1968 (I)

Em 1968, uma exposição itinerante levou a algumas cidades americanas a nata do que viria a ser conhecida como a fase psicadélica do poster na coste Oeste, mais propriamente de São Francisco, entre 1966 e 1968. O poster dessa mostra, com o título The San Francisco Poster, foi concebido pelo mais brilhante artista dessa vaga, Victor Moscoso (Coruña, 1936), um rebelde da elite artística americana, que depois de estudar com Joseph Albers em Yale foi para a Califórnia e, em pouco tempo, se tornou co-fundador da Zap Comix com Robert Crumb e um músico a tentar romper na cena. Se o seu papel na história dos comics é indelével (sendo, portanto, com Crumb, o pai do underground americano), na música o seu papel seria mais lateral mas igualmente marcante: os cartazes que concebeu para a sala de concertos Matrix, em São Francisco, são hoje, mais do que memorabilia de classe da história do rock, ícones de uma era.
Recuperando imagens de arquivo (o mesmo vernáculo gráfico a que os designers do Push Pin Studio por essa altura recorriam) e desenhando a tipografia de forma a incorporá-la organicamente, e no limite da legibilidade, no conjunto visual, o trabalho de Moscoso é notável sobretudo pelo uso das cores directas, que nos seus cartazes se apresentam como verdadeiros tratados de impressão. Concebidos para se adaptarem às mutações de luz nos diferentes espaços onde poderiam ser expostos (e em perfeita sintonia com um “brinquedo” muito em voga então, a color wheel eléctrica, que faz estes cartazes saltar verdadeiramente perante os olhos do observador), os posters de Moscoso (reunidos numa série que ficou conhecida como Neon Rose, pelo seu uso permanente de um rosa eléctrico), e em particular aqueles em que usa uma paleta mais elementar (com um amarelo intenso), como o da sessão de poesia no Nourse Auditorium ou o cartaz promocional para a Steve Miller Band (Prova A, respectivamente), são uma festa para a visão, meticulosamente encenada e executada. Possuo um exemplar deste pequeno grupo da Neon Rose em que o amarelo é dominante ou usado com mais impacto, o do cartaz que Moscoso concebeu para a empresa de outro hispânico famoso nos anos 60, Pablo Ferro (Prova B), e posso atestar da delícia visual que eles encerram.

Prova A

Prova B

Em 1968, e por decisão própria, o período de actividade frenética de Moscoso tinha já acabado, talvez em consequência da extrema pressão dos prazos e da gradual complexidade de produção que os seus posters exigiam. Por momentos, o artista pode voltar a sentar-se a sua cadeira de jardim e regressar aos utensílios da terra, tal como o retratou Baron Wolman para a Rolling Stone (em foto reproduzida no n.º 5 da revista Lid, 2007 – Prova C). Esse cartaz que fecha o período fica, assim, como a sua mais bela obra (e é possível ver nele sementes do que, por exemplo, Tadanori Yokoo faria 10 anos mais tarde). 1968 era decididamente muito mais soalheiro na Califórnia do que em Chicago ou em Paris.

Prova C

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Filed under 1968, Cartazes, Soltas

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