Happy-with-so-little: Richard Bernstein e a Interview


Andy Warhol, Steven Heller, Richard Bernstein. Três nomes que se ligaram na criação de uma das revistas mais influentes para a mitologia da eterna noite de glamour, dessa intensa cocaine night nova-iorquina da segunda metade dos anos 70 e inícios de 80. Desses nomes, apenas o primeiro dirá algo a um leitor generalista. Alguém com conhecimentos de história do design gráfico saberá que Heller é director de arte no The New York Times Book Review e “o” historiador e ensaísta de referência no que toca às artes gráficas na América. De Bernstein, contudo, apenas a memória dos poucos sobreviventes dessas noites loucas de Nova Iorque poderá deixar testemunho. Falecido em 2002, no local onde vivera durante 30 anos – o Chelsea Hotel, onde tantos boémios encontraram refúgio mais ou menos passageiro – foi a personificação da sofisticação e excentricidade que se associava ao círculo de colaboradores de Andy Warhol.
Depois da explosão e da escalada ao cume da fama no mundo da arte contemporânea nos anos 60, Andy Warhol tornou-se sobretudo um gestor de projectos alternativos à sua produção artística (filmes com Paul Morrisey e as suas “superstars”, música com os Velvet Underground e Nico). A Interview nasceu nesse contexto, mas terá sofrido da falta de entusiasmo do seu mentor. Num texto de 2004 que recorda esses dias, Steven Heller afirma que Warhol “raramente sujava as mãos com tinta na gráfica [e] controlava a Interview a uma distância segura.” A revista começa aos tropeções em 1969, dedicada em exclusivo ao cinema, e cabe a Heller uma tentativa de limpeza do layout em 1971. Com experiência na imprensa underground , ele não era ainda o reputado art director que seria anos mais tarde. O resultado é fraco, como confessa no mesmo texto: “antes de se tornar no artista mais importante da América, [Warhol] era já, afinal de contas, um designer gráfico e ilustrador completo, e devia ter sido o primeiro a concluir que a minha [conjugação de fontes] para o cabeçalho da revista era uma das mais idiotas jamais produzidas”.(Prova A)

Prova A

Mudado o rumo editorial em 1972 para o culto das celebridades cool da era (muitas delas entrevistadas quase de improviso por amigos ou colaboradores de Warhol: já não era o que se dizia mas como e com que pose), tratou-se de impor um novo estilo à capa, fazendo-se cair a tipografia retro dos números anteriores e assumindo-se a caligrafia de Warhol. A mestria de Bernstein com o aerógrafo e os pastéis fazem o resto. Monumentalizando os retratados através de retoques mais ou menos subtis, as capas produzidas por si durante o resto da década e no início dos anos 80 marcaram “uma abordagem única ao design de capas de revista”, dixit o próprio Steven Heller. Num volume publicado em meados dos anos 80, reunindo as reproduções destas capas, Paloma Picasso refere uma autêntica metamorfose de “superstars em megastars”. Bernstein era o porteiro do Olimpo nesses anos: os rostos de actores, actrizes, modelos e demais celebridades eram elevados a uma supra-realidade que sintetizava a estética de Hollywood e das revistas de moda com as aportações da propaganda política do século.
Ainda mais importante, porém, no que respeitava à capa da Interview, foi a solução de rodar o seu eixo para a horizontalidade (mantendo-se o interior vertical), incorporando a contracapa numa continuação do motivo da capa através de uma dobra, muitas vezes em efeito de surpresa (uma modelo sorridente na capa, acaba por ser mais do que isso ao desdobrarmos o plano: é uma modelo a sorrir para a câmara de Warhol; Dali olha-nos com intensidade, mas a sua mão direita, na contracapa, revela a justificação para essa intensidade: um retrato de Gala – Prova B).

Prova B

A capa em que a modelo Naomi Sims aparece fotografada por um Warhol de barrete natalício (Dezembro de 1972) foi votada em 24.º lugar na lista das 40 melhores capas de revistas promovida pela Associação Americana de Editores de Revistas durante a edição de 2005 da Conferência de Revistas Americanas. (Prova C)

Prova C

O brilho das capas de Bernstein é ainda maior pelo facto de, no interior, o brilhantismo tipográfico não abundar. O layout é minimalista, e recorre-se a fontes de máquina de escrever, reforçando o carácter quase improvisado e ao-correr-do-tempo do seu conteúdo. A fotografia é todo-poderosa, e em foto-reportagens das discotecas e seus famosos frequentadores, ou em portfolios das últimas produções da Factory, há apenas espaço para legendas: who’s who and with whom.
Todo este labor passou, contudo, despercebido ao público geral, pois era mais fácil acreditar que era de Warhol (de quem mais poderia ser?) todo o grafismo da sua revista. Warholiano fiel e grato cortesão da Factory, Bernstein nunca se rebelou contra essa circunstância, e Warhol nunca quis desiludir os seus admiradores. Mas nesses anos de arranque, o coração do projecto esteve sempre nas mãos e nos olhos (e no aerógrafo) de Bernstein, funcionando como verdadeiro art director e encomendando portfolios fotográficos que se tornaram famosos. Berry Berenson (autora da foto da capa “natalícia”), jovem fotógrafa de Nova Iorque, terá cruzado o caminho de Bernstein, e de novo o coração fez das suas: assumido bissexual, Bernstein apaixonou-se por ela na mesma altura em que a enviou a Los Angeles para que fotografasse Anthony Perkins, apenas para saber, tempos depois, que Berry seria em breve Mrs. Perkins (muitos anos mais tarde Bernstein receberia a notícia de que a sua amiga, e viúva do actor, morrera num dos aviões sequestrados a 11 de Setembro de 2001).
Bernstein não trabalhava já na Interview quando, no início dos anos 90, esta se transformou numa marca, ao nível da Vanity Fair, e se internacionalizou, tornando-se num negócio de milhões. Milhões não era uma palavra do vocabulário deste “magnata social”, que prezava mais as relações pessoais do que as profissionais e que resumia a sua situação financeira em perene desequilíbrio com a frase: another happy-with-so-little story.

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Filed under Capas, Imprensa, Revistas

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