Cartazes

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Dentre os vários métiers de que se compõe a prática do design gráfico ou de comunicação, a autoria de cartazes equivale a envergar a camisola 10 num Mundial, ao solo de violino ou piano à frente de uma orquestra, ao papel de detective num policial noir. É o que vai ficar registado na história, nos manuais e, com alguma sorte, na memória dos que todos os dias circulam nas cidades e se expõem aos seus apelos gráfico de sereia. Numa era de overload de imagens, e em que estas se miniaturizam cada vez mais, poderá já não ser bem assim, mas a possibilidade de ter ampliado e multiplicado pelas avenidas um trabalho secreto e muitas vezes solitário é ainda o nec plus ultra numa profissão que ainda há menos de um século se afirmava com dificuldade perante as Belas-Artes ascendentes, em que expor publicamente e em grande era o objectivo final.

A minha actividade tem andado afastada da produção de cartazes, sobretudo porque vivo também numa conjuntura em que, depois de 2001, é notório um decréscimo do interesse dos encomendadores habituais do cartaz em Portugal: as companhias ou associações culturais. O brutal desinvestimento nas estruturas que produzem espectáculos e que encomendam cartazes é sentido e tranversal de designers ao público geral. Basta ter andado nas ruas do Porto em 1999 e andar agora, para perceber o que acabo de afirmar. Não sendo também coleccionador, a internet permitiu-me, contudo, e com a necessária mesura financeira, adquirir aqui e ali, a preços muito aceitáveis, cartazes de que gosto particularmente. Seja por investimento numa futura revenda (pecunia non olet, e todos temos falta dele um dia…), seja por mero prazer de os possuir sem a agonia de ter gasto uma fortuna.

Escrevo isto tendo à minha esquerda, na parede, o cartaz que encima este post. Vi-o, pela primeira vez, reproduzido num livro volumoso da Chêne sobre Roman Polanski, acompanhado de um texto do seu autor, Jean-Michel Folon, o que imediatamente me garantia que era essa, e apenas essa, a versão do cartaz que importava possuir (e era precisa e curiosamente a versão alemã que era ali reproduzida – Prova A). Deu-se a confluência de gostar imenso do filme em questão, What?, uma comédia amarga de 1972, na mais radical veia do Teatro do Absurdo e que a promoção da altura tentou passar por comédia sexual “à italiana”, e de gostar também do desenho de Folon e sobretudo dessas cores de crepúsculo. O crepúsculo dos anos 60 e das suas ilusões utópicas, substituído por algo incerto, sensual mas labiríntico, ao som da Morte e a Donzela de Schubert.

Outra das coisas que adoro neste cartaz, em perfeita sintonia com o filme, é a subtil repartée entre título e subtítulo. Perdida a hierarquia entre eles pelo uso de uma tipografia niveladora, e trocada a sua ordem no cartaz, temos a reprodução do que poderia ser um dos diálogos do filme, em que as personagens não parecem conseguir comunicar as mais simples mensagens.

Prova A
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Um golpe de sorte fez também com que conseguisse, a um preço muito baixo (graças a uma providencial e quase invisível imperfeição), um dos cartazes que Wieslaw Rosocha desenhou como homenagem a Jerzy Kosinski e a The Painted Bird, no ano da morte do autor. (Prova B) O último exemplar que a Plakatu de Varsóvia possuia está agora à guarda de quem contribuiu para a edição portuguesa desse título: espero que o equilíbrio universal que me parece presidir a este acaso sirva de bom augúrio.

Prova B
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