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O espírito e as letras
27.03.2013

LER_Maio2012

Durante três dias em Março passou – discreto, despercebido – por uma Lisboa distraída o homem que mudou a face da edição francesa na segunda metade do século XX. Robert Massin, durante vinte anos o supremo director artístico da Gallimard, criador da colecção Folio, inventor de livros “impossíveis” para Queneau e Ionesco, “amador em tudo” e autodidacta, é ainda, perto dos noventa anos de idade, a personificação do melhor dos anos de ouro da cultura francesa do pós-II Guerra Mundial.*

Franzino mas de movimentos felinos e seguros. Um sorriso algo cansado mas generoso e com uma ponta de ironia, a ironia distanciadora e serena de quem viveu tudo e fez quase tudo e chegou perto dos noventa anos com energia e saúde para o contar. É um homem que sabe passar despercebido, que sabe ouvir para, no momento certo, dar a sua contribuição: conseguimos imaginá-lo num gabinete, ao fundo, a ouvir pacientemente Gaston Gallimard, ou o seu sucessor Claude, a conversar com um Sartre, uma Beauvoir ou uma Yourcenar, e a preparar a sugestão certeira, decisiva. Veio a Lisboa falar da sua obra mais conhecida, a edição de 1965 da Cantatrice Chauve de Ionesco, mas sente-se que estaria com o mesmo à-vontade e a mesma profundidade a falar de qualquer outra coisa.

A esta Lisboa distraída para tudo o que não seja fashion chegou Massin pela mão da Oporto em Lisboa e do colectivo Barbara Says, no contexto das Jornadas Cantianas, uma série de conferências em torno de Paulo de Cantos (1892-1979), um “auto-editor” e compositor de livros “invulgares, idiossincráticos, inclassificáveis”, praticamente desconhecido fora do meio do design gráfico nacional. António Gomes, da organização, referiu como ponto de contacto um “empenho enciclopedista dos dois autores”, para o qual o autodidactismo de ambos (apesar das abissais diferenças em termos de carreira, sucesso ou popularidade) concorre também: Massin foi, afinal, o homem que Roland Barthes (a propósito do primeiro livro daquele, La Lettre et l’Image) felicitou certo dia pela sua falta de estudos académicos, que lhe permitiria manter a frescura na observação e a abertura à transdiciplinaridade e evitar a rigidez intelectual e a “especialização”, e que acabou por admitir, nas suas memórias publicadas em 1995, ser um “amador em tudo”.

“Tudo!” Esta foi precisamente a resposta de Massin quando Gaston Gallimard lhe perguntou, durante um jantar em casa deste em 1958, o que iria ele fazer como novo director artístico. O velho editor teve um sobressalto. Mas foi assim mesmo. Sucedendo nesse cargo a André Malraux (que nos nos 30 tinha-se fugazmente ocupado da composição tipográfica de algumas capas), Massin foi, realmente, o primeiro director de arte em sentido moderno de uma grande editora francesa, e, nos vinte anos que se seguiram, fez tudo na Gallimard (talvez por causa desse sobressalto ao jantar, Massin foi contudo obrigado a assentar o seu trabalho em três linhas directrizes aparentemente paradoxais, senão contraditórias: “manter, restaurar, renovar”).

Chegado a Paris nos últimos dias da ocupação alemã e da guerra, o jovem provinciano (nascido em 1925 perto de Chartres) queria ser jornalista e, se possível, escritor. Desse tempo difícil, em que também foi figurante de cinema, guarda recordações ambíguas, entre o sombrio (“houve dias em que apenas comia um croissant com manteiga e um café com leite”) e o surpreendente, como quando, em 1947, em Copenhaga, um Céline já proscrito em França e vivendo no exílio lhe concedeu uma raridade absoluta: uma entrevista exclusiva na sua morada secreta, em que Massin ficou sentado a ouvir o escritor monologar durante longos minutos, “uma logorreia inesgotável”, enquanto um gato lhe roçava as pernas (Céline é ainda, para Massin, e com Proust, o melhor escritor francês do século XX). Em 1948 entra para o Club Français du Livre para editar o boletim do clube. Observou atentamente tudo o que fazia e recomendava o director artístico, Pierre Faucheux (cuja capa para as Histoires de Prévert o tinha fascinado), foi às gráficas aprender o resto e começou a propor capas e “maquettes”. Com uma série de outros grafistas, todos sob a batuta de Faucheux, Massin fez assim parte do arranque de uma revolução na edição do pós-guerra: os clubes do livro, que proliferavam como cogumelos, vieram dar uma nova imagem ao livro em França,  impondo o conceito de “livro-objecto” e novas práticas de marketing num meio deprimido pela guerra e subjugado ainda pelo racionamento de matérias-primas. Mas em breve Massin estava ao nível do seu mestre e, com a criação de um novo clube em 1952, o Club du Meilleur Livre, ele muda-se e torna-se director artístico deste. (A suposta rivalidade entre os dois tornou-se lendária. Bernard Pivot tentou explorá-la na primeira emissão do seu Ouvrez les Guillemets em 1972, mas sem resultado: Massin e Faucheux deram-se lindamente). Experimentando livremente com todo o tipo de materiais e colaborando intimamente com os autores na criação das edições, Massin torna-se um caso sério e a Gallimard começa a cobiçá-lo ao clube. Na verdade, este era mantido financeiramente pela Gallimard e a Hachette, a distribuidora de ambos, editora e clube, mas a qualidade crescente das edições do clube chegou a obrigar aquela a travar alguns projectos por receio de concorrência, como uma colecção de clássicos que iria rivalizar com a Pléiade. Esse profético jantar em casa do patriarca Gallimard em 1958 apenas oficializou o óbvio interesse da editora em renovar-se através do trabalho de um director artístico. Continuando a trabalhar para o clube e como freelancer até 1961 (chegando até a trabalhar para notórios “adversários” do grande Gaston, como Jean-Jacques Pauvert), Massin foi obrigado a escolher: ou a exclusividade para a Gallimard, ou sair. Ficou.

