Montag na terra dos samizdat

Seria de esperar uma edição soviética deste romance de Ray Bradbury nunca anterior à chegada de Mikhail Gorbachev ao topo da cúpula do Partido Comunista da URSS em 1985 (ou à introdução da “Glasnost”, a política de abertura, na segunda metade da década), mas o certo é que a ficha técnica indica o ano de 1983. Mesmo publicado depois da morte de Brejnev, não deixa de ser curioso descobrir uma edição soviética deste texto literalmente “incendiário” para qualquer regime total ou parcialmente autocrático, sobretudo num país onde, em 1983, havia ainda um Index activo que impunha uma rígida censura a centenas de livros (obrigando os leitores à criação de um sistema underground de circulação de textos copiados e passados clandestinamente de mão em mão, os samizdat, num espírito de resgate e resistência não muito distante do da comunidade de leitores a que se junta o ex-bombeiro Montag). Em abono da verdade, contudo, deverá dizer-se que, sendo soviética, esta é, rigorosamente, uma edição bilingue: o texto do romance e dos contos está em inglês, e todo o “aparato” crítico (introdução, notas, glossário, etc) está em russo. Dessa forma, um texto que estaria certamente no Index das possíveis traduções tornava-se aceitável numa versão destinada a uma elite universitária em cursos de línguas estrangeiras.

Herdeira da editora estatal Progress na publicação de literatura estrangeira e russa a partir dos anos 70, a Raduga lançou dezenas destas edições bilingues, quase todas ilustradas. Segundo o coleccionador Philip Dion, a qualidade gráfica dos livros da Raduga não seria a mais elevada, mas, mesmo sem nunca ter visto a sobrecapa (a capa, forrada a pano, é impressa em serigrafia: das silhuetas sobrepostas de edifícios de uma cidade que a decoram, compostas num aparente efeito de incandescência, estão curiosamente ausentes as antenas de televisão, que, por exemplo, tinham sido o leitmotiv visual do genérico da adaptação cinematográfica de François Truffaut), este livro tem argumentos capazes de rebater essa opinião (e alguns exemplos de outras edições da Raduga que se podem ainda encontrar, como os ilustrados em baixo – Russian 19th Century Gothic Tales de 1984 e Voyage Beyond Three Seas de Afanasy Nikitin de 1985 – revelam uma excelente qualidade).

As ilustrações são de A. O. Semenov (em cirílico: А.О. Семенов), que, apesar de ter tomado algumas liberdades (veja-se, em baixo, a sua interpretação de um dos cães mecânicos usados pelos bombeiros), consegue, através de bons efeitos de chiaroscuro, criar um ambiente de onirismo opressivo (mesmo apesar da fraca intensidade da impressão, da pouca opacidade do papel e de um trabalho irregular no acerto dos contrastes na reprodução fotográfica das ilustrações). Não sei se Semenov alguma vez ilustrou o Roadside Picnic dos irmãos Strugatsky (a julgar pelo que se pode descobrir aqui e aqui, não o fez), mas seria no mínimo interessante ver o resultado desse cruzamento. O conjunto (até pelo contexto histórico, cultural e político e a localização geográfica da editora) representa, sem dúvida, uma das mais curiosas edições deste texto de Ray Bradbury com que me cruzei. (Será que, depois desta edição da Raduga, passou a circular clandestinamente pela URSS uma tradução dactilografada e policopiada em formato samizdat?)

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