Design gráfico na ficção: o caso de Deliverance de James Dickey
14.03.2010

Há tempos Mário Moura referiu uma lista de livros de ficção onde o design gráfico (ou os designers gráficos) fosse parte essencial ou importante da narrativa. A essa curta lista lembro-me de lhe ter sugerido, como acrescento, The Learners de Chip Kidd (sobre o qual já escrevi aqui). Estando agora a ler Deliverance de James Dickey, descubro no seu capítulo inicial (uma espécie de prólogo em que ficamos a conhecer a personagem principal e narrador da acção) que Ed Gentry (interpretado no filme de Boorman de 1972 por Jon Voight), dirige uma pequena agência de publicidade em Atlanta.

O prólogo é quase todo construído à volta de umas horas pouco produtivas na sua agência, na tarde que precede a ida para a fatídica aventura do fim-de-semana. Quando regressa do almoço, Ed tem à espera o layout de uma campanha publicitária para uma linha de lingerie chamada Kitt’n Britches. O cliente é, como todos os que sustentam a sua agência, local e com um nível de exigência que se traduz na descrição que Ed faz do comercial da empresa: “an incredible countrified jerk”. Apercebemo-nos de que Ed se vê sobretudo como um “mecânico” do design, alguém que se sente satisfeito com um certo nível de proficiência (sobretudo na montagem de layouts para os anúncios de imprensa) e reconhece o seu nicho num mercado local medíocre (“I had won a couple of modest awards for art direction around town, where admitedly the competition was not of the first class”). Ed passou dos 40 anos mas o seu percurso no design, e por própria admissão, parou há muito num porto seguro: sabe que não passará daquilo.

Trata-se de um retrato muito curioso, e cheio de detalhes, do mercado das agências publicitárias de “província” (leia-se, fora da Madison Avenue) e aí aproxima-se de The Learners de Kidd, com a sua meticulosa descrição de uma agência na costa Leste no início dos anos 60 (a acção de Deliverance passa-se certamente pouco depois), sobrevivendo com as velhas receitas ao mesmo tempo que de Nova Iorque chegam as novidades da Creative Revolution, que irá tornar essas receitas obsoletas antes do fim da década (uma das linhas de tensão narrativa da primeira temporada da série Mad Men reside precisamente neste ponto).

Resta a pergunta: porque decidiu James Dickey atribuir à sua personagem principal esta profissão? Dickey tinha trabalhado como copy numa agência de Atlanta nos anos 50, e tinha odiado a experiência. Ed é apresentado com alguém que perdeu o contacto directo com a vibração sensorial do mundo, alguém que medeia o contacto com esse mundo através de “layouts”: o mapa da região onde vão passar o fim-de-semana que Lewis lhe mostra é apenas uma “representação” gráfica (“I looked down at the map again but now as though it were a layout. It was certainly not much from the standpoint of design.”), e a sua fugaz atracção pela modelo da foto para a campanha de lingerie é sublimada no trabalho com os elementos no estirador, “bringing the girl forward and moving her back, until I thought I had what was a good compromise, with the type centering around the girl’s hips”.

O design gráfico parece ser aqui uma metáfora para o grau de evolução cultural da espécie em que a acção directa sobre o mundo se diluiu em representações de representações, em que objectivo financeiro da actividade se sobrepôs completa e definitivamente às suas ligações com a expressão de uma individualidade, com o que mais assusta Ed: a assunção do design como uma forma paralela de expressão artística (ele conta como teve de despedir uns anos antes um designer que insistia numa ligação do design à arte, em procurar inspiração na tradição artística modernista). Na sua afirmação de masculinidade na meia idade, associar o seu trabalho à “arte” é quase uma admissão de feminilidade.

Será Ed que cumprirá a libertação dos instintos primordiais que o título do romance promete, mas para o fazer terá de se desfazer desses recalcamentos culturais, dessa “pele” de civilização, e dessa mentalidade a que a sua prática de designer o confinou.

E resultou? No final do romance, vemos que Ed mudou, que o prazer voltou ao seu trabalho na agência. Mais importante: deixou de recear as associações lúdicas e criativas do design à arte contemporânea, e readmitiu o funcionário que despedira. Já não tem receio de cortar,  moldar, deformar as imagens fotográficas nos layouts. As colagens (“full of sinuous forms”) são agora o seu meio de expressão favorito. (Ed não refere quaisquer nomes de designers que pudessem influenciá-lo antes da sua libertação, mas é notório que, depois dela, o seu espírito está mais aberto ao diálogo com a vanguarda e com formas novas).

Dado que a função de designer gráfico funciona aqui como um véu diáfano sobre a de escritor (ambos vivendo da produção e reprodução de signos e afastados em vários graus da essência da “vida”), é algo irónico saber que Dickey não obteve qualquer libertação e iluminação com o sucesso de Deliverance, antes pelo contrário: a sua criatividade e vida pessoal, tal como a sua saúde, não resistiram aos apelos da fama e entraram em lenta decadência. O seu último acto terá sido a sugestão do título da sua biografia ao seu autor, um título que trai a genuína e dura vitória que Ed Gentry, o designer gráfico de Atlanta, conseguira no romance: The World as a Lie.

