O cinema do outro lado do Muro

09.11.2009 - Leave a Response

DDRposters_handschick1970

Segundo Karlheinz Borchert, os melhores cartazes de cinema da República Democrática da Alemanha foram de Erhard Gruettner (alguns exemplos do seu trabalho, com um fabuloso cartaz para Serpico Prova A), mas foi este cartaz de 1970 de Heinz Handschick que me fez licitar num desses leilões online. Mais do que o seu baixíssimo preço, foi a visível qualidade tipo+gráfica que me atraiu, no fundo, o que nos faz ainda gostar de cartazes (acabei por não conseguir ficar com ele).

Prova A
DDRposters_gruttner1967

DDRposters_gruttner1983

DDRposters_gruttner1977

Durante anos, o que nos chegava graficamente da RDA eram os cartazes políticos, através, sobretudo, da Festa do Avante!, mas nada que me lembre do que pude ver nesses anos finais da década de 80 se aproximava da enorme riqueza gráfica que agora se pode redescobrir online. No seu melhor, o estilo destes cartazes da Alemanha de Leste parece-me ser um misto do lado mais pictórico dos cartazes polacos (tipografia desenhada, pintada ou feita a partir de papel rasgado, influências expressionistas na representação da figura humana, a que talvez não fosse estranho o facto de, por exemplo, Jan Lenica ter trabalhado em ambas as Alemanhas) com a escola de foto-montagem e colagem dos alemães ocidentais. Saídos do mesmo contexto de baixo orçamento para promoção mediática (desnecessária no caso dos países de Leste, onde a competição comercial era inexistente) e sua compensação através de alta concentração de talento visual, há curiosas semelhanças no modo de produção destes cartazes de cinema da RDA e os que as pequenas distribuidoras independentes do lado ocidental, como a Atlas, encomendavam, e alguns deles não ficariam mal no porfolio de um Hans Hillmann, por exemplo. Com ambas as escolas, estes artistas da RDA partilhavam uma mestria evidente e considerável na criação do que Philip Meggs chamou de “imagem conceptual”.

Tal como na Polónia, na Checoslováquia ou em Cuba, também da RDA um regime duro e pouco propenso a liberdades individuais parecia não ser obstáculo ao cosmopolitismo estilístico e à variedade “autoral” nas artes gráficas. Eis alguns inspirado(re)s exemplos deste vasto portfolio, todos posteriores à erecção do Muro em 1961 e anteriores à sua queda em 1989. No sentido descendente, os autores são Ruddigkeit, KummertGottsmann, Schallnau, Schulz, Wongel, De Maizieres e desconhecidos (últimos 4). E mais (muito mais!) pode ser encontrado aqui ou aqui.

DDRposters_Ruddigkeit1966

DDRposters_1987

DDRposters_gottsmann1967

DDRposters_schallnau1975

DDRposters_schulz1978

DDRposters_wongel1977

DDRposters_deMaiziere1977

DDRposters_1967

DDRposters_1970

DDRposters_1976

DDRposters_1979

In English soon.

Primero passo (ou segundo): work in progress

05.11.2009 - Leave a Response

Por falar em Ficção Científica, eis o meu primeiro passo no género (bem, talvez o segundo: o primeiro terá sido para a edição da Livros de Areia de Disney no Céu Entre os Dumbos de João Barreiros em 2006, um “conto  negro em Technicolor para maiores de 18 anos” como o descrevemos na altura – Prova A).

Prova A
disneydumbos_capa

Trata-se da capa para Cloud Permutations, uma noveleta do escritor israelita Levie Tidhar a ser publicada em breve pela small press inglesa PS Publishing. A localização da acção (uma versão fantástica dos arquipélagos da Melanésia, no Pacífico Sul, em cuja ilha de Vanua Lava o autor vive) deu o mote para a ilustração (clicar na imagem para ver com detalhe).

cloud_DJ

FIRST FORAY (OR SECOND): WORK IN PROGRESS
Speaking of SF, here’s my first foray into the genre (well, maybe my second: the first one was the cover for Livros de Areia’s 2006 edition of João BarreirosDisney no Céu Entre os Dumbos [Disney in the Sky with Dumbos], “an R-rated dark tale in Technicolor” as we described it then).

This is the cover for Levie Tidhar’s novelette Cloud Permutations, to be published by UK-based PS Publishing. The setting of the story (a fantastic version of the Melanesian archipelago in the South Pacific, in which island of Vanua Lava the author lives) gave me the clues for the illustration (click to enlarge).

