Resgate do fogo

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Os textos que se seguem surgiram num blogue que abri com o intuito de reflectir um pouco, em termos mais genéricos, sobre os objectos gráficos que me atraem e, de forma mais particular, sobre a prática gráfica que o mercado me permite ir fazendo, com especial incidência nas capas de livros. Não os escrevi na dupla condição de designer e editor, mas essa condição quase antagónica subjazeu à criação de todas elas.

Não acredito que exista uma solução gráfica perfeita, cientificamente testada, para uma capa, tal como nunca a houve, em toda a História da Arte, para a concepção e realização de uma obra de arte: da Regra de Ouro aos ditames da Neue Tipographie, aquilo com que ficámos foram ferramentas que, num vácuo cultural académico, podem ser consideradas regras, mas quando sujeitas à contaminação do bulício da cultura popular, se transformam em hipóteses de escolha ou, se houver sorte, em instrumentos de decantação. E se essa tensão (a procura de um resultado gráfico sólido que se equilibre entre as referências visuais de eleição e os limites da encomenda) é sentida pelo designer, torna-se muito mais óbvia se a essa função se juntar a de editor; neste caso, os pólos entre os quais se equilibra o resultado final da capa têm latitudes muito mais vastas, que se extendem às expectativas comerciais e à exequibilidade financeira do projecto gráfico. Mas, quer se penda mais para um lado ou para o outro, creio que uma capa sólida deve ser um misto de resposta intelectual e emotiva ao contéudo de um texto, de diálogo e/ou provocação deliberada com o momento cultural e de referência a um devir histórico cultural em que a edição e a “aplicação” gráfica a esta foram pilares importantes, pelo menos, desde o século XV: se conseguirmos, nessa tripla lotaria, algo que se aguente, já teremos motivo de satisfação.

Não creio, sinceramente, que a estes três vértices se consiga juntar o que poderíamos chamar de adequação comercial: ninguém consegue prever a quota parte que uma capa com determinadas características gráficas terá na venda de um título, a não ser num contexto como, por exemplo, o que ficou chamado de “the big book look”, na América dos anos 60 e 70, em que o nome de um autor “de marca” em tipografia gigante bastava para garantir vendas. Pode-se optar por uma fórmula fixa que dê resultados com alguma permanência (como as capas de fundo amarelo e tipografia – e apenas tipografia – vermelha e preta da Gollancz, usadas dos anos 30 aos anos 70[!]), mas isso é retirar ao processo, precisamente, a sua componente de jogo e de risco (e quem, hoje, prefere, por exemplo, o Drowned World de J. G. Ballard da Gollancz ao Crystal World do mesmo autor e da Jonathan Cape, com o seu fabuloso cenário de Max Ernst, ambas edições de 1965?).

Na minha cena favorita de Fahrenheit 451, o capitão dos “bombeiros” que queimam livros tenta seduzir com a sua perversa lógica um Montag ainda confuso: os livros, segundo ele, são como agentes de uma infecção lenta e generalizada, que visa a acumulação de inutilidades de moda e a mistificação irracional, que se misturam em bibliotecas poeirentas e desafiam a ordem e simplicidade. Sempre achei esse discurso muito interessante, porque a sua sedução está em que não é de todo descartável (podemos rever nele algumas das nossas críticas mais ou menos secretas ao “estado” da edição), e porque, entre as suas linhas, sempre gostei de ler que a possibilidade de redenção dessa perda de identidade dos textos, dessa lenta regressão ao húmus vegetal e indistinto, está precisamente nas capas, assumidas como o rosto de um livro numa fase da sua vida. E é isso que uma capa, no fim de contas, é: um rosto que fixamos a um texto, mas também uma identidade que une personagens, história (e História), autor, editor, designer e leitores num todo, imune ao fogo do esquecimento. Ou assim o esperamos.

[ Este texto acaba de ser publicado no n.º 5 da Callema ]

callema21

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