Tal como o seu amigo Germano Facetti começou a fazer precisamente nessa altura, em Londres, na Penguin, Massin empreendeu uma completa renovação gráfica da editora, criando de raiz a imagem de novas colecções como a Idées e, sobretudo, a Folio em 1972, a sua grande aposta: entrando no território dos paperbacks, dominado até então pela Livres de Poche, a Gallimard tornou-se ubíqua em todo o território francês, dizendo-se desde então que não há uma casa em França que não tenha um exemplar da Folio. Se os livros de capa branca da NRF tinham conseguido garantir a preferência da elite intelectual durante décadas, foram os livrinhos de bolso da Folio que levaram a Gallimard à grande massa de leitores. Outra colecção de que fala com orgulho é a L’Imaginaire. Pelo meio, Massin tinha ainda tempo para projectos especiais, como os Cent mille milliards de poèmes ou os Exercices de Style de Raymond Queneau ou a Cantatrice de Ionesco, edições pelas quais o grafista ficou mundialmente conhecido, manifestando um virtuosismo nas soluções tipográficas e de acabamento que desafiava a credulidade, movido por um constante desejo de experimentar e jogar com as palavras, aproximá-las das imagens e dos sons (a sua proximidade ao núcleo “duro” do grupo Oulipo não era inocente nesta pesquisa). Importante neste desejo de criar “livros-totais”, objectos que apelassem aos sentidos antes de serem lidos, foi também, nesses anos, a descoberta a fundo do Barroco a partir do ensaio de Eugénio d’Ors, bem como de toda a música barroca. Desde aí é defensor de que o livro é, na essência, uma extensão do universo barroco, um pequeno teatro em que todos os elementos constituintes são dispostos numa mise-en-scène: o grafista (ou, usando o anglicismo hoje em voga, o designer) é, pois, o encenador ao serviço do autor. “Graças às lições do barroco”, conclui, “consegui juntar, na minha obra, o sério e o cómico, o clássico e o extravagante, e, sobretudo, o rigor e a fantasia.”

Não tardou até que Massin quisesse e pudesse finalmente sê-lo também: autor. La Lettre et l’Image chega em 1970, fruto de uma longa pesquisa (ainda em curso) sobre as relações entre o mundo das letras e o mundo dos objectos, e da vida íntima e própria das letras no nosso universo funcional e simbólico. Um sucesso imediato, o livro lançou Massin numa carreira de autor que extravasou os limites da sua profissão de grafista, e seguiram-se, até hoje, mais de quarenta títulos publicados (dos quais um terço pela Gallimard), entre romances, crónicas e diários, livros infantis e ensaios (onde se inclui De la Variation, sobre o seu fascínio pelo Barroco). Les Cris de la Ville, de 1978, recolha literária e iconográfica das personagens castiças de uma Paris já então desaparecida, foi um best-seller, quase destronando o rei dos tops da Gallimard, André Malraux. Gaston Gallimard contara-lhe pessoalmente todas as suas recordações de Marcel Proust, de quem o editor fora amigo, e o contágio foi imediato e duradouro: “li a Recherche completa umas sete vezes em trinta ou quarenta anos, sinto-me muito próximo de Proust.” Até o seu gato se chama Charlus. (E gosta de provocar: “em muitas entrevistas, costumo dizer que conheci o Marcel Proust. Quando me olham com espanto, preciso: havia um pastor analfabeto na vila em que nasci que se chamava Marcel Proust.”)

No final dos anos 70 sentiu necessidade de mudar. Propôs a Claude Gallimard (o herdeiro de Gaston) dirigir uma colecção, e, perante a renitência deste, fez constar que queria sair. Foi um choque na editora, e o director chegou a ter reuniões tensas à porta fechada com Massin, tentando dissuadi-lo e chegando mesmo a propô-lo como membro do sacrossanto “comité de leitura”. Em 1979, Massin sai da Gallimard (ainda que, como autor, continue a publicar na editora por mais alguns anos). Remorsos? A confissão é directa: “nunca deixei de ter sonhos com a Gallimard, em que regressava pela manhã para trabalhar. Foi lá que passei os melhores anos da minha vida, e, de certa forma, é o meu paraíso perdido.” Mas o Massin pós-Gallimard foi quase tão prolífico, e acrescentou ao seu vasto currículo a experiência como editor, ao criar a Typographies Expressives, uma associação que visa a promoção e edição de obras que explorem graficamente a relação entre a voz humana (e a música) e a tipografia, e através da qual tem publicado também alguns dos seus textos.

Este homem pequeno e enérgico que – envergando a sua já famosa camisa decorada com um detalhe da Cantatrice – sobe e desce as escadas íngremes do local da conferência, que anda pela baixa e depois em Belém, dos Jerónimos à Torre e de volta, sem se cansar e pedindo apenas uma paragem para tomar uma “bière” e fumar um pouco da cigarrilha que guarda religiosamente, que conheceu e conviveu com todos os actores da cultura literária e artística europeia do último meio século, qua ainda planeia escrever (La Curiosité, uma viagem em torno dos objectos que a sua primeira mulher, já falecida, coleccionou ao longo dos anos), ler (o filme de Raoul Ruiz despertou-lhe o interesse pelos Mistérios de Lisboa de Camilo) e viajar (talvez um regresso a Portugal para ver Mafra ou a arquitectura de Nicolau Nasoni), é um dos raros grafistas ou designers de renome mundial e importância histórica que ficou famoso apenas pelo seu trabalho com os livros. Sobre a possível “morte do livro” já anda a ouvir há muitos anos (“com o McLuhan foi a mesma coisa, toda a gente se pôs a enterrar o livro”), e confessa-se fascinado pelo fenómeno das tablets, que associa a um retorno, através da tecnologia de ponta, às tabuinhas de escrita dos Assírios de há seis mil anos: “sinto que a dupla página do livro e a página única do monitor (já imaginada por Mallarmé em Coup de Dés) acabarão por se unir e caminhar de mãos dadas.”