Ainda Terry James

05.11.2009 - Leave a Response

salivatree1

Eis que chega às minhas mãos o primeiro dos livros do SFBC para que Terry James compôs as capas, e de que já escrevi aqui e aqui. Continuo sem saber nada deste designer, mas na simplicidade e elegância deste pequeno volume (19 x 13 cm) de The Saliva Tree de Brian Aldiss (edição de 1967) está a prova da um programa audacioso de redesenho de uma colecção de Ficção Científica, sendo que a sua ousadia está em algo que marcou os anos de 1960: o rompimento das barreiras genéricas pela força da experimentação.

salivatree2

A ousadia particular de James nestas capas, parece-me, é a de arriscar “vestir” um livro de FC como se fosse um ensaio de Filosofia ou um livro de poesia (curiosamente, as capas da série Penguin Modern Poets, a partir de 1962, poderiam ter sido uma inspiração para James – Prova A), recorrendo a uma capacidade de abstracção visual que precede outras experiências similares no género, como as 16 capas de Franco Grignani também para a Penguin (1969-1970).  E resulta tão bem em fundo preto como em branco.

Prova A
penguinmodernpoets3
penguinmodernpoets2

STILL TERRY JAMES
Here it is, the very first book in the SFBC series I have of the ones whose covers Terry James designed, and on which I already wrote here and here. I still know nothing about this designer, but in the simplicity and elegance of this The Saliva Tree by Brian Aldiss (published in 1967) lies the proof of an audacious redesign of an entire SF collection, an audacity that was marked by what was at the core of the 1960s: the breaking of gender and genre barriers by sheer will of experimenting. James’ particular audacity in these covers, I think, is in daring to “dress up” a SF book as if it were a Philosophy essay or a poetry tome (the covers of the Penguin Modern Poets series, from 1962 up until 1970, could very well have been a source of inspiration to James –
A), showing a skill in visual abstraction that preceded similar experiences in the genre, like the 16 covers Franco Grignani designed also for Penguin (1969-70). And it works as well in a pitch black as in a white background.

David Wills, os deuses e as capas de livros

01.11.2009 - Leave a Response

bubbles_01-1

Em busca de informações sobre Barney Bubbles (1942-1983), descobri há tempos um dos melhores blogues sobre a memória e a experiência de vida na imprensa underground em Londres em finais dos anos de 1960 e inícios da década seguinte. David Wills conviveu e trabalhou com Bubbles (é deles, por exemplo, o cartaz que ilustra este post, publicado no número 12 da Oz em Maio de 1968), e no seu blogue traz-nos um depoimento íntimo (quase visceral) da vida e do trabalho dele nesses anos, sem o isolar, contudo, num pedestal: ali respira-se o espírito do colectivismo anárquico que moveu essa onda underground (“Barney and I were working as communards”) e toda a vida criativa de Bubbles (ou Colin Fulcher), bem como a dos inúmeros personagens mais ou menos excêntricos que compunham essa cena e que Wills (ele também um desses personagens) retrata de forma cândida e admirável .

Num curto email seu que acabo de receber, além de um simpático “yo” (não um cockney “oi”, mas a diferença o próprio Wills poderá explicar), está esta frase lapidar sobre capas de livros, à qual dou o devido destaque.

DAVID WILLS, THE GODS AND BOOK COVERS
Looking for insights on Barney Bubbles, I recently found what must certainly be one of the best blogs concerning the memory and the life experiences in the London underground press of the late 1960s and early 1970s. David Wills shared a close friendship with Bubbles (theirs is the poster that illustrates this post, published in Oz’s issue 12 in May 1968), and in his blog he gives us an intimate (and almost visceral) account of his life and work in those years, without isolating him in a pedestal though: what we breath in there is the spirit of anarchic collectiveness that moved that underground wave (“Barney and I were working as communards”) and Bubble’s (or Colin Fulcher’s)  creative life, as well as that of the countless more or less eccentric characters who were part of that scene and whom Wills (himself one of those characters) portrays in a candid and remarkable way.

In a short email I just received from him, besides a friendly yo (not a Cockney oi, but he can certainly explain the difference), there’s this quite quotable sentence on book covers, which I leave as it’s due: in between quotes.


“It hadn’t really occurred to me how namby most book covers were, I thought they were dull because that was the way the gods made them.” David Wills

it hadn’t really occurred to me how namby most book covers were, I thought they were dull because that was the way the gods made them.

