capa da sua edição (pela Contraponto) de O Uivo do Coiote.

Do seu trabalho como ilustrador em Nova Iorque, cidade onde se radicou a partir da década de 1970, encontram-se registos dispersos quer na imprensa mainstream, como a revista New York (em baixo) ou o New York Times Book Review, quer em publicações experimentais e “alternativas”, como a Semiotext(e), onde publicou em 1977 uma banda-desenhada “mito-biográfica” com base nos textos de Friedrich Nietzsche, “My life, by Friedrich Nietzsche”.

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Quanto à ilustração de livros nesta fase “americana”, registam-se alguns exemplos curiosos, como o de Class: A Guide Through the American Status System de Paul Fussel (1983), um guia satírico do mapa de “classes sociais” americanas e seus tiques. O nome de Avillez chega a constar como co-autor (com Susan E. Meyer) de um manual de desenho publicado em 1985 pela Macmillan.

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Num dos últimos números da revista Lusitania (que fundou em Nova Iorque em 1988 e que foi editando intermitentemente, partilhando ou cedendo o leme a editores convidados), o décimo (“The 23″, publicado em 2001), Avillez impõe de novo o seu cunho visual e a sua preferência pela BD como modo narrativo e expositivo na autoria do comic que dá o título à edição, contando a história de vinte e três judeus sefarditas que fogem do Brasil no século XVII perante a iminente chegada da Inquisição ao território. A encadernação “à japonesa”, em acordeão (protegida por capa dura e inserida numa caixa) dispõe a BD numa face e quatro ensaios na outra. Quase trinta anos depois do Apocalipse da Afrodite, este terá sido, possivelmente, o último grande momento gráfico de Martim Avillez como criador de livros.

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The 23, banda desenhada da autoria de Martim Avillez publicada no n.º 10 da revista Lusitania, 2001 (fotos gentilmente cedidas por Ana Neto).


(1) Cf. “Pintar em Portugal, Anos 60, Eduardo Batarda” in Eduardo Batarda Pinturas 1965-1998. Lisboa: CAM-FCG, 1998.

(2)  Figura esquiva: para além das fichas técnicas dos livros da Afrodite dos anos 70, nada se encontra dele ou sobre ele. Seria, ao mesmo tempo, um pseudónimo do editor e uma homenagem ao homónimo fotógrafo e artista gráfico portuense, outrora director da revista Ilustração Moderna e falecido em 1958? Seria o mesmo José Marques de Abreu que surge, na década seguinte, como arranjador gráfico em edições da INCM?

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Por subterrâneos e terrenos baldios

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E quando se pensava que era já impossível, quando se começava a acreditar que a espera era em vão, eis que chega a primeira (com franqueza, não me consigo de lembrar de nenhuma a este nível antes feita) monografia sobre uma editora feita por quem trabalhou nela e com ela colaborou e, sobretudo, da forma como (creio eu, pelo menos) uma monografia destas deve ser feita: cruzando a herança propriamente literária do seu catálogo com o lastro visual desse mesmo catálogo, indo fundo ao(s) arquivo(s) e retirando deste(s) documentos que sejam ao mesmo tempo inéditos ou pouco vistos, relevantes aos desígnios da monografia e com um alto valor ilustrativo e com um texto ou um conjunto de textos que consigam evitar a redundância monocórdica da hagiografia ou a frieza formalista da prosa académica.

Coordenado e orientado graficamente (e brilhantemente) por um colaborador de primeira hora da &etc, Paulo da Costa Domingos, este Uma editora no subterrâneo (edição Letra Livre) tem tudo isso e mais. Para além do conjunto de textos de autores convidados, que abrange um leque heteróclito de indivíduos, desde autores e colaboradores da casa (como Fernando Cabral Martins, Adília Lopes, Isaque Ferreira, Luis Henriques ou o próprio Costa Domingos) a editores do mesmo lado da “barricada” (Vasco Santos da Fenda), incluindo gente que apenas há bem pouco tempo pôs o pé na soleira da porta ao cimo das escadas que dão para a “cave”, como Emanuel Cameira (que prepara uma tese de doutoramento sobre a &etc) e eu mesmo, que passei essa porta e desci essas escadas para falar com o Vitor Silva Tavares sobre o Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite há sensivelmente um ano e fui recebido com a naturalidade com que se revê um membro da “família”.

