Che, ícone maleável

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Nos 40 anos da morte de Che Guevara, e no seguimento de um post aqui atrás sobre a permanência da força das imagens de Max Ernst (e de um outro em que mostrei a minha própria recriação da célebre imagem), deparei no catálogo de cartazes da OSPAAAL (edição trilingue da revista cubana Tricontinental e da editora italiana Il Papiro) com o estranhíssimo cartaz de Rafael Morante que encima este post. Trata-se de uma criação de 1982, logo afastada no tempo da febre gráfica que se seguiu à morte do argentino na selva boliviana em 1967. E esse afastamento é de tal ordem que Morante consegue um feito extraordinário: de Che, ou da imagem dele, temos já apenas o essencial, uma silhueta, nada mais, nem o seu nome de três letras. É, no sentido da representação, talvez o mais radical poster de propaganda que vi até hoje, talvez até o mais icónico, no sentido cristão ortodoxo do termo: o representado, a sua aparência física, desaparece e apenas um sinal dele chega até nós, um sinal suficiente para despertar os mecanismos de reconhecimento. Como se a transcendência dessa forma humana fosse traída pelo realismo da sua representação.

Che Guevara foi, desde as horas em que o seu cadáver foi exposto ao público num barracão a poucos metros do local do seu fuzilamento, um ícone que escapou como um foguete aos que o quiseram controlar, a começar pelos pouco hábeis homens da Secreta americana, que mal podiam saber que, tal como o fotógrafo Korda meses antes, estavam a concorrer para a materialização de um dos maiores mitos pop do século da Pop. As fotos do corpo semi-nu estendido, pensadas como forma de humilhação, tiveram um inesperado e surpreendente resultado inverso. Os índios que se benziam ao passarem pelo defunto exposto deviam ter-lhes dado o sinal de que algo não estava bem e de que essa temida transmutação simbólica se operara já. Apenas dois anos depois, Alfredo Rostgaard (Prova A) assinaria a imagem que provava essa apropriação subversiva: por ínvios caminhos, Cristo pegara numa AK-47 e era agora um dos soldados da propaganda Cubana.

Prova A
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O que torna o poster de Morante tão interessante é, mais uma vez, o recurso inesperado às frottages e rugosas texturas à-la-Ernst, com uma soberba inversão de sentido: se, nos quadros do pintor alemão, elas representavam a erosão de um mundo civilizado face às forças brutais do irracional, aqui elas são usadas como a marca do renascimento e de uma pujança natural, ainda que decididamente – quase incontidamente – mística. Que outra figura da esfera comunista, durante ou após a Guerra Fria, teria associados, numa imagem alusiva a si, o Surrealismo e o misticismo cristão?

(Che Guevara de Rafael Morante, poster raro hoje em dia, vem documentado na página 195 do Catálogo dos Posters da OSPAAAL).

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