Agora, no fim da sua vida, reflecte sobre o que o ligou de forma tão íntima e profunda aos livros e às letras. E a explicação pode estar numa memória indelével do seu pai, um escultor e gravador. Certa manhã, tinha ele quatro anos, aquele mostrou-lhe uma placa de pedra na qual tinha traçado as letras do seu nome; depois deu-lhe um martelo e um cinzel para as mãos e disse-lhe: “faz como eu.” Assim, a imitar o pai, aprendeu a gravar o seu próprio nome mesmo antes de o saber escrever. “Ele gravava muitas inscrições lapidares nos cemitérios, aonde eu o acompanhava muitas vezes e onde ficava a vê-lo a escrever as letras antes de as gravar. E no seu ateliê, em casa, via-o a esculpir livros de mármore, abertos e decorados.”

* texto publicado na revista LER (Maio de 2012)

Compondo o puzzle
30.10.2012

O século XX permanece estranhamente arredio da historiografia portuguesa do livro e da edição, como se fosse um objecto complexo demais para ser abordado de outra forma que não seja por estudos de parcelas temporais. Uma tentativa de sumariar os últimos quarenta anos da edição nacional, recentemente publicada, deixa-nos com mais perguntas do que respostas, e obriga-nos a um complemento com outros livros.

Entrada já a segunda década do novo século, continua a faltar um tomo de referência sobre a edição de livros em Portugal no século XX. Falta-nos, por exemplo, o que os brasileiros têm em O Livro no Brasil de Laurence Hallewell ou, numa versão mais ligeira e ilustrada, em Momentos do Livro no Brasil, uma excelente edição de 1998 da paulista Ática. Apesar de estudos sólidos sobre o mercado editorial e livreiro até ao século XIX (por autores como Artur Anselmo ou Fernando Guedes) e de aportações internacionalmente reconhecidas na área mais genérica do estudo da leitura e do cruzamento do livro com as novas tecnologias (como é o caso dos escritos de José Afonso Furtado), as conturbadas décadas de novecentos, nas quais a edição portuguesa, apesar de uma estrutura atomizada e frágil e de uma difícil coabitação com os tempos (sobretudo, durante o Estado Novo), conseguiu produzir – graças ao trabalho de editores, tradutores, grafistas, ilustradores, etc – objectos bibliográficos de valor extraordinário, essas décadas de novecentos, dizia, continuam arredadas da análise historiográfica. A fraquíssima produção no campo das memórias ou das biografias de actores relevantes na edição concorre também para esta lacuna, e as monografias sobre determinadas casas editoriais, que poderiam servir de tijolos na lenta mas segura contrução de um edifício historiográfico – e deveriam ser da responsabilidade das próprias editoras, no caso das ainda sobreviventes – são objectos raros ou insatisfatórios (Babel sobre Babel de 2010, por exemplo, um volume que poderia ter sido uma história conjunta e bem documentada de uma mão cheia de editoras históricas, acabou por reservar apenas uma minúscula secção para esse fim, mostrando à evidência que os “grupos editoriais” têm uma relação problemática com a história e a memória de que são oficialmente portadores).


Não será, infelizmente, o levíssimo volume (menos de 200 páginas) de Rui Beja recentemente publicado, A Edição em Portugal 1970-2010 (APEL, 2012), a compensar esta míngua de substância. É precisamente pela sua paradoxal leveza (dado o âmbito temporal que se propõe cobrir, e as dramáticas mudanças sociais, culturais e políticas ocorridas nesses anos) que nos surpreende à partida. Não sendo, formalmente, mais do que uma tese de mestrado apresentada na Universidade de Aveiro, as excessivas rigidez e compartimentação (típicas deste tipo de documentos académicos) são imediatamente expressas na capa (que ganha assim, pelo menos, em “transparência”). Rui Beja fez parte, durante décadas, da direcção do Círculo de Leitores, tendo sido recentemente presidente da APEL, pelo que se esperaria deste livro, para mais com a ambição que o título expressa, um fôlego maior e, sobretudo, uma maior atenção aos detalhes do que está no âmago do trabalho quotidiano com os livros: as relações conflituosas, apaixonadas, imperfeitas de homens e mulheres de várias extrações sociais, competindo ou colaborando entre si para a publicação e produção de livros. Vindo da área financeira, o autor será compreensivelmente menos sensível a esses ecos da “comédia humana” que compõe o húmus desta actividade, preferindo as esferas celestes dos números e das “ententes” das direcções associativas, afinal o núcleo da sua experiência: quanto a editores independentes nestes 40 anos, estamos limitados a uma listagem de editoras e algumas linhas para cada uma, onde aliás não faltam inclusões estranhas (a Contraponto de Luiz Pacheco é mencionada em sete linhas [p. 30], das quais duas para informar que é, hoje, “uma chancela” do grupo Bertrand!…) e indesculpáveis ausências (onde estão a Afrodite, a &etc, a Antígona, a Inova, por exemplo?). Como era abrir no Porto uma editora no final dos anos 60 (Inova)? Como era abrir uma editora durante o estertor do Marcelismo (Teorema ou Assírio & Alvim)? E como era abrir uma durante o PREC (Caminho) ou na ressaca do mesmo (Relógio d’Água)? Perguntas sem resposta. Onde o autor parece estar mais à vontade é nos capítulos centrais, em que passamos pela carreira do Círculo de Leitores, pelas iniciativas governamentais de apoio à edição e à leitura, pela concentração no mercado livreiro e, depois, editorial, e pela história da APEL. (Um capítulo final sobre a “revolução digital” é uma quase perda de tempo e páginas – trinta – em que, para além de citações do inevitável Furtado, pouco mais se retira do que as apostas da Porto Editora e da Leya no comércio online e as experiências da Babel com o livro digital nas Feiras). Um dos melhores momentos do livro, porém, em que o autor arrisca até umas subtis e raríssimas “estocadas”, é o relato do “impasse” da Feira do Livro de Lisboa de 2008. Mas mesmo aqui, no seu campo de especialização, ele peca por defeito de aprofundamento: por exemplo, porque foi “demitido” Lopo de Carvalho do Instituto Português do Livro em 1986 (p. 73)? E afirmar que “talvez que à atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, em 1998, não tenha sido totalmente alheia a visibilidade internacional [da presença portuguesa em Frankfurt em 1997]” (p. 84), não carecerá de maior elaboração?

