Chance, de Jerzy Kosinski

chance

Título
Chance

Autor
Jerzy Kosinski

Edição
Livros de Areia Editores, 2007
190 x 130 mm, 136 páginas

Descrição
Ao olhar para esta capa, a bem mais de um ano de distância da altura da sua produção, creio que poderia ter acrescentado um elemento para a criação desta imagem, que procurei que representasse uma certa ideia de mediocridade cultural, tão precisamente associada por Kosinski à tele-dependência: um naperon (com motivos obviamente floridos) na base da jarra de flores, pendendo sobre a TV. De resto, o velho monitor (contemporâneo do tempo da narrativa, o início dos anos 1970), a jarra em flagrante destom e as flores garridas até ao limite da saturação cumpriram a missão a que os destinei. Mesmo os olhos nas flores (que complementam a falta dos ditos no rosto no monitor) não levam a capa para onde eu não a queria levar, ou seja, para a comicidade: a história de Chance, é, no fundo (e apesar de episódios muito cómicos), uma triste novela de mal-entendidos, a de um homem “impossível” no mundo moderno (um Adão virginal e impoluto pelas vagas da cultura e da sofisticação) e, tal como o herói de Admirável Mundo Novo de Huxley, destinado a uma progressiva perda dos seus já poucos restos de identidade.
A paleta foi retirada de um livro anterior (Em Busca do Livro de Areia de Rhys Hughes), uma gama muito limitada de ocres, beges e branco, à qual acrescentei o Magenta a 100%, um toque de absurdo (e algo preocupante) optimismo que limitei ao título (em Fournier, única fonte usada neste e noutros livros da LdA) e às pétalas (com um ligeiro reforço nos contornos do monitor). Todas as imagens são coloridas “artificialmente” no InDesign, o que me permite mantê-las dentro dos limites da paleta escolhida e dar-lhes um ar “velho” ou batido pelo tempo, para o que uma ligeira textura sobreposta em transparência (feita a partir de uma versão das imagens respectivas, contrastadas ao máximo e passadas a bitmap de linhas no Photoshop) contribui sobremaneira para definir e acentuar graficamente.

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Iconograficamente, seria difícil fugir à presença de um monitor de TV, objecto omnipresente na narrativa, e à sua conjugação com um motivo vegetal (anteriores capas que vi optaram, ocasionalmente, por uma ou outra via em exclusivo, entre a TV e o jardim, ainda que a maioria siga a da fusão). A capa da edição brasileira (da Ediouro, com um título, O Vidiota que, ainda que respeite uma expressão usada por uma das personagens secundárias da narrativa, me pareceu, na qualidade de tradutor do texto de Kosinski, alheia ao vácuo moral e cultural que Chance, o jardineiro, representa, e demasiado tendenciosa a priori para um leitor que pegue no livro pela primeira vez – Prova A, a 1.ª a contar da direita na fila inferior) opta até pela via televisiva ao extremo, criando um resultado mais abstracto. Uma terceira via tem optado, como é claro, pela associação ao filme de Hal Ashby e à imagem de Peter Sellers.

Prova A
beingthere1

Pela minha parte, procurei uma capa que misturasse uma certa dose de realismo com “cor” de época (os objectos da vida da personagem, o seu próprio monitor de TV no quarto) com algo de colagem absurda ou onirista que a tornasse intemporal e, porque não, encaixada na época em que esta edição foi feita. E se o texto de Kosinski ganhou de novo força durante o consulado de George W. Bush (leia-se o curioso texto de Carol Hamilton sobre o carácter “profético” deste livrinho, texto que também traduzi e que a Livros de Areia disponibiliza gratuitamente no seu site, aqui) sempre me pareceu que havia lugar nesta capa para as feições do (ainda) Presidente dos EUA. Tirando estes possivelmente criticáveis pretextos, o seu icónico sorriso inseguro e estranhamente infantil (e apenas o sorriso: os olhos são de outra fonte) era perfeito para uma aproximação física à personagem de Chance (que nunca é descrita na novela), um homem sem qualquer substância que chega, em cinco dias, às portas da vice-presidência da super-potência americana. Devo dizer que uma foto de Bush em particular me intrigou pela sua quase perfeita adequação a esta minha opção: está no site da NASA e mostra o Presidente recostado numa cadeira da Sala Oval, a ver o directo do lançamento do Discovery, com uma janela em fundo através da qual se vê… um jardim (Prova B). Por motivos de necessidade de arrumação de uma imagem mais compacta e híbrida num eixo vertical (e apenas na capa, sem extensão à contra-capa), abandonei esta via (e a questão dos direitos autorais sobre esta imagem não foi dispicienda também…).

Prova B
bush_launch_full

Para alguma surpresa minha, esta opção mereceu alguns sobrolhos franzidos em críticas (aliás, muito positivas) na imprensa escrita (Filipe d’Avillez, da Os Meus Livros, por exemplo, aqui; já Mário Santos, no Ipsilon, não fez qualquer referência a Bush, aqui) e na blogosfera (num texto de Nuno Galopim). Mais de um ano depois, agora que um novo ocupante da Sala Oval se prepara para entrar em cena, creio que a particularidade das feições de Bush nesta capa regredirá, com o andar do tempo, para o que ela evidencia aqui: um símbolo esbatido de um poder sem substância filosófica, um rosto e uma pose oficiais, e quase anónimos nessa condição, amarelecidos pelo tempo, e duplamente: o tempo que passou sobre este velho monitor de TV (que poderia ter estado no quarto de um jardineiro de uma qualquer mansão de Washington em 1970) e o tempo que começará a agir sobre a nossa memória do rosto de Bush, que naquele encerrei nesta capa para sempre.

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Filed under Capas, Da casa, Revistas

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