“The will to do that…”

23.10.2009 - One Response

mothernight_harper

Talvez a citação em título do monólogo kurtziano de Apocalypse Now seja exagerada, mas, tal como Kurtz, e perante esta capa da edição de 1966 de Mother Night de Kurt Vonnegut Jr. (pela Harper & Row, designer desconhecido), ponho-me a pensar que é feito da coragem e da vontade das editoras e dos designers para avançarem com capas assim. Num tempo de capas bonitinhas, uniformizadas e “marquetizáveis”, o confronto e o desafio ao olhar do leitor é cada mais evitado, o que, pelos vistos, não era o caso nos anos de 1960, nem mesmo para uma editora mainstream como a Harper. Entre o horror e a brincadeira infantil, eis uma capa que daria pesadelos a muitos departamentos de marketing.

Maybe the title quotation from the kurtzian monologue in Apocalypse Now is a bit over the top, but, like Kurtz, and facing this cover from the 1966 Harper & Row edition (designer unknown) of Kurt Vonnegut Jr.’s Mother Night, I’m left to wonder what happened to the courage and the will of publishers and designers to put forward covers like this one. In a time of prettyfied, uniform and market-friendly cover design, the confrontation and challenge to the reader’s eye is more and more unwelcome, which, judging by the evidence, was not the case in the 1960s, not even for a mainstream publisher like H&R. Between the horror and the childish prank, here’s a cover that would give nightmares to many a marketing department.

Atribulações da memória

21.10.2009 - 9 Responses

Gailivro_capa

Na capa do livro As Atribulações de Jacques Bonhomme de Telmo Marçal (edição da Gailivro – Leya, 2009) vemos um homem de meia idade num cenário que, sabendo de antemão que o livro se enquadra no género da Ficção Científica, poderíamos considerar “pós-apocalíptico”. Uma imagem curiosa, certamente adequada à temática dos contos publicados, mas não extraordinária, para quem acumula alguma memória visual há perto de 30 anos.

Ora é precisamente essa memória que lança o alarme: a imagem não nos parece extraordinária por uma razão, e essa razão é a sua familiaridade. É uma imagem que, apesar de suficientemente “genérica” para passar como quase “anónima”, apresenta traços suficientemente específicos para gerar uma busca imediata nesse banco de memória visual. E não são precisos muitos segundos para concluir, sem grandes margens de dúvida, que essa imagem tem uma fonte inegável: a série televisiva The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), produzida pela CBS. Uma busca mais afinada traz-nos a confirmação: trata-se de uma foto de Burgess Meredith no famoso episódio Time Enough at Last (um bancário amargurado e míope queixa-se da falta de tempo para a sua única paixão – a leitura – quando um cataclismo nuclear faz dele o único humano sobrevivente e lhe dá, finalmente, todo o tempo para ler), emitido em 20 de Novembro de 1959 durante a 1.ª época da série. É, apenas, um dos episódios mais famosos de uma das mais famosas e lembradas séries de Ficção-Científica e Fantástico. Eis alguns frames desse episódio (que pode ser visto aqui):

timeenoughatlast1

timeenoughatlast2

timeenoughatlast3

timeenoughatlast4

Para a minha geração (os nascidos no início dos anos de 1970), a série foi vista pela 1.ª vez na RTP2, à hora do jantar, pelos anos de 1988/89 (graças a uma sucessão de telenovelas portuguesas desastrosas na RTP1 que permitiu a milagrosa mudança de canal), mas outras reposições certamente se deram entretanto, tal como teria acontecido desde a sua estreia (houve mesmo, nos anos 80, uma “actualização” da série, além de um filme). E o VHS, a internet e o DVD vieram depois reforçar o estatuto de referência e a familiaridade com a iconografia da série para o público conhecedor ou curioso pelo género.

É justamente este público que a Gailivro, chancela da todo-poderosa holding editorial Leya, procura atingir com a sua colecção 1001 Mundos, onde este livro se insere. Acontece que, apesar da fama da série e do episódio, a editora “optou” por ocultar qualquer referência a ambos: badanas, contra-capa e, mais grave, ficha técnica são completamente omissas quanto à origem da imagem (à boa maneira das edições de FC da Europa-América dos anos 80, a indicação da autoria do design da capa esquece a autoria da imagem que está na base desse design – Prova A, clicar para ver com detalhe). Para um leitor não informado, tal como para um adolescente há mais de 20 anos ao comprar esses velhos livros de bolso da E-A, a autoria da capa é, de facto, unicamente da “Mor Design”, incluindo essa fotografia.