Resta, pois, como o próprio autor admite na Introdução, um “repositório factual” com alguma utilidade de consulta e um “contributo” para estudos com outros voos e ambições. Dei por mim a desejar ver aqui mais do Rui Beja do muito interessante À Janela dos Livros (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011), raro exemplo de misto de memórias com monografia editorial, onde, por exemplo, a sua entrada para o Círculo de Leitores em 1971 é descrita de forma tão dramática e pessoal, contextualizando perfeitamente as dificuldades de fazer uma carreira na edição em anos de Guerra Colonial. É este contributo pessoal, casuístico, microscópico que falta ao seu mais recente volume, o que faz da Janela o complemento obrigatório na leitura d’A Edição (ambas pecam, contudo, por uma total ausência de imagens, tornando graficamente árida uma história tão rica do ponto de vista do design).

Comecei por afirmar que da bibliografia sobre história da edição nacional no século XX estão ausentes títulos de referência. É altura de me corrigir. O âmbito temporal proposto na obra de Rui Beja remete-me para uma outra que só não arrisco a referir como “a” obra de referência no tema pelas mesmas limitações temporais que balizam o seu estudo. Edição e Editores – O mundo do livro em Portugal, 1940-1970, de Nuno Medeiros (ICS, 2010), ainda que partindo do mesmo cadinho académico, é uma detalhada e riquíssima história da edição no período “crítico” do Estado Novo, com notas utilíssimas que lançam pistas bibliográficas para campos de estudo que o livro não pode cobrir (como, por exemplo, o grafismo particular de certas casas editoriais) e um aparato muito completo, ao qual não faltam dois índices remissivos. Tivesse tido o seu autor possibilidade de recuar vinte anos o início e acrescentar uns trinta ao fim do período analisado, mantendo os mesmos rigor e qualidade nos testemunhos e documentos citados e na prosa final, e teríamos certamente aqui a primeira história da edição portuguesa do século XX capaz de assumir-se como incontornável. No cômputo geral desse puzzle complexo que parece continuar a ser este tema, contudo, o livro de Medeiros permanece como uma das maiores e mais indispensáveis peças, e, no caso de aportações menos substanciais como a de Rui Beja, a sua consulta complementar é, pura e simplesmente, obrigatória.

[texto publicado na revista LER, edição de Outubro de 2012]

Caçador e presa: vender para comprar, comprar para vender
04.10.2012

[ Este é o segundo de três artigos que publiquei na revista OS MEUS LIVROS em Outubro, Novembro e Dezembro de 2010 sob o tema genérico da "caça aos livros". Apesar da distância temporal, creio que ainda têm validade, e assim, a pedido de algumas proverbiais "famílias", aqui estão, com ligeira edição do texto. Ler também o PRIMEIRO e o TERCEIRO textos. ]

Comprar para revender com algum lucro na Internet pode ser um caminho para a criação de uma boa biblioteca. Palavras mágicas: reciclagem, bom senso, sentido de aventura. E Paypal.

Deseja abrir as portas de Sésamo dos livros à venda na Internet e começar a comprar a bom preço algumas daquelas edições que sempre quis ter. Pode achar um paradoxo, mas o primeiro passo nessa odisseia pode não ser na direcção do seu computador, mas na das suas estantes, ou das bancas das feiras do livro que encontra e desdenha pela cidade. Porque não começar por vender alguns dos seus livros, esses mesmos que estava a considerar oferecer a alguém e para os quais já não vai tendo espaço?

Quando comecei a comprar regularmente no ebay, há uns 6 anos, apercebi-me de que era fácil passar para o “outro lado”, tornar-me eu próprio vendedor e – eis o cerne da questão – começar a amortizar os gastos feitos com as compras.
Fiz portanto uma selecção dentre os meus livros que considerava dispensáveis, e procurei alguns que pudessem atrair um público internacional (apesar de o ebay possuir versões alojadas em muitos países, o “site-mãe” ebay.com é o mais frequentado pelos internautas de todo o mundo). Terá sido sorte de principiante mas, no Verão de 2007, consegui vender por mais de 300 dólares um catálogo da Cinemateca Portuguesa sobre Tod Browning, que tinha comprado nos anos 90 por 1.000 Escudos (5 Euros, aproximadamente). O excelente design do livro, o seu tema de “culto” e o facto de ter textos em inglês fez com que uma californiana e um catalão entrassem num frenesi de licitações nas horas finais do leilão. Ganhou Barcelona.

Pouco depois, decidi experimentar as feiras de livro que costumam abrir para escoar fundos de catálogo. Por menos de 5 euros, comprei um livro sobre Oscar Niemeyer (Campo das Letras), que coloquei no ebay em leilão por um preço ligeiramente superior, para assegurar uma margem mínima de lucro. Um comprador espanhol acabou por levá-lo por perto de 20 euros. Algumas vendas como estas asseguraram a compra de alguns livros que procurava.

