João Abel Manta e o JL

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O Jornal de Letras (Artes & Ideias) é, hoje, e no que à sua posição no mercado da imprensa cultural diz respeito, um produto que levanta mais questões do que propõe respostas. Trata-se do único jornal exclusivamente dedicado aos temas culturais, com preponderância para a literatura e a edição (e, aqui, volta a ser único), e é editado por um dos gigantes da imprensa portuguesa, a Edimpresa. Isto poderia significar que, dada a recente quebra da oferta de suplementos por jornais da concorrência (DN e Público), a Edimpresa se lançasse numa renovação e investimento neste título de forma a reforçar o seu estatuto de único jornal cultural do país, fazendo com que ele se tornasse aos poucos, para o mundo das letras e das artes, o que o Blitz (como outrora, o Se7e) é para o mundo da música. E, contudo, nada se passou no JL que nos leve a pensar que um tal investimento foi feito ou sequer pensado.

É, sobretudo, à forma do jornal que me refiro, ao seu layout (sendo que, num jornal, a forma é invariavelmente uma afirmação do conteúdo), e a uma geral falta de arrojo e visão gráfica de que o JL padece há muito. E essa tibieza é tão mais grave se nos depararmos com os primeiros exemplares do jornal, cujo número 1 foi lançado na primeira quinzena de Março de 1981. Descobri isso através do catálogo sobre a obra gráfica de João Abel Manta (referido no post anterior), onde as espantosas ilustrações que ele fez para os primeiros números do JL me atraíram à busca dessas primeiras cópias, que a fortuna quis que eu encontrasse pouco depois.

O que essas edições de 1981 denotam é, antes de mais, o prestígio de JAM por esses anos, no rescaldo da sua brilhante obra gráfica desde finais dos anos de 1960, sobretudo no Diário de Notícias, e da explosão de criatividade que coincidiu com os anos de brasa de 1974-1975, onde os seus cartazes ascenderam a um estatuto icónico inigualável em Portugal. O consenso à sua volta (definitivo a partir das Caricaturas Portuguesas, um dos 10 livros portugueses do século XX e, talvez, a mais perfeita súmula do Estado Novo) fez com que, na suas mãos – as de um ilustrador/desenhador mais do que um gráfico com forte pendor para as questões de grelha e da tipografia editorial – caísse todo o projecto gráfico de um novo jornal: de JAM não eram apenas as ilustrações para os textos de fundo, como seu era o logotipo (tão simples e forte, e tão infinitamente melhor do que o que o substituiu!) e, em geral, a “orientação artística” do projecto. Tipograficamente, o jornal era extremamente comedido (fazendo lembrar o layout d’O Jornal), mas numa contenção inteligente e estudada para dar o maior impacto ao input gráfico de JAM, um verdadeiro luxo para os leitores desprevenidos. A falta de espaço “para respirar”, essa pausa de branco a cujo luxo as revistas culturais se podem dar, era compensada pelas imagens de JAM, sendo esse o seu verdadeiro papel no esquema geral: permitir uma outra leitura, um outro percurso.

Prova A
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Ainda hoje, mais de 25 anos após a saída das rotativas, estas folhas de papel amarelecido vibram com a inteligência e a suprema e serena confiança que emanam dos desenhos e colagens de JAM (Provas A e B), e é óbvio perceber o impacto que o jornal deve ter tido numa altura crucial da cultura portuguesa, no arranque desse boom dos anos 80. A minha dúvida é acerca do JL de agora, cuja forma gráfica não trai a mais pequena chama de entusiasmo pela produção cultural e que, apesar da cor em todas as suas folhas, não causará certamente o mesmo impacto a um qualquer incauto daqui a 25 anos ou mais.

Prova B
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