Descoberta recente, e totalmente casual. Maurice Sandoz, filho do fundador da famosa empresa farmacêutica homónima, suicidou-se em 1958 aos 66 anos, em Lausanne, a pouco mais de 100 quilómetros da sua cidade natal, Basileia. Apesar desta aparente stasis geográfica, Sandoz foi um viajante compulsivo, além de demonstrar talento na química e na música. Mas foi como escritor no género fantástico que o seu nome ganhou notoriedade, para a qual as colaborações de Salvador Dali na ilustração de alguns dos seus livros terão tido certamente papel de grande relevo. Hoje em dia, o nome de Sandoz está no orgulhoso panteão dos escritores esquecidos, e são precisamente os desenhos de Dali que poderão atrair a ele leitores incautos. Foi o meu caso.
Acontece que Sandoz teve três livros seus publicados em Portugal, todos pela mesma editora, uma certa Editorial Organizações: O Labirinto (1954), Recordações Fantásticas e Três Histórias Singulares (1957) e O Limite (1957). O Labirinto tinha sido adaptado ao cinema por William Cameron Menzies (o grande director de arte de Gone With the Wind e realizador do clássico de Ficção Científica Invaders from Mars) um ano antes da primeira edição portuguesa, mas terá sido certamente a ligação de Salvador Dali (então no auge da sua fama americana) com estes textos a determinar e a justificar a sua tradução e publicação. De resto, nada, nem um prefácio, nem uma introdução nestas edições nacionais nos informa sobre esse súbito interesse em Sandoz, que se esfumou de seguida e até hoje.
Apesar da impressão em “papel especial, de fabrico português” (o que permitiu imprimir texto e imagens no mesmo papel, abolindo assim a diferença táctil entre texto e extra-texto), a reprodução das capas que Dali tinha feito para as edições originais americanas da Doubleday (Prova A, B e C), com a sua tipografia desenhada e minuciosamente interligada com o desenho, foi uma impossibilidade óbvia (apenas a edição de O Limite ostenta, e apenas na página contígua à folha de rosto, a parte superior da ilustração de capa da edição americana de On The Verge, de 1950, devido à separação do bloco tipográfico). Estas edições portuguesas carecem assim do impacto flamejante das capas americanas, mas isso são significa propriamente uma perda: o excesso visual dessas capas não condiz, de facto, com o estilo sereno, coloquial, intimista do autor, um herdeiro sofisticado e levemente irónico das histórias de fantasmas de século XIX, muitas delas situadas nas pacatas vilas e cidades suíças (como “A Aparição”, história de Recordações Fantásticas, em que o narrador se cruza com o fantasma de Goethe em Zurique). Alguns dos desenhos de Recordações Fantásticas, ainda assim, a tinta-da-china e plenos de contrastes, parecem-me perfeitos no tom de inquietação que acrescentam aos textos, sobretudo a cabeça cortada que ilustra “Um crime ao retardador”, a mão peluda que ilustra o conto homónimo (um dos melhores deste livro) ou a fabulosa múmia para o conto “A Recordação de Hammam Meskoutine”.
As sete ilustrações desta edição que possuo podem não corresponder à totalidade das que Dali fez para a edição americana, pelo que pude averiguar. Questão de direitos de reprodução? Ou teria a censura algo a ver com isso, como no caso específico da ilustração em baixo e que está ausente da edição portuguesa (retirada daqui)?
As ilustrações de O Labirinto (três amostras de spreads em baixo) diluem, literalmente, a ansiedade e inquietação das de Recordações pelo recurso à aguada para os meios-tons.
Numa altura em que, em Portugal, o Surrealismo (que arrancara “oficialmente” em 1949, com a primeira exposição colectiva) procurava impor-se e sobreviver à estagnante cena cultural portuguesa, esta tripla edição de um autor suíço desconhecido ilustrado por um dos nomes fundadores do Surrealismo (mas que fora renegado entretanto pelos seus companheiros de geração, em particular André Breton, que o apelidava de “Avida Dollars”) deixa mais questões do que as que poderia deslindar.












[...] a habitual minúcia, Pedro Marques analisa as peculiaridades gráficas de três livros editados em Portugal nos anos 50: obras de um escritor suíço obscuro e hoje esquecido, ilustradas por um pintor espanhol nada [...]
Uns Parabéns raros e inesperados para o Bibliotecário de Babel e para mim própria, é inevitável sentir esse sentimento perante uma Beleza essa ainda mais rara de alguém divulgar e dar o prazer a outrém, neste caso alguém que ama de verdade a Arte e a Literatura da Veritas. Lindíssimo e fica o desejo de ler Maurice Sandoz pela amostra do vídeo. O sonho de quase todos viver entre 1750 e…
Felicitações à Arte e generosidade de Pedro Marques, se errei o nome foi por ímpeto de dizer logo algo. FDC
[...] No labirinto de Maurice Sandoz (Montag) – não pertence a esta semana, mas vale a pena [...]