Serviço

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A propósito do raríssimo acontecimento que foi a sétima exibição em mais de trinta anos do mixed media de Ernesto de Sousa Almada, um nome de guerra  (concebido entre 1969 e 1972, foi exibido pela primeira vez em 1979), no passado dia 13 na Cinemateca Portuguesa, lembrei-me de resgatar uma notável entrevista/reportagem de Vitor Silva Tavares para o Diário de Lisboa, publicada no “Suplemento Literário” de 24 de Abril de 1969 e que encontrei nas “escavações” que fiz tanto na Hemeroteca como no arquivo online do Diário de Lisboa para o meu projecto de monografia sobre Fernando Ribeiro de Mello. Feita durante a rodagem de algumas sequências no atelier de Almada Negreiros que aparecem no filme final (tal como a de Almada a folhear um jornal), é um pedaço notável de prosa e acaba por ser exactamente o que o subtítulo indica: a reportagem “entrou” de tal forma “na fita” que muitos excertos da conversa entre Silva Tavares, Ernesto de Sousa e Almada, registada pelo primeiro num gravador Sony (quem sabe, um destes), acabaram na trilha sonora do mixed media, pelo que estas duas páginas (e mais um pequeno resto na página 7 do Suplemento) têm o acrescido valor de serem quase como um guião aproximado de um projecto que, diga-se, parece ter sido feito para acolher e absorver estes cruzamentos e coincidências (o texto inclui mesmo “colagens” de excertos de um diário de rodagem mantido pelo “assistente” Carlos Gentil-Homem).

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O que se viu/ouviu na sala da Cinemateca foi um filme a preto-e-branco projectado sobre o centro do écrã da sala, com o som autónomo da imagem (obviamente captados em dessincronia, ainda que a sequência de Jorge Peixinho a dirigir uma “orquestra” de instrumentos improvisados durante a performance Exercício de Comunicação Poética – apresentada no Clube de Teatro 1° Acto de Algés em 1969 – se faça acompanhar da música então registada), sendo que lateralmente eram projectados slides ora monocromáticos, ora bicromáticos (preto e ocre) que interceptavam os limites do plano fílmico e o penetravam, criando assim um efeito de “sobreimpressão” com um particular impacto visual.

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Concebidos por Carlos Gentil-Homem (com o colectivo do Estúdio Quid) ao estilo, por exemplo, da “tipografia expressiva” de um Massin ou das experiências de William Klein, estes slides são, estilisticamente, um perfeito complemento e uma extensão dos cartazes serigráficos que ele criou para o acompanhamento das exibições e uma adição visual à projecção absolutamente crucial.

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Quando me encontrei pela primeira vez com Vitor Silva Tavares para falar sobre Fernando Ribeiro de Mello, Almada entrou logo na conversa: o agora editor da &etc levara o Mestre a ver ao vivo o “golpe literário” (como lhe chamou a Seara Nova) que fora a sessão de declamação poética O Teste, organizada por Ribeiro de Mello em 1964 (dois anos depois, A Engomadeira seria reeditado na Afrodite na Antologia de Vanguarda), e citou-o, a propósito desta coisa de dar entrevistas ou prestar testemunho sobre isto ou aquilo: era “serviço”. Tal como o próprio Almada “servira”, ao sentar-se, nessa tarde de 17 de Abril de 1969, com Silva Tavares e Ernesto de Sousa para conversar. Pois bem: toca-me agora retribuir com algum serviço, nestes 120 anos de Almada e 40 de Vitor Silva Tavares como editor de livros. Eis, pois, aqui a transcrição integral desta reportagem, em versão PDF e como documento de texto.

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4 Comments

Filed under Eventos, Imprensa

4 responses to “Serviço

  1. Gostei muito que tenha reeditado a entrevista do VST, «Alma até Almada». Gostaria de fazer algumas correções ao que escreveu sobre a música e o grafismo. O meu email está no site dedicado ao ES.
    Vivas saudações, I.A.
    .

  2. Cara Isabel, muito obrigado pelo comentário (e pela sessão na Cinemateca, que foi um momento notável).
    Quanto às correcções, pode fazê-las aqui mesmo: serão bem-vindas e toda gente poderá lê-las.

  3. O que se viu/ouviu na sala da Cinemateca foi um filme 35 mm a preto-e-branco e a cores (a parte filmada na Gulbenkian na execução do painel “começar”, e os desenhos geométricos finais) projetado sobre o centro do écrã da sala, com o som autónomo da imagem (obviamente captados em dessincronia, o som é uma tripla montagem agora digital, música composta para Almada, um Nome de Guerra, (não contem a música de Jorge Peixinho a dirigir uma “orquestra” de instrumentos improvisados durante a performance Exercício de Comunicação Poética – apresentada no Clube de Teatro 1° Acto de Algés em 1969 – esta sessão não está gravada, apesar de existir música gravada para Nós Não Estamos algures ), sendo que lateralmente eram projetados slides monocromáticos, alto contraste, de frases poéticas e letras de “A Invenção do Dia Claro”, “Manifesto Futurista…”, e de “As quatro manhãs” em implosão e explosão e outros slides a cores, que consistiam em pequenos pormenores dos baixos relevos do Cine San Carlos em Madrid, que intercetavam os limites do plano fílmico e o penetravam, criando assim um efeito de “sobreimpressão” com um particular impacto visual. Consistia ainda de uma quarta projeção fixa, grandes planos de Almada. A orientação gráfica foi dirigida por Ernesto de Sousa, que e executada por Carlos Gentilhomem em Vigo, onde Eduardo Calvet Magalhães criou condições laboratoriais e ateliers de fotografia e serigrafia altamente sofisticados, primeiro parte do Consorcio Industrial do Minho, mais tarde Estúdio Quid. Ernesto de Sousa esteve em Vigo largas temporadas a trabalhar neste projeto. Está largamente documentado com fotografias e livros de apontamentos.

  4. Obrigado pela correcção. São informações preciosas. Alguma chance de se produzir e publicar um volume com toda essa informação (notas e apontamentos de rodagem, fotografias, etc), uma espécie de “dossier Almada, um nome de guerra”, ou essa fixação em livro seria, de certa forma, contrária ao espírito inicial do projecto?

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