LEILÕES A PARTIR DE CASA

É, pois, isto que lhe proponho: pense em vender (ser a presa) antes de pensar em comprar (caçar), e crie uma “almofada” amortizadora de futuras compras. O primeiro passo é abrir uma conta no Paypal, uma modalidade de pagamento e armazenamento de crédito online alternativa aos créditos bancários e às custosas transferências de dinheiro. Uma simples balança de cozinha dar-lhe-á o peso aproximado da sua encomenda (acrescente sempre uns gramas prevendo o empacotamento) e uma consulta à calculadora de preços do site dos CTT dar-lhe-á o valor final com precisão.
Agora, no papel de vendedor, pense no que o atrai mais quando procura livros: informação detalhada – quer sobre o conteúdo, o estado físico do livro, valores dos portes de envio e modos de pagamento que aceita – e “alimento” para os olhos, ou seja, uma ou mais fotografias do seu livro (evite o flash se a capa for plastificada, e, se possível, aloje as imagens num servidor que não seja o do ebay: dessa forma poderá colocar uma imagem maior, ou uma composição de várias fotos do seu livro).

Como qualquer leiloeira, o ebay cobra taxas consoante o valor-base de licitação, ou o valor de venda directa, pelo que, se optar pela forma de leilão, comece com um valor baixo, sobretudo se tiver expectativas de muitas visitas e alguns interessados. Note que poderá tentar começar por sites de leilões ou vendas nacionais (o leiloes.net, por exemplo, recentemente aberto, é o “ebay português”, mas há outros como o miau.pt), mas não será tão mais excitante a aventura de apelar a esses milhões de bibliófilos mundo fora?

TODA A INFORMAÇÃO É VÁLIDA

O ebay permite um contacto directo com vendedores ocasionais, ou livreiros fora da base de dados da Amazon, que poderá prolongar-se e tornar-se um prazer continuado. Um dos vendedores que mais me fascinaram até agora é a Idea Books, uma livraria mantida por Angela Hill e David Owen em Londres, e que se especializa em livros de fotografia, catálogos de arte e no que de mais excitante se possa encontrar relacionado com a cultura popular e visual do século XX desde os anos de 1950. A forma simples, directa mas cativante como eles fotografam e descrevem os seus livros é um prazer para o comprador ou o curioso e um modelo para o vendedor, sem esquecer que é, também, uma fonte de cultura: tenho aprendido imenso com esta pequena loja. Lembre-se que um vendedor cativante costuma estar também disponível, mediante negociação, a conseguir-lhe o valor de portes mais em conta, algo que é de suma importância e que é também, diga-se, comum aos bons vendedores na rede da Amazon.

Uma pesquisa de livros no ebay, aleatória ou orientada, pode também dar-lhe indicações sobre a variação de preços de um determinado título, ou sobre a sua raridade. E descobrir tesouros, inalcançáveis, é certo, mas atrás dos quais há histórias fascinantes, como o exemplar de The Atrocity Exhibition, de J.G. Ballard, que um livreiro de São Francisco vende por 11.400 dólares, um dos raros no mercado e sobrevivente da destruição dessa edição de 1970 pelo seu editor, Nelson Doubleday, após ter descoberto entre os seus contos um que tinha por título “Why I want to fuck Ronald Reagan”…

E pense, caro leitor, que a ubíqua crise que o obriga a contar o dinheiro disponível para a compra adiada “daquele” livro especial, ou até a considerar seriamente estas sugestões de se tornar vendedor ocasional para poder amortizar os custos da “caça”, pode, por portas e travessas, vir em seu socorro no momento da compra. Ainda durante os últimos anos do governo de George W. Bush, as bibliotecas americanas sofreram cortes brutais nos seus orçamentos de gestão, o que as obrigou a, literalmente, despejar quilos de livros das suas prateleiras. Entram em cena recolectores de livros como a Goodwill Books, que os armazenam e vendem por preços simbólicos, que podem chegar a 1 cêntimo de dólar, com valores de portes muito baixos também. O resultado das vendas reverte em benefício de pessoas carenciadas, atingidas pela mesma crise que levou esses livros quase ao lixo.

“Os livros devem viajar”
04.10.2012

[ Este é o primeiro de três artigos que publiquei na revista OS MEUS LIVROS em Outubro, Novembro e Dezembro de 2010 sob o tema genérico da "caça aos livros". Apesar da distância temporal, creio que ainda têm validade, e assim, a pedido de algumas proverbiais "famílias", aqui estão, com ligeira edição do texto. Ler também o SEGUNDO e o TERCEIRO textos. ]

Para quem as livrarias começam a saber a pouco (e mal), e o ebook parece ainda uma campanha de hype, a internet pode ser a fonte de um novo prazer nos livros, com descobertas notáveis por muito menos dinheiro do que se paga por um best-seller novo. Confiança nos meios de pagamento online, curiosidade e alguma destreza em mais do que uma língua são importantes.


Livros levam a livros: volumes sobre a história do livro e seu design, como o de Alan Bartram, ou memórias de editores, como a de Jean Jacques-Pauvert, são guias fascinantes para verdadeiras descobertas.

Escrevo as primeiras palavras deste artigo ainda com o eco em fundo da última e cataclísmica predição do guru do MIT, Nicolas Negroponte. Segundo ele, em 5 anos o livro impresso estará acabado. (Em rigor, ele refere-se à supremacia do livro digital sobre o impresso, mas todos sabemos para onde apontam estas profecias.) A ironia que continua por trás desta onda de maus presságios sobre a duração desse cadáver adiado que é “o livro” é que o meio pelo qual mais depressa se propagam esses presságios, o próprio meio pelo qual se começa a disseminar o que todos vêem como o sucessor do livro impresso, o ebook, é o mesmíssimo meio pelo qual, há pouco mais de uma década, se deu a maior explosão de acesso ao fundo bibliográfico mundial desde a revolução dos livros de bolso no pós-II Guerra Mundial: a internet. Tal como conta Jason Epstein no seu Book Business, foi a compra do Reader’s Catalog, uma lista completa dos fundos de algumas das principais livrarias americanas, em meados dos anos 90, por Jeff Bezos, o criador da então incipiente Amazon, que permitiu a esta o salto de empresa promissora na bolha das “dot.com” para pioneira e líder da revolução de acesso a um “produto” (peço desculpa, mas não dá para evitar as aspas nesta palavra quando associada ao livro) com quase cinco séculos de existência. Ou seja: é ao livro impresso que a internet deve um dos seus mais bem sucedidos negócios.

