Redon revisitado

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A criação do cartaz para a próxima edição do Fórum Fantástico de Lisboa, um encontro anual e internacional de autores e editores, levou-me a revisitar uma singular imagem de Odilon Redon, a primeira da série de 6 litografias entitulada À Edgar Allan Poe (1882, Prova A). Uma revisita feita já do outro lado da fronteira tecnológica: em 1995, na capa (Prova B) da revista Íncubo (Faculdade de Letras da Univ. do Porto), usei esse Olho-Balão a partir de fotocópias, recortadas e compostas com películas de cor translúcidas da Pantone e fontes decalcáveis da Letraset.

Prova A
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Prova B
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Na altura, fascinava-me essa época da História da Arte em que, após o Impressionismo, se tentou procurar coisas que os olhos pudessem ver “dentro” (a psique, o sonho), “atrás” (a redescoberta das civilazções pré-clássicas e do paganismo) ou em “cima” (misticismo), num processo de racionalização e/ou poetização do discurso artístico (e nem sempre estes polos se rejeitaram mutuamente) que culminou nos sucessivos arranques do Modernismo entre finais de Oitocentos e a década de 20 do século seguinte. O Simbolismo, a primeira grande resposta ao império dos estímulos visuais dos impressionistas, albergou alguns dos mais talentosos e provocadores criadores de imagens, e das suas ramificações muito lucrou a arte gráfica, sobretudo com a progressiva estilização do desenho sob os parâmetros vegetalistas que, de Gauguin, chegou até às várias Artes Novas europeias e americanas. Odilon Redon foi um desses bizarros criadores que, em plena aurora da Belle Époque, desenhava monstros e quimeras e procurava nas religiões e civilizações desaparecidas a inspiração que o catolicismo falhava em dar (tal como Huysmans, o autor de À Rebours, a bíblia dos dandies simbolistas e decadentistas, acabaria, contudo, por renegar esses “devaneios” e converter-se).

Não posso dizer que hoje nutra a mesma admiração pelo trabalho de Redon, que – apesar de único e muito influenciador, depois, de algum Surrealismo – creio ser muito irregular graficamente e quase doentiamente íntimo: ele era claramente um homem à procura de algo para além do desenho, que uma vida finalmente feliz fez subitamente ganhar cor, passando das litografias “mórbidas” aos pastéis plenos de cor e de uma luz toda ela Impressionista. Continuo, porém, a achar este seu Olho-Balão uma soberba imagem, um verdadeiro achado icónico ou, em termos pós-modernos, a verdadeira marca para toda uma era, e que, curiosamente, se presta a uma estilização e utilização variada (por exemplo, nos stencils de rua) que até agora não mereceu.

Este cartaz é, pois, um resquício de um fascínio por esta hipnótica imagem de Redon, com a mistura de outro artista que aprendi a admirar mais tarde, Gustave Doré. Mas Doré, se calhar, entra aqui pela influência que folhear o 100 Posters of Tadanori Yokoo (Prova C) teve em mim quando comecei a fazê-lo. Yokoo, também ele um “convertido” ao misticismo após um acidente, foi um dos mais geniais “apropriadores” de Doré, usando e trabalhando as gravuras deste para conferir gravitas à sua visão Pop. Assim, de um Redon místico de fotocópia, cola 3M e películas adesivas Pantone à coabitação com um Doré no Photoshop, num divertimento à luz da magia de Tadanori Yokoo.

Prova C
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Filed under Da casa, Eventos, Soltas

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