Max Ernst (still) does it

martinlake_capa3.jpg

Data
2006

Título
A transformação de Martin Lake & outras histórias

Autor
Jeff VanderMeer

Edição
Livros de Areia Editores

Dimensões e Impressão
180 x 150 mm
Digital, CMYK (Publidisa)

Descrição
No seguimento do post anterior, umas palavras sobre o valor das ilustrações na capa. Sempre considerei um absurdo o lugar cimeiro atribuído à ilustração na autoria de uma capa, e a tradição de design de capas de FC não é inocente desse absurdo: as ilustrações, quando não eram encomendadas em cima da hora e sem qualquer informação sobre o conteúdo do livro , eram, muitas vezes, ou compradas por atacado a agentes ou dos portfolio de ilustradores de nome do momento. Depois, um designer gráfico (ou um simples e anónimo compositor, pago à hora) iria aplicar essa ilustração ao plano pretendido, escolher uma tipografia de ocasião e pronto, a capa estava feita. Autoria: o ilustrador, claro.

Não vejo porque, por mais impactante que seja o trabalho do ilustrador e por mais sonante que seja o seu nome, a ilustração de capa não deva ter a mesma importância da tipografia, da grelha, do esquema de cores, do copy promocional usado nas badanas. É ao designer que cabe a composição da partitura para a qual concorrem todos estes instrumentos, alguns deles como solistas, e é ao designer ainda que compete a direcção deles todos em concerto, às portas da gráfica.
Isto significa também preterir o input de um ilustrador vivo e conhecido em favor de um quadro ou desenho de um artista já morto, se a adequação ao conteúdo do livro assim o impuser. Nessa prerrogativa está também a responsabilidade do designer.

Quando tive de fazer a capa para a edição de A transformação de Martin Lake & outras histórias, estava certo de que qualquer dos muitos e excelentes ilustradores na nossa praça me poderia ter feito uma proposta fabulosa, mas estava ainda mais certo de que só havia uma imagem que permitisse uma capa, ao mesmo tempo, forte e totalmente encaixada na novela de VanderMeer: o quadro de Max Ernst La Toilette de la mariée (1939 – Prova A).
Tudo, por milagre, se adequava ao texto: as cores (na história, duas facções rivais de estetas radicais combatem sob estandartes de cor vermelha ou verde), as alusões sexuais e ornitológicas (na história, figuras com máscaras de pássaros levam Martin Lake… bem, leiam!) e, claro, esse ambiente contraditório de serenidade, sofisticação e terror que Ernst não podia deixar de exprimir ao ver a Europa civilizada cair à sua volta. É, de novo, uma capa composta no plano aberto total, horizontal, com a hera (alusiva a outra história de VanderMeer) a fazer a ligação entre os compartimentos.

martinlake_capa.jpg

Ernst (que considero o melhor dos pintores vindos do primeiro grupo Surrealista, e, de longe, o mais polivalente de todos eles, incluindo Dali) é um manancial de autênticas trouvailles que podem – mesmo sem as extraordinárias coincidências que encontrei aqui – salvar uma capa. Voltando ao exemplo da FC, veja-se o soberbo uso do quadro L’oeil du silence (1943/44) para a edição da Jonathan Cape de The Crystal World de J. G. Ballard (1966 – Prova B).

E compare-se entre a inenarrável capa da Berkley para The man in the high castle de Philip K. Dick (Prova C, nas edições de 1974, 1978 e 1981 – terá Richard Powers, o ilustrador, lido o livro?) com o simples recurso da edição da Penguin de 1965 (Prova D). Salvador? Acertaram: Max Ernst, com um pormenor de uma das suas florestas petrificadas. Lição: se é para usar o Surrealismo, é melhor a real thing do que as derivações de pacotilha.

E a quem recorreu Fernando de Azevedo para dar o toque de mistério e onirismo à sobre-capa do pesadíssimo catálogo do ciclo de cinema de FC da Cinemateca Portuguesa em 1984? Bastou um olhar para aquele pormenor de La ville entière (1935) para, uns anos mais tarde, eu ter querido ficar com aquele livro (Prova E).

Prova A
toilette.jpg

Prova B
crystalcape3601.jpg

Prova C
highcastleberkley1981.jpg

Prova D
maninthehighcastlepenguin.jpg

Prova E
cinematecafc.jpg

3 Comments

Filed under Capas, Da casa

3 responses to “Max Ernst (still) does it

  1. Alguns não saberão, mas aquilo que sempre conheci como sendo “o livro”, era o aglomerado de palavras que ele continha, qualquer que ele fosse. Pouco me importava com as capas, com as vinhetas, com o design. Talvez por ter vindo da área de literatura, onde se tende a ver o livro como veículo da sabedoria, da informação ou apenas do belo. Na pós-graduação de Edição de Texto, as coisas alteraram-se, as edições já eram importantes. Claramente, uma edição poderia ser melhor que outra, apesar de custarem o mesmo.
    Daí, ao fascínio pela construção do livro foi um pequeno passo. O relativo à vontade com software e os anos de leituras desse objecto que é o livro levaram-me à paixão do design editorial. Hoje, não me vejo a fazer outra coisa que não livros.
    Perguntar-me-ão: Que tem isso que ver com este “post” sobre a capa de “A transformação de Martin Lake & outras histórias”? É simples. Quando começava a dar os primeiros passos no design editorial, conheci, através deste mundo que é a Internet, a Livros de Areia e percebi que, como é óbvio, muito caminho havia a percorrer. Foi a minha outra paixão por Borges que me levou a conhecer a Livros de Areia. Se pela edição de “Uma Nova História Universal da Infâmia” já me tinha apaixonado, quando pude ler este livro de VanderMeer na edição do Pedro e do João rendi-me por completo.
    Não sabia dizer se era a grelha, as cores, ou a tipografia da capa que me faziam adorar este livro, mas sabia que aquele era um objecto único. Fiquei ainda mais convencido quando comecei a ler o livro: O universo surrealista de Ernst (que conheci pela simpática referência que o Pedro deixou na ficha técnica) tem tudo que ver com a cidade de VanderMeed; as cores, verde e encarnado, que representam os dois grupos “rivais”; o pequeno monstro que ameaça a metamorfose feminina incontida na moldura; a fotografia de VanderMeed composta em linhas oblíquas tornando-a menos definida; as vinhetas recorrentes (que também aqui descobri); enfim, mais do que uma edição bonita, é um livro de culto (julgo que tenha sido essa a intenção dos editores)!
    E como vêem, um livro pode mudar o mundo. Pelo menos o mundo de quem o lê…

    Forte abraço Pedro e João e…, obrigado!

  2. Como disse aqui comprei este livro por impulso devido à sua apetitosa capa.

    Eu adoro capas de sci-fi e fantasia mesmo aquelas mais kitsch (ok, excepto aqueles CRIMES que a Presença faz, que consegue transformar qualquer livro de fantasia num nojo estético). Esta em particular, juntamente com o próprio formato do livro apanhou-me a atenção a metros de distância e não pude deixar de o comprar.

  3. Pingback: Onde se encontra uma raridade da ficção científica « Stranger in a Strange Land

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s