A era romântica da bibliofilia, uma era de viagens, de confiança interpessoal alimentada por anos de conversas, confidências, trocas e compras decisivas nos alfarrabistas e livreiros mais selectos (e tão bem descrita num livrinho delicioso chamado Tolkien’s Gown de Rick Gekoski), se bem que não propriamente acabada, foi sucedida por uma outra, em que ainda vivemos, e em que, parafraseando Garrett no início das suas Viagens, o “viajante” é-o sem sair do quarto. O novo bibliófilo não tem status profissional ou social e não faz o roteiro dos alfarrabistas europeus ou americanos; a internet é o único complemento da sua maior ou menor fortuna, cultura ou curiosidade.

Eu prefiro chamar-lhe uma quase perfeita “máquina do tempo”. Uma máquina que funciona como um enorme braço que alcança pontos definidos através de uma pesquisa que cruza informações financeiras, artísticas, históricas e geográficas, e que é movida pela cultura e agudez mental do “viajante”. Um exemplo: em 2003, frequentava uma pós graduação de edição, mas a nova vaga bibliófila não me tinha atingido ainda. Desconfiava dos pagamentos online (uma atitude para a qual hoje não tenho paciência), e preferia (como, infelizmente, a ainda esmagadora maioria de portugueses) ir ver as livrarias. Era ainda, pois, um acólito desses templos. Ao escolher fazer um trabalho sobre The Medium is the Massage de McLuhan, quis dar o destaque, de que era pleno conhecedor, à colaboração do autor com o designer Quentin Fiore. Mas os “templos” do livro apenas me ofereciam como disponível uma nova edição de bolso com uma capa do guru do design “grunge” dos anos 90, David Carson. Nunca gostei muito dessa edição da Gingko. Poucos anos mais tarde, em plena “nova vaga”, vi-me “livre” dela no ebay, livro comprado por uma canadiana que queria oferecê-lo (com embrulho) ao seu tio a viver em Barcelona, e a quem acabei por enviá-lo (uma regra no ebay: não fazer perguntas porque o cliente tem sempre razão…). Dias depois, finalmente, e quarenta anos depois, chegava-me a casa, comprada no mesmo ebay por um valor inferior ao que tinha arrecadado na minha venda, uma perfeita cópia da primeira edição da Bantam de 1967. Por menos de 5 dólares (e um valor justo mas regateado de portes: outra das regras de ouro no ebay), esse imenso braço da máquina do tempo ligara-me a esse ano distante e dele trouxera uma amostra preciosa, de papel velho, branco, mate e poroso. E que melhor forma para esse braço, pelo menos na sua volta, do que o de uma carteira simpática que grita no intercomunicador às 10 da manhã: “Volumoso! Pode vir cá abaixo?”.

Estes três textos que me pediram, caro leitor (já que recorri a Garrett, recorro-lhe também ao coloquialismo), de que este que está a ler é o primeiro, não serão, contudo, um guia para “primeiras edições”, para “negociações com alfarrabistas”, para “orçamentos”, enfim, para nada do que caracteriza um tipo de coleccionismo de livros que não é o meu. Eu procuro “cruzamentos”, confluências perfeitas dos meus interesses (com bom design, uma boa capa, um toque de “aroma” do seu tempo e um preço apetecível a um bolso mediano). Um exemplo perfeito, a que deitei as mãos de novo através do salvífico ebay: a edição de 1977 de Écrire l’éspace, um livro autobiográfico, raro, estranho, do designer Pierre Faucheux (que trabalhou com Breton, com todos os editores franceses do pós-Guerra e foi o mestre do mestre Massin), um dos meus melhores achados, que um belga lá acedeu a enviar para Portugal (apesar de ter listado o livro como destinado unicamente à Bélgica e a França). “Les livres doivent voyager”, escreveu ele num email. Preço final: 15 euros. Preço mais baixo que esse guia imprescindível das livrarias online de usados, o Addall, me indicava: 50 euros (o mais alto chegava quase aos 200). Eis o segredo do ebay: dado que os livros em leilões são colocados de forma irregular (e sem qualquer ligação a bases de dados a não ser a do próprio ebay), por vendedores particulares que muitas vezes não fazem ideia do que estão a vender, um encontro fortuito destes pode valer ouro (ou, pelo menos, umas dezenas de euros). Mas é o acaso que apimenta muitas destas descobertas.

Num livro que comprei no seguimento desses interesses acima referidos, Five hundred years of book design de Alan Bartam, um belo e barato volume da British Library, encontrei uma referência a um livro de 1932 que me fascinou pelo título, pelo tema e pelas ilustrações expostas. Julguei que, precisamente por causa dessa referência, seria um livro inatingível, um dos tais livros de “coleccionador” aos quais o meu bolso não chega. Surpresa. Uma perfeita cópia da primeira edição da Constable, segunda impressão, de The Adventures of the Black Girl in her Search for God de George Bernard Shaw, e ilustrado por John Farleigh, chegou às minhas mãos por pouco mais de 10 euros. Livros levam a livros, num folhear infinito em que a internet parece traduzir esse “livro de areia” de Borges, sem o lado “monstruoso” do seu conto e, pelo menos até há uns 3 anos, com o enorme estímulo de uma meia década de dólar muito acessível.

