Odores a tinta de Havana

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Para além do facto de ser belíssimo e, certamente, um dos melhores posters feitos para filmes de Alfred Hitchcock, o impacto sensorial que as suas tintas serigráficas me provocaram ontem, ao desvelar o meu exemplar de Frenesi (Frenzy), de António Perez Gonzales, (conhecido como Ñiko), acrescentou mais uma camada de admiração pelo objecto que me chegou às mãos. Quis acreditar que aquele odor fabuloso era uma síntese de todos os odores de Havana acumulados nessa semana de 1977 em que as várias cores do poster foram sendo aplicadas e deixadas a secar (pigmentos, gomas, frutas, tabaco, maresia, rum, suor), aos quais se juntaram os odores dessa inevitável Florida (de onde o poster me foi enviado), um cocktail poderoso que, 30 anos depois, me chegou às narinas. (Será possível apreciar esteticamente um poster pelo olfacto?)

Trata-se do meu primeiro exemplar genuíno desse imenso arquivo gráfico de Cuba, a Cuba pós 1959, pelo qual começo verdadeiramente a apaixonar-me. Cuba foi sempre diferente em tudo, e a sua produção gráfica não foi excepção. Quando todos os países sob influência comunista abraçaram o “realismo socialista” de pacotilha, os cubanos viraram-se para a América e para as novas vagas na Europa de então (tal como os Polacos e os Checos, que nunca foram na cartilha da propaganda gráfica soviética) e apuraram uma espécie de artePop politicamente articulada, plena de humor e malícia. Sujeitos a um torpe bloqueio económico desde 1960 (talvez o MAIOR erro estratégico dos EUA para com a nova nação, empurrando-a para o rublo soviético), tornaram a serigrafia (método artesanal sem os custos de produção do offset) num dos suportes técnicos dessa escola gráfica, e adaptaram esta a esse meio de produção, sobretudo nos posters de cinema produzidos pelo Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica, ICAIC: redução dos meios pictóricos (manchas de cor plana, linha definida, paletas reduzidas), sem perda – com ganho até – de uma grama de intensidade e significado. Mas também no offset os cubanos mostraram o seu brilhantismo, como no notável Che Radiante (1969) de Alfredo Rostgaard (Prova A). A subversiva apropriação e sobreposição das imagens do Che e de Cristo é um dos triunfos da propaganda gráfica cubana, sendo que a imagem stencilada do rosto de Che (feita a partir da famosa foto de Alberto Korda) será possivelmente o mais ubíquo ícone da segunda metade do século XX.

Prova A
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Há muito pouca bibliografia sobre este soberbo labor (um clássico de 1970, Art of the Revolution de Dugald Stermer, com prefácio de Susan Sontag, é já um livro valiosíssimo e fora de mercado), mas a última referência é Revolución! Cuban Poster Art de Lincoln Cushing, um arquivista de Berkeley ao qual falta, talvez, a paixão do esteta no seu informadíssimo texto.

Em Portugal – que nunca cultivou nada de semelhante, e hoje tem vergonha de expor posters nos seus museus posh (a não ser que o Comendador Berardo comece a coleccionar, o que, dado o seu gosto pela Pop, até nem seria muito difícil…) – que eu saiba, nunca se exibiu nada da escola cubana, nem mesmo ao abrigo da Festa do Avante!.

P.S.: A imagem que encima este post não é exactamente a do poster de Ñiko, tratando-se antes da amostra (a melhor que pude encontrar, pois não fotografei o meu poster) de uma “reprodução melhorada” do original (leia-se, gato por lebre…), fiel em tudo menos num detalhe: uma deliciosa gralha que acrescenta um S ao nome de Hitchcock (cf. Revolución!, p. 108).

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