3 tragedies, de Garcia Lorca

07garcia.jpg

Data
1947

Editora
New Directions

Designer
Alvin Lustig

Descrição
Há algo de hipnótico nesta capa (retirada daqui). Alvin Lustig, o seu autor, era um artista gráfico da mesma geração modernista americana do pós-II Guerra Mundial (Paul Rand, Henry Woolf, Saul Bass, George Lois, Lester Beal) que reinventou a comunicação visual e tipográfica nos livros, nas revistas e na publicidade. Morreu muito jovem, em 1955 (com 40 anos), mas deixou marcas em alguns trabalhos, nomeadamente nas capas para a Knopf e a New Directions. Nesta fez composições soberbas, e algumas até porventura mais brilhantes do que a da edição das 3 peças de Garcia Lorca (a de 27 wagons full of cotton de Tennesse Williams podia ter sido feita ontem), mas esta em particular tem uma força que poucas capas conseguirão.

Lustig abdicou de qualquer imposição tipográfica, ilustração, colagem ou fotomontagem, coisa rara para a época, e, numa grelha muito simples, fez o que poderíamos chamar de preparação dramática do leitor para a “entrada” no texto com uma montagem de planos fotográficos, que podem ser “lidos” na ordem cronológica normal, de um plano geral no exterior para um plano de pormenor no interior (conseguindo-se assim o total efeito cinematográfico desta montagem), ou então por oposição e cruzamento ao longo do eixo horizontal central: a lua joga com a cruz e as ondas revoltosas com o papel rasgado. A tipografia é toda “localizada”, fotografada como se fizesse parte dos elementos naturais ou dos objectos desta encenação.

Sutura é o termo usado nos estudos fílmicos para o efeito que a narrativa essencialmente visual do cinema opera no observador: uma concatenação de planos que nos leva para dentro da “história” e nos “cose” ao filme. Quando vi pela primeira vez esta capa reproduzida (já não sei se no Design Literacy do Steven Heller ou no dicionário de design gráfico da Thames and Hudson), não pude deixar de sentir que ela operava o mesmo efeito! Uma aplicação das longíquas lições de Lev Kuleshov, e das experiências do cinema sem película, é também (pelo menos, gosto de pensar que é) uma quase directa referência ao Chien Andalou de Buñuel (afinal de contas Buñuel e Lorca foram amigos): aquela lua podia bem ser a dos planos iniciais desse filme, inspirando o mesmo sentimento de opressão soturna e irracional.

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