The Adventures of the Black Girl in Her Search for God de George Bernard Shaw (Constable) e The Medium is the Massage de McLuhan/Fiore (Bantam). Dois clássicos do século XX, dois marcos do design de livros, duas primeiras edições. Preço conjunto? Menos de 20 euros.

De todas as formas em que testei esta pesquisa e compra de livros, desde contactos com alfarrabistas polacos e checos, num contexto de moeda favorável para o euro e oferta de livros de altíssima qualidade (alguns sites de alfarrabistas checos valem nem que seja como amostras de capas soberbas e miolos reveladores), até compra directa a universidades que publiquem livros interessantes (como a Universidade de Alberta no Canadá, da qual comprei um belo catálogo sobre uma exposição da Hogarth Press a um preço muito, mas muito inferior ao que a Amazon indicava), passando, claro, pelos obrigatórios Amazon ou Abebooks, o ebay continua a ser a mais excitante, pela possibilidade de pesquisa fortuita e achado notável e barato comprado a gente que, se calhar, só vai vender livros ali e apenas durante aqueles dias de leilão. Garimpo, chamam a isso os brasileiros, eles que têm uma notável Estante Virtual, espantosamente bem organizada e servida, e que compensa a pouca oferta e altíssimos preços (preços de gringo, diria) que a versão latino-americana do ebay, o Mercado Livre, apresenta.
Mas sobre o ebay, e de como comprar (e vender para comprar), poderá ler no próximo texto.

Lisboa, 232,7ºC
18.08.2012

Quando o bombeiro Montag não era o único a brincar com o fogo em Lisboa, e o medo da perseguição fazia dos próprios editores incineradores de livros.

Fahrenheit 451 de François Truffaut estreou em Lisboa em Dezembro de 1967, possivelmente num dos cinemas da Avenida da Liberdade e, aparentemente, sem problemas com a censura (a julgar pela ausência de menções, por exemplo, no Cinema e Censura em Portugal de Lauro António, edição da Arcádia de 1978). Já não os tivera a primeira edição portuguesa da obra de Ray Bradbury que lhe servia de base, onze anos antes (o número trinta e três da colecção Argonauta da Livros do Brasil), com tradução de Mário-Henrique Leiria: a ficção científica escapava, sob a capa e o estigma da menoridade de um género marginal, à inclusão no Index. Não que este romance não tivesse condimentos capazes de excitar o faro dos controladores. Bem pelo contrário: todo ele era um bolo indigesto ao palato dos implacáveis censores de livros portugueses (que nesses anos de sessentas rivalizavam em sanha persecutória com os piores censores do outro lado da Cortina de Ferro, suas supostas némesis), parecendo ter sido confeccionado de propósito por algum autor português a coberto de pseudónimo “camone” para lhes provocar uma infecção alimentar de monta.

Eis a primeira parte desta ironia de duas faces. Quer por baixo da ilustração de Lima de Freitas de 1956 (que incluía um “cão-polícia mecânico”), quer nestas novas roupagens fotográficas da edição tie-in (termo contudo anacrónico no mundo da edição portuguesa de 1967) que visava aproveitar a estreia deste sucesso cinematográfico quase garantido, o texto de Bradbury sobre um estado futuro onde a censura aos livros passa da selecção para o puro extermínio indiscriminado pela mão de bombeiros profissionais não terá causado qualquer comichão à Comissão de Censura (mais uma vez, nenhum registo consta das listas conhecidas). Mas, quando o filme de Truffaut estreia em Lisboa, cheira a livros queimados. A cinzas, pelo menos.

O ano de 1966 fora de razia censória, e no olho do furacão estivera Luiz Pacheco (colega de andanças surrealistas de Mário Henrique Leiria). No caso mais grave, as suas participações como prefaciador na edição da Filosofia de Alcova do Marquês de Sade e como um dos autores da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, ambas edições da Afrodite de Fernando Ribeiro de Mello, custaram-lhe implacáveis condenações (e o suicídio do ilustrador da primeira, João Rodrigues). Talvez por isso, a sua aguardada estreia nesse mesmo ano como autor “a solo” com Crítica de Circunstância, numa das editoras de referência de então, a Ulisseia, se tenha saldado pela (esperada) investida da PIDE. As autoridades assaltam os escritórios da Ulisseia e apreendem todos os exemplares da obra que estavam em armazém. Todos? Não. O editor Vítor Silva Tavares, prevendo o óbvio, tinha salvaguardado umas centenas, levando-os certa noite de carro do armazém da Ulisseia para uma garagem na quinta dos seus pais a 60 Kms de Lisboa.
Fim feliz da história? De novo, não. Pouco tempo depois, e antes de sair da editora, V.S. Tavares conta o segredo (apenas conhecido do seu irmão, também funcionário da Ulisseia) ao proprietário Manuel Correia.

“E saí. Tempos depois, creio que um sobrinho dele […] quis saber da administração da editora, e o meu irmão falou-lhe então da existência desses livros e o rapaz, atemorizado, numa certa noite, foi lá com o meu irmão e recolheu os caixotes com os exemplares da Crítica. Caixotes esses, livros esses, que nessa mesma noite foram regados a gasolina, algures no parque de Monsanto, e desapareceram. […] Por um lado, salvo os livros das garras da PIDE, por outro lado, por um excesso de honestidade, acabo por ser também responsável, de certo modo, pelo triste destino que tiveram os ditos.” (in Puta que os pariu!, João Pedro George, p. 397).