In English soon.

(Deliverance, James Dickey, Dell, 236 pp, 1.ª edição paperback, 1.ª impressão, 1971)

Quem foi/é Terry James?
15.10.2009

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Num post anterior sobre capas de livros de FC dos finais dos anos de 1960 e inícios da década de 70, já aqui coloquei imagens das capas da série de livros publicados pelo Science Fiction Book Club de Londres, que continuo a considerar (pelo seu minimalismo em plena época de exuberância Pop) como das mais belas e desafiantes que já vi, sobretudo tendo em conta o facto serem capas para livros de ficção científica, alguns dos quais não seriam propriamente as obras-primas de experimentação literária que elas parecem prometer.

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Não conhecia à altura o nome do designer destas capas. Uma pesquisa mais teimosa levou-me a este site, onde se faz o registo possível da evolução do Clube de FC britânico, e onde encontrei finalmente o nome que procurava: Terry James. Um contacto meu ao responsável pelo site não obteve qualquer pista suplementar sobre quem foi ou é e o que mais fez este Sr. James que, num contexto literário mais estreito e completamente distinto, criou e manteve durante uns 4 anos (de 1967 a 1971, aproximadamente) uma série de capas seguindo o mesmo princípio posto em prática por Alvin Lustig na New Directions 20 anos antes: distanciamento face à concorrência graças ao monocromatismo rigoroso (apenas o preto), ao recurso à manipulação fotográfica e à manutenção de uma rigorosa constância formal dentro da aparente variedade. Basta um olhar para as (também brilhantes) capas que nos EUA a Doubleday publicava no seu Clube de FC para nos apercebermos do toque de génio de James nesses anos de ouro da literatura de especulação. E há algumas surpresas: na simples inversão vertical da fotografia do reflexo de uma figura humana num piso molhado, a capa de The Werewolf Principle, por exemplo, antecede em quase 30 anos a capa de Chip Kidd para The Terrorist (Prova A) de John Updike.

Prova A
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Na capa de Echo Round His Bones, de 1969, (Prova B) há um uso muito inteligente da estrutura do livro: a fotografia desfocada de um esqueleto humano cobre a capa e a contra-capa, fazendo com que a espinha dorsal coincida com a lombada (spine, em inglês).

Prova B
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Depois dele, o caos: após a sua saída, e a partir de 1972, o nível do design dos livros do Clube britânico cai a pique, à imagem de que aconteceu com a edição de FC em geral. Para além de uma referência no blogue do ilustrador Richard de Pesando, isto é tudo o que sei dele. Um designer que assina 53 capas deste calibre e desaparece dos registos?… Informações serão, portanto, bem-vindas.

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P.S.: O genérico da série juvenil The Tomorrow People (Thames Television, 1973, designer desconhecido), apesar de feito mais de 2 anos após a sua última capa para o SFBC,  tem curiosas semelhanças com a estética FC das capas de James.

WHO WAS/IS TERRY JAMES?
In a previous post on SF books covers of the late 1960s and early 1970s I have already shown images of some of the covers for the London Science Fiction Book Club, which I still regard (by their minimalism in an era of Pop exuberance) as some of the most beautiful and challenging I have ever seen, specially if one considers their were created for some quite formulaic science fiction novels (space operas and such), far from the masterpieces of experimental fiction those covers seem to promise.

I didn’t know then the name of the designer of those covers. A more stubborn research lead me to this website, where the record of the British SF club is kept, and where I finally found the name I was looking for: Terry James. An answer from the website’s manager to an email I sent gave me no further clue on who was or is or what else did this Mr. James do since then. What he did do during 4 years (1967-1971), in a narrower and completely different literary context, was akin to what Alvin Lustig had done at New Directions some 20 years earlier: creating distance from the competition through a rigorous monochromatic palette (black only), photographic manipulation with a surrealist overtone  and a solid formal consistency within an apparent variety. One look to the (also brilliant) covers Doubleday was publishing in its SF Club at the time is enough to perceive James’ touch of genius in his covers. And there’s a few surprises: in its simple vertical flip of the photo of a human figure’s reflexion on a wet surface, the cover for The Werewolf Principle, for example, precedes in almost 30 years Chip Kidd‘s cover for John Updike’s The Terrorist (A).

In the cover for Thomas Disch’s Echo Round His Bones (1969, B), there is a very smart use of the book’s structure: the blurred photo of a human skeleton is laid over the entire area of cover and back cover, making its spine align with the book’s own.

After him, chaos: soon after James’ last cover for the SFBC, the level of design in their books plummeted, on a par with the general SF publishing of the 1970s. Apart from a small reference in illustrator Richard de Pesando‘s blog, this is all I have on him. A designer who creates 53 covers of this caliber and then vanishes from sight?… All information is therefore quite welcome.

P.S.: The opening titles for the children’s series The Tomorrow People (Thames Television, 1973, designer unknown), although created more than 2 years after James’ last cover for the SFBC, show curious similarities to the SF aesthetics in his covers.

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