Prova A
Gailivro_Credits

Mas não é. A imagem em questão (retirada daqui)  é de um still promocional da CBS (Prova B, clicar para ver com detalhe), que aqui aparece com o autógrafo do actor.

Prova B
meredith

Pondo os critérios estéticos de parte, pelos quais posso até concordar com a escolha da imagem, o que me incomoda neste caso nem é o possível desrespeito pelos direitos do seu uso (pertencentes à CBS, que não aparece mencionada como detentora desses direitos em qualquer parte do livro), sendo que, para além de uma pequena alteração no seu canto inferior esquerdo (um quadro que emerge do entulho?), não é sequer dado um tratamento à imagem que a subtraia da sua origem fotográfica e a eleve (através de colagens ou de qualquer tipo de distorções ou intervenções gráficas) a um nível de quase independência dessa fonte, aproximando-a do que ela deveria ser: uma recriação, ou seja, uma nova imagem por direito próprio. O que me incomoda é a constatação de que uma estrutura milionária como a Leya não consegue fornecer às suas chancelas os serviços, por exemplo, de pesquisadores ou arquivistas de imagens (e, já agora, de advogados que advirtam a tempo para a necessidade de mencionar os detentores do copyright das imagens, ou apenas os seus autores no caso de elas já estarem em domínio público).

Mas o que mais me incomoda talvez seja pensar que alguém, na Gailivro ou acima dela, considerou que pôr na capa de um livro uma foto promocional quase inalterada de um famoso episódio de uma ainda mais famosa série televisiva sem qualquer menção à sua origem seria aceitável e legítimo e que passaria completamente despercebido pelo seu próprio público-alvo. Uma editora tem, entre várias, a obrigação de ser um agente cultural, e a informação prestada na ficha técnica ou em qualquer parte do livro sobre tudo o que diz respeito à sua produção (desde o nome do revisor ao nome das fontes usadas) faz parte dessa obrigação cultural. É assim que um público leitor se cultiva e se torna mais exigente.

Como designer e editor (ainda por cima com um mini orçamento, senão mesmo um não-orçamento), sei da dificuldade de encontrar imagens de qualidade e adequadas, mas sei também que é necessário um certo esforço de adaptação e transformação e, sempre que possível, uma menção e creditação das fontes.  Ignorância ou desleixo podem ser desculpas de um leitor ou até de um editor impreparados; não podem sê-lo por parte de uma editora e de um grupo editorial líderes no mercado.

Adenda (28.10.2009): Ontem, num debate sobre a edição de FC e Fantástico em Portugal, ocorrido no auditório da SPA em Lisboa, tomando a “deixa” de uma pergunta de alguém do público sobre as capas de FC em Portugal, tive a oportunidade de confrontar o editor Pedro Reizinho da Gailivro com os factos expostos neste post. Numa resposta desportiva e sensata, ele reconheceu a falta.

Mais sobre Terry James

17.10.2009 - 3 Responses

terryjames_3

O espantoso James Morrison, editor do Caustic Cover Critic, veio em socorro com mais alguma informação sobre o trabalho deste Terry James:

“Your Terry James question has me a bit stumped. I love those covers you found. He’s not listed in the Encyclopedia of Science Fiction, which is usually pretty comprehensive, and none of his work is in the Frank Collection of SF and Fantasy Art. However, I did find that he was doing covers for the UK-based Reader’s Union, a book club who did hardback reprints of popular books, up until at least 1970.”

Aqui ficam duas das capas para a Readers Union que o James conseguiu encontrar, e uma para a editora J.M. Dent (Lillian’s Dam), todas de 1970.

terryjames_2

terryjames_5

MORE ON TERRY JAMES
The amazing James Morrison (a.k.a. the Book Wonder from Down Under), the Caustic Cover Critic himself, came to the rescue with some more information on Mr. Terry James‘ work. Here are two of the covers for Readers Union he was able to find, and one for the publisher J.M. Dent (Lillian’s Dam), all of them from 1970.

Yalom vezes dois

16.10.2009 - One Response

capa_nietzsche

capa_chamemapolicia

Duas capas já em impressão para outros tantos livros de Irvin Yalom, a serem lançados por uma nova chancela que irá ser apresentada no final do mês e cujos detalhes manterei por agora em sigilo. Quando a chancela for apresentada, colocarei as imagens da capa em plano aberto, e outra capa para outro livro do mesmo autor.