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Os autores estão indicados apenas pelo nome: nenhuma biografia cria aqui entre eles qualquer tipo de hierarquia de valor (social, académico, “corporativo”, etc), tendo apenas o texto que escreveram como bilhete de identidade face ao leitor. A ausência de um  índice pode não ser alheia a esta forma radicalmente democrática, ou anárquica, de organizar o volume, obrigando o leitor a folhear sem guia, a embrenhar-se nessa terra incognita. E as recompensas aos aventureiros são muitas e variadas, a começar pela recolha de textos inéditos ou previamente publicados mas perdidos nos arquivos da imprensa: duas cartas de Luiz Pacheco a Vitor Silva Tavares, documentação dos arquivos da Censura relativa à produção da “folheca” &etc a partir de 1973, a transcrição de uma carta do editor ao seu então já colaborador “Paulinho” da Costa Domingos, em pleno “Verão quente” de 1975, a republicação do já célebre texto de Pacheco no Diário Popular em 1976, “O Galimar da Rua da Emenda”, e da importante entrevista do editor a Alexandra Lucas Coelho, publicada em 2007 no Público, e, em particular, da “auto-entrevista” que Silva Tavares propôs como defesa do seu caso no episódio da apreensão da edição do folheto O Bispo de Beja, publicada no “seu” Diário de Lisboa em 1980. Ainda particularmente notáveis são quatro pequenas notas escritas pelo próprio Silva Tavares, relativas à edição ou recepção de outros tantos livros da & etc, e que tinham previamente sido publicadas como folhas-de-sala a acompanhar uma exposição comemorativa dos 33 anos da editora, em 2006.

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Quanto ao aparato visual da edição, é igualmente impressionante em quantidade (incluindo a reprodução de todas as capas do extenso catálogo de quarenta anos) e em qualidade, com particular relevância para algumas fotos, esboços preparatórios de desenhos que deram capas, um notável envelope ilustrado de Carlos Ferreiro enviado de Paris, uma colagem-homenagem do editor a Olímpio Ferreira, etc, etc. Refira-se que o texto de Luis Henriques, “A voz subterrânea”, se salienta particularmente no que a este aspecto gráfico do longo catálogo da editora diz estrito respeito.

Que a mão segura, o bom gosto e a memória impecável de Paulo da Costa Domingos tenham sido os responsáveis por todo este titânico trabalho de recolha, selecção, tratamento e apresentação gráfica não devia surpreender quem conhece os livros da Frenesi ou quem com ele fala no Anchieta todos os Sábados ou anualmente na Feira do Livro ou quem viu a sua decisiva participação no documentário de Cláudia Clemente sobre a editora, tapando alguns hiatos de contextualização e compreensão histórica do objecto do filme. E é por culpa dele que entro nesta história.

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O meu texto começa com a primeira, a mais remota memória pessoal de um encontro com um livro da & etc: um exemplar do Dissertação do Papa sobre o Crime de 1976, que encontrei em 1980 nuns misteriosos e apetecíveis caixotes de livros por cuja chegada de Luanda o meu pai esperara quase dois anos, desde que abandonara de vez a capital angolana, e que ainda hoje guardo. A cuidada factura continua a espantar todos estes anos depois: a sobrecapa de papel branco revelando a cartolina da capa, o impacto do negro e vermelho naquela, a sinuosidade tubular do desenho das letras de Carlos Fernandes, a aposição delicada de um hors-texte no verso da primeira página, a reprodução do motivo gráfico da capa e sobrecapa na folha de rosto, tudo ali remete, ao mesmo tempo, para o contexto visual que produziu esta edição (muito próximo da alguma banda-desenhada underground ou do design das capas de discos) mas também para toda uma cultura de oficina que Silva Tavares absorvera nos quase vinte anos anteriores.

