Centelhas no baú sixties

Ralph Ginzburg, apesar de toda a sua coragem e perseverança, é hoje um nome praticamente desconhecido. Editor e autor de erotica “de classe”, com laivos pedagógicos, era também o que qualquer judeu novaiorquino com talento para as palavras acaba, inevitavelmente, por ser: um satirista certeiro do seu tempo. Numa década, ou, para ser mais correcto, na década chave do século americano, Ginzburg atacou a estagnação moral dos good ol’ USA com três investidas de peso, onde o erotismo estava mais ou menos presente, mais como estratégia lúdica de renovação cultural do que como mono-obsessão de editor na andropausa: o seu era um mundo bem distante do de Hugh Heffner ou de Larry Flynt. E, ao contrário destes, Ginzburg pagou com a liberdade pessoal por esse arrojo.

Mas a decisão mais certeira que teve, como editor, e que garantiu a perpetuidade da sua produção, foi ter chamado Herb Lubalin para dirigir o grafismo, sucessivamente, das revistas Eros (1962), Fact: (1964-1967) e Avant Garde (1968-1971). Apesar da temática “subversiva” (com um Presidente adúltero e reincidente, o sexo era ainda assunto risqué na América de 1962), do inegável bom gosto e humor e, é certo, de algumas peças e textos brilhantes, o que resgata hoje todo este labor do baú das velharias sixties é um dos mais consistentes e inovadores trabalhos de design editorial na já de si rica história do grafismo de imprensa americano. Tendo em conta que a tradição ditava que um director artístico apenas se podia afirmar trabalhando para uma das grandes casas editoriais da Madison Avenue (como a Condé Nast), é espantoso como Lubalim conseguiu isso mesmo trabalhando para um editor condenado a uma pena de prisão pela justiça americana e que, no melhor dos casos, não era visto como mais do que um excêntrico diletante.

Prova A

Prova B

Lubalin era contemporâneo da geração que impusera o modernismo nas artes gráficas americanas desde o final da II Grande Guerra, com Paul Rand à cabeça, e também da vaga racionalista que os suiços impunham, por esses anos, a toda a prática visual na imprensa, elevando a grelha como instrumento sine qua non e uma frieza e contenção de meios que rejeitavam o recurso ao vernáculo gráfico e à intuição pessoal. Sem contudo prescindir deste culto da sã estrutura da página (Provas A e B), Lubalin optou por uma abordagem tipográfica lúdica, casuística, sensualista e, por vezes, chocante, preferindo a sintonia com o conteúdo do texto a compor do que com uma regra rígida e universal. Isso significava, obviamente, não se cingir à sacrossanta Helvetica e partir em busca da recuperação da tipografia historicista americana (em especial, as fontes de madeira dos jornais e cartazes do século XIX), desenhando ele mesmo, quando necessário, novas fontes para os projectos. Ainda hoje a fonte Avant Garde, criada para o logo da revista homónima (Prova C) é popular (e abusada), algo extraordinário se tivermos em conta que se tratou de uma recriação audaciosa (e no limite da legibilidade) da madrinha das fontes do modernismo, a Futura.

Prova C

Se a Eros procurava impor-se pelo seu acabamento hardback de luxo e o conteúdo glossy e erudito, e a Fact (publicada na ressaca do julgamento e condenação de Ginzburg) optava por um formato mais pequeno e clássico e uma maior economia de meios, revertendo o eixo gráfico para a grelha sólida e o excelente uso das serifadas (sobretudo no belíssimo logo), é na Avant Garde que a síntese do racionalismo europeu com o sensualismo americano atinge o cume. O seu formato quadrado permite spreads de uma beleza e um impacto quase cinematográficos, manifestando uma completa simbiose entre a fotografia ou a ilustração e a tipografia dos títulos e lides (cuja combinação e apuro extremo eram a marca de Lubalin) e, em geral, uma completa adequação à essência dos textos ou dos portfolios. O spread de abertura do artigo sobre as pinturas de Tom Wesselman no n.º 5 (Prova D) consegue criar um ambiente perfeito, forte, agressivo mas, ao mesmo tempo, delicado e contemplativo, tornando quase redundante qualquer texto sobre essas mesmas pinturas: o design é, aqui, a mensagem.

Prova D

Post scriptum: mais de 40 anos depois de os Correios americanos acusarem Ralph Ginzburg de os usar para divulgar material “obsceno” (the Post giveth, the Post taketh away), um eco distante desse acontecimento deu-se agora (com a mistura voluntária de uma leitura irónica que decidi juntar ao caso). Os exemplares dos 4 e únicos números que foram publicados da Eros, que tão laboriosa e pacientemente licitei e comprei no eBay, ficaram retidos para inspecção alfandegária durante umas semanas. Mas não se preocupe, senhor Ginzburg: estão já em boas mãos.

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