São capas quase “auto-evidentes” (creio até que a capa do Quando Nietzsche Chorou poderia funcionar sem o título, dependendo do maior ou menor reconhecimento da silhueta do filósofo por parte do público), sendo que a do Chamem a Polícia (um título algo complicado para poder responder a um briefing que me pedia contenção) usa apenas um símbolo imediatamente reconhecível (a estrela amarela de David) para fazer a ligação com o tema do livro, a perseguição aos judeus na II Guerra Mundial (no caso, na Hungria ocupada). Paleta reduzida e apenas uma fonte (a Trajan). A escala não foi aqui respeitada (Nietzsche tem 22 x 16 cm, Chamem tem 19 x 13 cm).

In English soon.

Quem foi/é Terry James?

15.10.2009 - Leave a Response

SF_SFBC1969_4

Num post anterior sobre capas de livros de FC dos finais dos anos de 1960 e inícios da década de 70, já aqui coloquei imagens das capas da série de livros publicados pelo Science Fiction Book Club de Londres, que continuo a considerar (pelo seu minimalismo em plena época de exuberância Pop) como das mais belas e desafiantes que já vi, sobretudo tendo em conta o facto serem capas para livros de ficção científica, alguns dos quais não seriam propriamente as obras-primas de experimentação literária que elas parecem prometer.

SF_LSFBK2

SF_SFBC1969

Não conhecia à altura o nome do designer destas capas. Uma pesquisa mais teimosa levou-me a este site, onde se faz o registo possível da evolução do Clube de FC britânico, e onde encontrei finalmente o nome que procurava: Terry James. Um contacto meu ao responsável pelo site não obteve qualquer pista suplementar sobre quem foi ou é e o que mais fez este Sr. James que, num contexto literário mais estreito e completamente distinto, criou e manteve durante uns 4 anos (de 1967 a 1971, aproximadamente) uma série de capas seguindo o mesmo princípio posto em prática por Alvin Lustig na New Directions 20 anos antes: distanciamento face à concorrência graças ao monocromatismo rigoroso (apenas o preto), ao recurso à manipulação fotográfica e à manutenção de uma rigorosa constância formal dentro da aparente variedade. Basta um olhar para as (também brilhantes) capas que nos EUA a Doubleday publicava no seu Clube de FC para nos apercebermos do toque de génio de James nesses anos de ouro da literatura de especulação. E há algumas surpresas: na simples inversão vertical da fotografia do reflexo de uma figura humana num piso molhado, a capa de The Werewolf Principle, por exemplo, antecede em quase 30 anos a capa de Chip Kidd para The Terrorist (Prova A) de John Updike.

Prova A
kidd_terrorist

Na capa de Echo Round His Bones, de 1969, (Prova B) há um uso muito inteligente da estrutura do livro: a fotografia desfocada de um esqueleto humano cobre a capa e a contra-capa, fazendo com que a espinha dorsal coincida com a lombada (spine, em inglês).

Prova B
terryjames_9

Depois dele, o caos: após a sua saída, e a partir de 1972, o nível do design dos livros do Clube britânico cai a pique, à imagem de que aconteceu com a edição de FC em geral. Para além de uma referência no blogue do ilustrador Richard de Pesando, isto é tudo o que sei dele. Um designer que assina 53 capas deste calibre e desaparece dos registos?… Informações serão, portanto, bem-vindas.

SF_SFBC1969b

P.S.: O genérico da série juvenil The Tomorrow People (Thames Television, 1973, designer desconhecido), apesar de feito mais de 2 anos após a sua última capa para o SFBC,  tem curiosas semelhanças com a estética FC das capas de James.

WHO WAS/IS TERRY JAMES?
In a previous post on SF books covers of the late 1960s and early 1970s I have already shown images of some of the covers for the London Science Fiction Book Club, which I still regard (by their minimalism in an era of Pop exuberance) as some of the most beautiful and challenging I have ever seen, specially if one considers their were created for some quite formulaic science fiction novels (space operas and such), far from the masterpieces of experimental fiction those covers seem to promise.