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É um perfeito exemplo de uma marca de gosto do editor,  imposta por ele e não pelo designer, uma marca que encontramos já, por exemplo, dez antes antes, nas capas de Espiga Pinto para a colecção “Poesia e Ensaio” da Ulisseia (onde Silva Tavares foi director editorial), tal como é evidente no uso de sobrecapas em edições brochadas, com o arrojo do papel kraft em impressão serigráfica. E se dúvida houvesse sobre o gosto já antigo do editor da & etc de se meter em arriscadíssimos projectos gráficos, em que a fronteira entre livro comercial e livro de artista se esbate, que outra prova seria necessária além da edição d’A Cidade Queimada de Cesariny, em 1965?

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Além da pequena memória pessoal, parti para uma proposta de filiação de Vitor Silva Tavares e da & etc no que chamo de “exclusiva irmandade de piratas poéticos”, um grupo restrito de editores corajosos que ao longo da história trabalhou no fio da navalha e com o ferrete de “marginais” (aos sistemas religiosos, políticos, financeiros, jurídicos, etc, e por vezes “contra” eles também). Pegando no célebre “carolo” de Pacheco, chamando Silva Tavares de “Galimar” dos pequenos, aproveitei para evocar Eric Losfeld e a sua Terrain Vague como um modelo mais adequado ou alternativo ao ubíquo Pauvert, que era, no fundo, o tipo de editor que todos os pequenos editores “à margem” ou “contra” dos anos 50 aos 70 do século passado queriam ser. Descobri há uns anos uma curiosa monografia sobre Losfeld e a Terrain Vague, La Légende du Terrain Vague, publicada em 1977, dois anos antes do editor, já “retirado” (e falido) das lides independentes, publicar a sua autobiografia (Endetté comme une mule, ou la passion d’éditer). Se descontarmos o aspecto bem mais “pobre” desta edição (toda a preto, com uma paginação muito elementar, e sem o rasgo gráfico que se associara a algumas famosas edições de Losfeld), as suas motivação e estrutura são muito próximas da edição da Letra Livre: uma monografia essencialmente evocadora e celebratória, recorrendo ao vasto arquivo visual da editora celebrada e reunindo uma extensa série de depoimentos pessoais de gente do “meio”. Claro que a diferença crucial aqui é que essa edição de 1977 celebrava uma carreira já terminada e esta que acaba de ser lançada celebra um percurso que “segue dentro de momentos”.

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Termino evocando outros dois corajosos “espalha-brasas” através de uma fotografia onde se pode vê-los juntos, tirada em Nova Iorque em 1960 (a foto, que não está reproduzida no texto, foi retirada daqui): Barney Rosset, da Grove Press, e Maurice Girodias, da Olympia Press, combatentes na vanguarda da resistência à censura nos anos 50, que acabaram também falidos e quase esquecidos. Com Losfeld, três exemplos do que a recente obsessão com a gestão macroeconómica e o marketing musculado e milionário na edição (com o “sucesso”, em suma) facilmente nos levaria a concluir tratarem-se de “fracassos”, mas cujos sorrisos serenos e secretamente cautelosos me dizem que são, antes, “alguém que sabe e guarda um segredo, a chave de um tesouro imaterial que, por isso mesmo, parece difícil se não impossível de quantificar. É, por paradoxal que pareça, a foto de dois vencedores. Creio que Vitor Silva Tavares conhece esse segredo e tem uma cópia dessa chave.” (& etc – Uma editora no subterrâneo, p. 71).

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