Quem seria o Ernst Bettler português?
20.04.2012

Não vou poder ir amanhã à última conferência do Mário Moura na Culturgest, desta feita sobre a revista DOT DOT DOT (entretanto já encerrada). Mas recomendo-a vivamente (à conferência, pois claro, e à revista): apesar de a conhecer pouco (alguns números folheados na loja da Fábrica Benetton do Chiado), foi lá que no distante ano de 2000 se publicou um dos textos que mais me fascinaram em torno do design gráfico. Este “I’m only a designer: the double life of Ernst Bettler” de Christopher Wilson, sobre um suposto designer gráfico suíço, Ernst Bettler (veterano do Estilo Internacional dos anos de 1950, e que teria denunciado um cliente – uma farmacêutica com um passado secreto de colaboração com os Nazis – da forma mais subtil: através dos próprios cartazes encomendados) foi uma patranha que enganou alguns (o nome de Bettler chegou a ser incluído em algumas histórias do design gráfico publicadas pouco depois), irritou outros (Rick Poynor, por exemplo) e confundiu quase todos, mas, na sua concisão e simplicidade (e no twist que constitui o seu núcleo dramático) é quase tão perfeita como um pequeno conto de Cortázar, algo que o autor de Bestiário ou As Armas Secretas poderia ter publicado nos seus livros mais experimentais, gráfica e literariamente, como Último Round ou A Volta do Dia em Oitenta Mundos. (Cheguei uma vez a mandar um email ao autor perguntando-lhe se não gostaria de estender o artigo para uma noveleta. Não tive resposta.)

Como tiro apontado da anca, à Sam Spade, em direcção à vacuidade ética de muita da prática comercial do design gráfico, é terrivelmente certeiro, tendo até (é a minha humilde opinião) mais impacto do que muitos manifestos do estilo First Things First (cujo “remake” se publicou precisamente também em 2000). Não é por acaso que a Adbusters lhe chamou, num artigo de 2001, “uma das maiores invenções no design de que há registo” (citado a partir do artigo de Michael Bierut no Design Observer).

Chegaria ao ponto de afirmar que esta pequena pérola falsa devia servir de mote a exercícios dentro do que agora soe chamar-se pomposamente “escrita criativa”. Teria até já preparada a primeira proposta: “quem seria o Ernst Bettler português?” Imagino-o um veterano da publicidade da primeira metade dos anos de 1970, envolvido depois na onda revolucionária, criando cartazes para os programas de dinamização cultural e social (como o SAAL), e tendo de fazer escolhas incómodas para sobreviver na ressaca do PREC, nos finais da década ou inícios dos oitenta. Mas já estou a divagar…

(Com mil agradecimentos ao Paulo Pereira pelo envio dos scans).

Se um viajante numa tarde de Inverno…
17.01.2012

Numa tarde no final Janeiro de 1975, o narrador desta história, depois de participar na última sessão do Tribunal Russell II em Bruxelas (o que faz desse narrador o escritor Julio Cortázar), decide apanhar o comboio para Paris. Primeiro sinal de estranheza: querendo comprar um jornal belga no quiosque da estação, apenas encontra revistas e comics mexicanos à venda. Apressado, leva um destes e entra no comboio. É aqui que se apercebe que o que tem em mãos é uma aventura de Fantomas: não já o supervilão parisiense criado pela dupla Allain e Souvestre e popularizado nos folhetins cinematográficos de Louis Feuillade dos anos de 1910 (e a quem Jean Marais dera um último rosto – mascarado – em 1964), mas o resultado de uma importação e assimilação “asteca”, nas quais as edições da Novaro a partir de 1966 tiveram papel crucial e em que a personagem se tornou num multimilionário a viver numa ilha remota e numa cruzada contra o mal, um Batman tropical de certa forma.

