Just enough is more: Milton Glaser


A capa em cima é da última re-edição em paperback (pela Black Swan em 1985, a mais barata edição disponível de um título cada vez mais raro) deste pequeno e muito interessante romance de Harry Kressing. A ilustração nesta capa é a mesma usada na primeira edição do título, 20 anos antes, pela Jonathan Cape. Trata-se, creio, de uma discreta prova da força serenamente persuasiva do trabalho de Milton Glaser: passados vinte anos, a sua representação a aguarela e tinta-da-china do misterioso cozinheiro Conrad mantinha-se tão fresca e lúcida como na primeira vez. Na edição americana apenas se mudou a cor do fundo (Prova A, na edição paperback da Random House de 1966 – o único livro, dos que se mostram neste post, que não possuo), mas, mais uma vez, o conceito se mantém transparente sem que se perca nada do impacto visual (ainda que creia que a versão com o fundo rosa é a mais conseguida, e, de todas cuja imagem pude ver, a da Jonathan Cape é a melhor). No seu melhor, as ilustrações de Glaser eram sucintas e eloquentes, sem nunca deixarem de dar esse visual candy que uma capa tem de dar, e assim, dos anos 50 aos 80, um desenho seu podia ser usado numa luxuosa sobrecapa de primeira edição ou numa capa de modesto paperback de supermercado sem perder um grama de eficácia: os autores podiam ter caído no esquecimento e as chancelas não darem boas referências ou nenhumas, mas lá estava a marca que dizia “este livro vale a pena” (repare-se que nem mesmo o acrescento de um blurb na capa da Swan destrói a composição imposta pelo desenho).

(Prova A)

Todo o espaço é pouquíssimo para abordar de uma vez o trabalho de Glaser, cuja produção prolífica – tanto a solo como com o colectivo Push Pin – é lendária (veja-se, no filme feito por Hillman Curtis para a Adobe, o artista no seu estúdio mostrando o “armazém” com as amostras desse labor, entre uns milhares de posters e umas centenas de livros, alguns deles absolutas raridades já). Servirão estes três exemplos da minha modesta colecção apenas para mostrar como a qualidade intrínseca e a solidez visual podem permanecer inalteradas e perfeitamente válidas apesar da passagem dos anos e das modas.

Apesar de ter saído de um background radicalmente modernista (a Nova Iorque dos anos 40/50), Glaser sempre lutou conscientemente contra a rigidez programática do modernismo, em especial contra uma das suas máximas: less is more. Numa palestra em Londres em 2001, com o título de “10 things I’ have learned”, Glaser propôs um motto alternativo:

“Being a child of modernism I have heard this mantra all my life. Less is more. One morning upon awakening I realised that it was total nonsense, it is an absurd proposition and also fairly meaningless. But it sounds great because it contains within it a paradox that is resistant to understanding. But it simply does not obtain when you think about the visual of the history of the world. If you look at a Persian rug, you cannot say that less is more because you realise that every part of that rug, every change of colour, every shift in form is absolutely essential for its aesthetic success. You cannot prove to me that a solid blue rug is in any way superior. That also goes for the work of Gaudi, Persian miniatures, art nouveau and everything else. However, I have an alternative to the proposition that I believe is more appropriate. ‘Just enough is more.'”

Creio que a sua longevidade deriva desse constante equilíbrio entre a propensão para pôr, mostrar e encher o olho e a sábia subtracção que deixa, precisamente, apenas o suficiente, sendo que neste está, sempre, um factor de prazer e sedução visual inegável, e foi essa falta do prazer como programa que Glaser apontou como uma das lacunas do modernismo mais radical (o qual, como sabemos, teve sempre difíceis relações com aquilo a que chamou a arte comercial).

Nas capas, Glaser sempre preferiu o jogo entre uma tipografia muito discreta (Seymour Chwast, o seu mais famoso colega na Push Pin, era adepto da exuberância polimorfa que a mistura dos tipos americanos tradicionais permitia), serifada em geral e composta sem leadings ou trackings excessivos, e uma ilustração com a qual aquela se alinharia: uma correcta leitura do título e nome do autor, muitas vezes na mesma fonte e corpo, estava acima de tudo, sem nunca retirar o prazer de olhar os seus desenhos. Um caso disso é a capa de A seizure of limericks do grande poeta americano Conrad Aiken, na edição de 1964 da Holt, Rinehart & Winston (Prova B). Os livros infantis e os livros de poemas sempre permitiram a Glaser um uso mais lúdico das suas habilidades, mas sem nunca abdicar do rigor tipográfico (no auge da estética flower power, entre 1967 e meados dos anos 70, ter-se-á dado a essas liberdades, e com grande sucesso diga-se). O jogo aqui é puramente visual, com o desenho na contra-capa criando uma surpresa e acentuando o tom picante do género poético em questão. No interior (Prova C), Glaser desenhou pequenos apontamentos que não substituem ou sequer ilustram o texto, podendo dizer-se que o abordam da mesma forma atrevida e sensualista que o conteúdo dos versos de Aiken sugere.

(Prova B)


(Prova C)

Novo salto no tempo, mas a mesma solidez tipográfica e qualidade de desenho, e sobretudo o mesmo sábio uso dos espaços em branco ou dos vazios na capa de uma das primeiras peças de David Mamet, A life in the theatre, numa edição da Grove de 1977 (Prova D). A separação entre as personae cénicas e reais dos dois únicos personagens é dada de forma extramente simples e eficaz, e as qualidades de Glaser como desenhador permitem-lhe aqui fugir um pouco ao seu habitual registo solar e sereno e acentuar o lado algo inquietante do mind game no texto com máscaras que são tudo menos reconfortantes. E que difícil é procurar detalhes que possam datar estas capas quando aos olhos tanto prazer é dado…

(Prova D)

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