Duas capas da Cape


Quando foi publicado o generoso volume Jonathan Cape Publisher (Michael Williams, Cape, Londres, 1971), a editora que ostentava o nome do seu fundador era a imagem de prestígio na edição hardback inglesa, sendo mesmo, por aqueles anos – muito por força do trabalho do editor Tom Maschler durante a década precedente – a referência do mercado, graças a sucessos estrondosos como a série de livros de Ian Fleming e ao alto nível literário de algumas das suas apostas. Nesse volume, os anos 60 são relatados com um misto de incipiente preocupação com a primeira onda de fusões entre os grupos editoriais e de incontido orgulho face a um mercado em que a procura intensiva se encaixava numa oferta plena de liberdade criativa e capacidade financeira. O governo trabalhista de Harold Wilson (1964-1970) soubera injectar na sociedade um sentimento de optimismo sem precedentes, e os agentes culturais navegavam em águas estivais e empurrados por um vento progressista que parecia imparável. Neste contexto altamente flexível, o risco nas apostas gráficas era visto com benevolência, e a rigidez corporativa das funções no processo editorial tendia a diluir-se, um reflexo da ascensão da working class aos lugares de decisão criativa.

Era precisamente dos primeiros sinais dessa ascensão, ainda que sob uma lente distorcida, que tratava o explosivo primeiro romance de John Fowles, The Collector, de 1963, em que a Cape apostara por insistência de Maschler. Talvez este (ainda mais novo do que Fowles) pudesse ver nesse relato a duas vozes de um rapto e um homicídio o que teria escapado a editores mais velhos: que as palavras do empregado bancário Frederick Clegg, um desses jovens upwardly moving da nova Inglaterra (mas que apenas “ascende” ao ganhar a Lotaria, e não possui nada do charme que em breve se associaria aos jovens rockers e mods da swinging London), eram proféticas e tinham a força de uma bomba com retardador, sendo que essa promessa de violência nelas contida seria palpável 5 anos mais tarde. Clegg é um caçador e coleccionador de borboletas: apenas isso o caracteriza, pois mais nenhum laço social ou cultural o liga ao seu tempo. O seu é um mundo de objectos mortos, cuidadosamente dispostos, e quando a sua sede de beleza recai sobre uma rapariga da upper class, é com a disposição mental desse hobby que ele tratará esse espécime vivo, complexo e altamente inteligente, que o fascina mas que, inevitavelmente, o despreza. O pouco elaborado ódio de classe de Clegg é ironicamente sublinhado por essa obssessão coleccionista tão típica da gentry.

A capa para este livro revestia-se, pois, de alguns cuidados nessa Inglaterra ainda muito puritana e classista. As conotações sexuais do livro seriam obviamente complicadas de explorar, e as insinuações do choque de classes no discurso de Clegg seriam também explosivas (estava ainda para chegar a campanha de imprensa que perguntava às mães da classe média-alta se aceitariam que as suas filhas namorassem com algum dos rufias working class dos Rolling Stones – don’t play with me, ’cause you’re playin’ with fire, advertiriam eles em 1965 – e ainda faltavam 5 anos para o filme If… de Lindsay Anderson). Tom Adams, a quem foi encomendada a capa, optou, diríamos, pelo óbvio: uma borboleta espetada numa base de papel envelhecido, uma velha chave ferrugenta que invoca a clausura imposta à jovem e uma madeixa do cabelo loiro desta. Os objectos estão dispostos sem uma aparente ordem ou um simbolismo secreto, e o tom e a factura evocam a “neutralidade” das ilustrações de antigos livros de género. Até a tipografia remete para a cuidadosa caligrafia das “fichas” de um coleccionador.