Não era, pois, a rosas que cheirava o ar de Lisboa quando o filme estreou no ano seguinte, a mesma Lisboa onde eram as pessoas que trabalhavam e produziam os livros que se encarregavam de os queimar com medo de represálias: teria Bradbury pensado num twist tão perverso, numa tão radical versão da auto-censura que eliminava a necessidade de bombeiros pirómanos? E quantas mais fogueiras de livros ardiam e arderam por esses recantos da Grande Lisboa?
(Nota final de remate da amarga ironia desta história: quando as instalações da PIDE são ocupadas em 1974, há umas dezenas de livros ali pelos cantos. Que livros? Os exemplares da Crítica de Circunstância, preservados e salvos para a posteridade, que os agentes tinham apreendido em livrarias e na editora.)

(texto publicado na revista Bang! n.º 13, Julho de 2012)

Entretanto, na imprensa
19.05.2012

Recensão de José Mário Silva no suplemento A(C)TUAL do Expresso (19.05.12). Clicar na imagem para ler. O livro compra-se na LOJA deste blogue.

O espírito e as letras
01.05.2012

Eis o spread do texto que publiquei na LER deste mês sobre Robert Massin e a propósito da visita deste a Lisboa em Março, para uma conferência nas Jornadas Cantianas. Tenho de saudar o editor João Pombeiro pelo simples facto de ter aceite a proposta do texto e, finalmente, a sua publicação, apesar de um contexto muito nacional em que os livros se vêem apenas como emanações da criatividade e vontade dos “autores” (sobretudo os literários) e não como produtos de um trabalho colectivo em que outras aportações são tão ou mais importantes do que a autoral propriamente dita. Detalhe acertado (e inesperado) de Rui Leitão no tratamento da foto que fiz a Massin, puxando-lhe o contraste ao máximo até a aproximar das imagens que o fotógrafo Henry Cohen produziu para a edição de 1965 da Cantatrice Chauve de Ionesco.

Salva-se assim, através da LER, a imprensa cultural portuguesa, que, na sua generalidade, deixou Massin andar por aí sem o incomodar sequer com uma ou duas perguntas… Publicarei em breve a entrevista que lhe fiz e que serviu como uma das bases de consulta para o texto (juntamente com a monografia incontornável de Laetitia Wolff publicada pela Phaidon e as memórias de Massin, Journal en Désordre 1945-1995, publicadas pela Robert Laffont). A foto em baixo foi tirada por mim a 17 de Março, junto às instalações da Oporto em Lisboa (ao Miradouro de Santa Catarina).

Quem seria o Ernst Bettler português?
20.04.2012

Não vou poder ir amanhã à última conferência do Mário Moura na Culturgest, desta feita sobre a revista DOT DOT DOT (entretanto já encerrada). Mas recomendo-a vivamente (à conferência, pois claro, e à revista): apesar de a conhecer pouco (alguns números folheados na loja da Fábrica Benetton do Chiado), foi lá que no distante ano de 2000 se publicou um dos textos que mais me fascinaram em torno do design gráfico. Este “I’m only a designer: the double life of Ernst Bettler” de Christopher Wilson, sobre um suposto designer gráfico suíço, Ernst Bettler (veterano do Estilo Internacional dos anos de 1950, e que teria denunciado um cliente – uma farmacêutica com um passado secreto de colaboração com os Nazis – da forma mais subtil: através dos próprios cartazes encomendados) foi uma patranha que enganou alguns (o nome de Bettler chegou a ser incluído em algumas histórias do design gráfico publicadas pouco depois), irritou outros (Rick Poynor, por exemplo) e confundiu quase todos, mas, na sua concisão e simplicidade (e no twist que constitui o seu núcleo dramático) é quase tão perfeita como um pequeno conto de Cortázar, algo que o autor de Bestiário ou As Armas Secretas poderia ter publicado nos seus livros mais experimentais, gráfica e literariamente, como Último Round ou A Volta do Dia em Oitenta Mundos. (Cheguei uma vez a mandar um email ao autor perguntando-lhe se não gostaria de estender o artigo para uma noveleta. Não tive resposta.)

Como tiro apontado da anca, à Sam Spade, em direcção à vacuidade ética de muita da prática comercial do design gráfico, é terrivelmente certeiro, tendo até (é a minha humilde opinião) mais impacto do que muitos manifestos do estilo First Things First (cujo “remake” se publicou precisamente também em 2000). Não é por acaso que a Adbusters lhe chamou, num artigo de 2001, “uma das maiores invenções no design de que há registo” (citado a partir do artigo de Michael Bierut no Design Observer).

Chegaria ao ponto de afirmar que esta pequena pérola falsa devia servir de mote a exercícios dentro do que agora soe chamar-se pomposamente “escrita criativa”. Teria até já preparada a primeira proposta: “quem seria o Ernst Bettler português?” Imagino-o um veterano da publicidade da primeira metade dos anos de 1970, envolvido depois na onda revolucionária, criando cartazes para os programas de dinamização cultural e social (como o SAAL), e tendo de fazer escolhas incómodas para sobreviver na ressaca do PREC, nos finais da década ou inícios dos oitenta. Mas já estou a divagar…

(Com mil agradecimentos ao Paulo Pereira pelo envio dos scans).

Artefactos em flipbook
16.12.2011

O meu artigo “Artefactos da era espacial”, sobre a revista New Worlds de 1967 a 1971 e publicado na Bang! de Outubro (edições Saída de Emergência), pode ser “folheado” e lido em forma de flipbook aqui.

Iconografia pachecal
16.12.2011

Luiz Pacheco visto, respectivamente, por João Rodrigues em 1964 (in Jornal de Letras e Artes), Benjamim Marques em 1965 (o “grupo do Gelo”, em que Pacheco é o segundo a contar da esquerda, in Diário de Angola), Henrique Manuel em 1977 (in Textos Malditos, edição Afrodite/Fernando Ribeiro de Mello) e Manuel João Ramos em 1992 (in revista K). As duas primeiras imagens são retiradas da biografia de Luiz Pacheco Puta que os pariu! de João Pedro George (Tinta da China).