I didn’t know then the name of the designer of those covers. A more stubborn research lead me to this website, where the record of the British SF club is kept, and where I finally found the name I was looking for: Terry James. An answer from the website’s manager to an email I sent gave me no further clue on who was or is or what else did this Mr. James do since then. What he did do during 4 years (1967-1971), in a narrower and completely different literary context, was akin to what Alvin Lustig had done at New Directions some 20 years earlier: creating distance from the competition through a rigorous monochromatic palette (black only), photographic manipulation with a surrealist overtone  and a solid formal consistency within an apparent variety. One look to the (also brilliant) covers Doubleday was publishing in its SF Club at the time is enough to perceive James’ touch of genius in his covers. And there’s a few surprises: in its simple vertical flip of the photo of a human figure’s reflexion on a wet surface, the cover for The Werewolf Principle, for example, precedes in almost 30 years Chip Kidd’s cover for John Updike’s The Terrorist (A).

In the cover for Thomas Disch’s Echo Round His Bones (1969, B), there is a very smart use of the book’s structure: the blurred photo of a human skeleton is laid over the entire area of cover and back cover, making its spine align with the book’s own.

After him, chaos: soon after James’ last cover for the SFBC, the level of design in their books plummeted, on a par with the general SF publishing of the 1970s. Apart from a small reference in illustrator Richard de Pesando’s blog, this is all I have on him. A designer who creates 53 covers of this caliber and then vanishes from sight?… All information is therefore quite welcome.

P.S.: The opening titles for the children’s series The Tomorrow People (Thames Television, 1973, designer unknown), although created more than 2 years after James’ last cover for the SFBC, show curious similarities to the SF aesthetics in his covers.

B

Alice recordada

07.10.2009 - Leave a Response

alice1

Creio que a terei visto pela primeira vez em Viana do Castelo, pelos idos de 2004 (ou terá sido na Barata de Roma nesse mesmo ano?). Tomando-a, aparentemente, como “mais uma” revista meio frívola sobre a cultura visual urbana, e, num segundo olhar, como um mero portfolio das várias agências de publicidade, foi com espanto que descobri, a páginas tantas, um extenso e muito completo artigo sobre o (então) inovador design dos livros da editora Cavalo de Ferro (terá sido, portanto, esse número de Outuno de 2004 o primeiro que conheci – Prova A). Era algo de totalmente inédito na imprensa cultural portuguesa: alguém decidira escrever um artigo sobre design editorial indo directamente à fonte, aos designers e editores, sem recorrer a “críticos”, “personalidades” literárias ou professores de cursos de Comunicação. Os  livros eram fotografados e mostrados de uma forma directa e despretensiosa (Jorge Silva e o seu atelier optaram aqui por uma grelha muito simples e o uso quase exclusivo da Times New Roman), com alguns spreads de exemplo (fazendo  coincidir, em certos casos, a calha dos livros fotografados com a da própria revista), e dados à contemplação como objectos estéticos.

Prova A
alice5

alice6

alice7

A atenção ao detalhe e à voz do designer neste e noutros artigos (como, por exemplo, o dedicado ao trabalho da designer Raquel Porto – Prova B) permanece, infelizmente, caso único entre nós, que não me lembro de ver nas páginas da Egoísta, da LER (quer na antiga, quer muito menos na nova incarnação), do Ípsilon ou no único jornal de circulação nacional dedicado às “letras”, o JL. Como já escrevi aqui, opera-se nas páginas desta imprensa cultural um paradoxo curioso: apesar de aí reproduzidas intensivamente, as capas dos livros criticados tornam-se invisíveis pela completa ausência de reflexão sobre os mecanismos da sua criação e articulação com os textos que representam.

Prova B
alice4

Tal como parece acontecer com estes projectos de revistas sobre livros e edição muito originais (lembro-me da Zembla), a Alice, apesar de contar com o apoio do Clube de Criativos de Portugal, durou pouco e acabou em 2005. E não fossem esses dois ou três fortuitos encontros em livrarias ou papelarias, mal teria dado por ela.

Quis o acaso que, em Abril deste ano, acabasse por conhecer a directora editorial da Alice, Maria João Freitas. Revelada como uma bibliófila informada, pude então perceber que esse cruzamento excitante de revista-portfolio com uma linha editorial quase introspectiva, literária, honestamente curiosa e sem muletas de jargão de “classe” era da sua total responsabilidade (a começar no nome da revista, como prova a sua dedicada colecção de todas as imagens relacionadas com a Alice original, a de Lewis Carroll). A minha curiosidade sobre a curta vida desta Alice materializou-se num questionário cujas respostas espero em breve poder colocar aqui.

In English soon.