Prova A

A borboleta, que se esperaria estar no centro da composição e bem mais imponente, não é sequer usada no limite das suas possibilidades iconográficas (e, como se sabe, desde então – e ao longo das diversas reedições, traduções e adaptações do livro – foi usada até à exaustão para dar a nota de beleza meio tenebrosa que associamos a thrillers que envolvam stalkers e assassinos em série com uma obsessão estética, culminando na campanha gráfica para o filme Silence of the Lambs em 1992, por sua vez fonte também de inúmeros epígonos). É no tour de force da madeixa (os cabelos prolongam-se para a lombada, tapando o título, Prova A) que se vê que Adams realmente entendeu a natureza da obsessão da Clegg: alguma da melhor prosa de Fowles nos primeiros parágrafos está na descrição meticulosa dessa “palidez” dos cabelos loiros da rapariga e do seu contacto com o pescoço, um ponto central na fixação do coleccionador e o símbolo da sublimação sexual com que ele conduzirá toda a doentia relação com a sua vítima. Nessa curva dinâmica e juvenil (quase um ponto de interrogação) cortada logo acima do pequeno laço vermelho reside toda a tensão muda desta capa, que, não revelando nada, nos envolve num ambiente serena e requintadamente malsão, algo que Adams desenvolveria posteriormente de forma notável em algumas capas dos livros de Agatha Christie ou mesmo no romance seguinte de Fowles, The Magus.

Já aqui escrevi sobre o trabalho de Richard Chopping para as capas dos livros da série James Bond. Por alturas da ascensão da fama da série, um novo autor procurava, dentro do género do romance de espionagem, uma alternativa à fórmula da Fleming. Len Deighton era o típico “novo homem” na Londres dos inícios de 1960: cosmopolita (fizera vida e carreira nos EUA), polivalente (fora designer gráfico e ilustrador, cabendo-lhe a 1ª capa inglesa de On the Road de Jack Kerouac) e assumindo as suas raízes de cockney e fura-vidas, ele encarnava, de certa forma, uma via mais cínica e realista para este filão literário que procurava explorar a paranóia com o secretismo de estado no auge da Guerra Fria e do xadrez de espionagem entre Londres e Berlim. Ao contrário de James Bond, Harry Palmer é um mero funcionário burocrático do MI6, um homem de secretária que pode também servir como agente de campo sobretudo quando faltam as alternativas. Não é um sedutor nato de porte aristocrático como Bond, sendo antes um típico apreciador das birds (secretárias do MI6, na maioria), cujas formas observa, de cigarro na boca, enquanto espera por um documento ou uma resposta de um superior. Vive só num pequeno apartamento de Londres e é um tipo de uma vulgaridade quase anónima, com o charme cockney do “desenrascado” (não por acaso a primeira cena do filme baseado no primeiro livro da série, The Ipcress File, nos mostra Michael Caine – adoptando o visual do próprio autor (Prova A ), coisa que os produtores dos filmes de Bond não proporcionaram a Fleming – levantando-se de pijama da sua cama de solteiro e preparando um ovo estrelado na cozinha).

Prova B

Era, em suma, e num momento de aperto, alguém capaz de preparar uma mala de forma tão atabalhoada como a que Raymond Hawkey colocou na capa de Funeral in Berlin de 1964. Hawkey fora colega de Deighton na St. Martin’s de Londres e a sintonia entre ambos é notória. Há aqui todo um programa estético, que, em vez das requintadas bizarrias de Chopping/Fleming, propõe a brutalidade física e a urgência do mundo de um espião menor. Não há gadgets à vista, e, por entre os preservativos, a pasta de dentes e um paperback de frases em alemão e russo, apenas se vislumbra um Colt 38 (que pode até nem vir a ser usado). Toda a série de hardbacks da Cape segue o mesmo conceito, com excelentes fotos a preto-e-branco dos ossos e ferramentas do ofício de Palmer (Prova C – fotos de capas de livros que não possuo). O interior dos livros era também trabalhado de forma a criar uma extensão gráfica ou semântica das capas e dos títulos (Prova D).

Prova C

Prova D

Na passagem para os paperbacks (publicados, como não, pela Penguin), Hawkey manteve os altos padrões gráficos, jogando, desta vez, com fotos de ponto “puxado” de Caine/Palmer e bandas diagonais em cores planas (da contemplação estética das capas duras para o imediatismo gráfico da imprensa nos livros de bolso), fazendo desta série de romances a prova de uma raríssima e muito feliz parceria autor/designer (Prova E – fotos retiradas daqui)

Prova E

1 Comment

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One response to “Duas capas da Cape

  1. Tommy Beresford

    A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados…

    A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
    http://acasatorta.wordpress.com

    Cinema é Magia
    http://cinemagia.wordpress.com

    Um abraço.

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