Voltemos ao comboio. O que o narrador/Julio Cortázar tinha em mãos, a caminho de Paris nessa tarde invernal, era, rigorosamente, o n.º 201 da série Fantomas La Amenaza Elegante da Novaro, uma aventura entitulada La Inteligencia en Llamas, escrita por Gonzalo Martré e desenhada por Victor Cruz. Nela, o herói mascarado luta contra uma sinistra organização que pretende aniquilar o saber livresco, destruindo bibliotecas e coagindo escritores famosos para que não reajam (nem escrevam). Chegado a Paris, o narrador interrompe a leitura e vai aos seus afazeres. Mais tarde nesse dia recebe uma estranha chamada de Susan Sontag, deitada numa cama de hospital, que lhe ordena que continue a ler o comic. É aí que ele descobre que entre os escritores que pedem ajuda a Fantomas contra essa ameaça sinistra estão Alberto Moravia, Octavio Paz, Susan Sontag (a quem partiram ambas as pernas e que jaz, convalescente, num hospital de Los Angeles) e… Júlio Cortázar.

É assim que começa o enredo deste Fantomas contra los vampiros multinacionales. Na verdade, Cortázar soubera desse comic (publicado em Fevereiro de 1975) através de Luis Guillermo Piazza, um dos directores literários da editora mexicana, que enviou ao autor um exemplar para Paris. Qual a sua reacção ao ver-se representado numa “historieta” sem a sua prévia autorização? Usá-la, fundindo-a numa narrativa que prolongasse a do próprio comic e que informasse sobre os resultados e objectivos das sessões desse tribunal informal que reunira em Bruxelas para condenar simbolicamente os abusos dos direitos humanos na América Latina (o livro inclui um Apêndice com as conclusões do tribunal). Devolvendo o obséquio, Cortázar não prestou contas à Novaro e enviou o seu manuscrito a Piazza no México, que, por seu lado, o passou ao jornal Excelsior. A edição final deste, de Junho de 1975, com tiragem de 20 mil exemplares e capa de Oswaldo (um dos desenhadores da Novaro), foi um sucesso. Os royalties que lhe seriam devidos foram doados por Cortázar ao Tribunal Russell. (Numa entrevista em 1976 ao programa da TVE A Fondo, o autor fala sobre este rocambolesco processo, a partir dos 3’40”; transcrição aqui).

Cortázar, o autor, dá a Susan Sontag em Vampiros um papel mais importante do que a curta cena em que a vemos acamada em Inteligencia em Llamas. É ela que o faz ver que a descoberta do “génio do mal” Steiner, aparentemente derrotado por Fantomas nesta história, não é o fim da mesma mas apenas uma cortina de fumo que oculta os verdadeiros criminosos (uma lista de corporações e multinacionais, como a ITT ou a Hoecht, agências secretas como a CIA, e o governo Nixon/Ford, representado pelo Secretário de Estado Kissinger) e o verdadeiro crime (o uso da força, através de golpes de estado e assassinatos cirúrgicos, para fazer passar uma tomada de poder económico e estrutural por um combate político). É o fogo de 11 de Setembro de 1973, que varreu Santiago do Chile, que ainda arde dois anos depois, e um ano antes do início de outro brutal “tratamento de choque”, a subida ao poder da Junta militar na Argentina. Tal como o álbum biográfico de banda desenhada sobre Che Guevara de 1968 valeria a Hector Oesterheld a inclusão nas listas de morte, também este Vampiros Multinacionales selará o destino de Cortázar como exilado permanente: sabendo-se um dos alvos a abater pela Junta, não mais regressará à Argentina.

No exacto formato de um comic, de capa agrafada ao miolo, a meio caminho entre a apropriação oportunista e irónica, o détournement situacionista e os “livros-almanaque”, como lhes chamou Cortázar, este objecto híbrido e inclassificável carece obviamente da qualidade gráfica que a Siglo XXI emprestou às primeiras edições de Vuelta al Dia en Ochenta Mundos de 1967 ou Ultimo Round de 1969 (ambos com o design de Júlio Silva, autênticos tours-de-force de composição tipográfica e integração de imagens no texto). Trata-se, contudo, de uma carência que se justifica e convém a algo que tem o sentido de urgência de um documento político engagé, mas no qual, ainda assim, Cortázar injecta a sua receita de observação minuciosa e poética do quotidiano, finíssima ironia e suprema habilidade em colocar portas rotativas na fronteira entre a ficção e a realidade.