“Falsos” livros de bolso

…os livros BI são “falsos” livros de bolso, porque se afastam do estereótipo do paperback: estabeleceram um novo padrão de qualidade e as colecções de bolso que lhes vierem atrás estão obrigadas a segui-lo. Dos livros de bolso têm o formato e o preço. Dos que não são de bolso herdaram a exigência quanto aos textos, às traduções, à apresentação gráfica. (António Mega-Ferreira)

A citação acima, que transcrevi de um post do Blogtailors, em si mesmo uma transcrição de um texto saído na revista NS do Diário de Notícias de 07.12 (p. 61), e que li após um post aqui de uma frase de Jan Tschichold (retirada do muitíssimo bom Jan Tschichold, Designer: the Penguin Years, o relato da renovação gráfica crucial da Penguin no pós-II Guerra Mundial), merece-me umas palavras.

É curiosa a inerente exposição, neste texto, de uma dicotomia entre livros de bolso (que se caracterizam, como factores positivos, pelos reduzidos tamanho e preço) e livros “que não são de bolso” (caracterizados pelo que, aparentemente, falta aos primeiros: “a exigência quanto aos textos, às traduções, à apresentação gráfica”).

Entre 2006 e 2007 deu-se em Portugal um curioso fenómeno: a “redescoberta” do livro de bolso (a julgar por alguma “propaganda” das editoras envolvidas na liça, dir-se-ia a “reinvenção”). Tive oportunidade de me referir a este caso na altura (aqui, aqui e aqui), caso que se correlacionava, curiosamente, com estas declarações ao DN da então responsável pela compra de livros da FNAC. Segundo ela, Portugal não aderia ao livro de bolso, sendo até, no panorama europeu, uma excepção.

Ora o que me parece é que, tal como em outros campos da vida cultural em Portugal (e tomo aqui cultura pelo seu mais lato sentido), deu-se, nos últimos 10 anos e no que aos livros e ao seu consumo diz respeito, uma contaminação novoriquista que fez com que, gradualmente e sem que se tivesse dado por qualquer motivo lógico para tal, se passasse a conceber um livro como um objecto de luxo e, como tal, digno de verdadeiras operações de tuning gráfico que chegaram a extremos de quase ridículo (lembro-me de ver, há uns anos, livros de uma excelsa e vetusta editora portuense que tinham sobrecapas com verniz e relevo cobrindo capas… com verniz e relevo). A história do livro, desde os incunábulos do século XV, prova que a sua produção sempre procurou equilibrar os imperativos da portabilidade e da durabilidade, sendo apenas o facto de uma minoria endinheirada saber ler e poder adquirir livros a fazer pender a balança para a produção de livros maiores e mais caros, facilmente encaixáveis nas posses dessa minoria (que era, muitas vezes, além de leitora também encomendadora). A progressiva alfabetização e expansão do sistema regular de ensino no século XIX preparou a oscilação da balança para o outro lado, culminando-se as sucessivas tentativas de criação de colecções de bons livros de bolso ou de mais pequeno formato nas décadas de 1920 e 30 (La Pleiade, Charles Boni, Albatross, Birkhauser) na revolução operada por Allen Lane à frente da Penguin, marca tornada, por sinédoque, na referência e no símbolo de excelência no formato de bolso. E, tal como antes, mais uma vez as circunstâncias socio-económicas impuseram o seu veredicto.

Estas afirmações de Mega Ferreira, independentemente do apreço que a colecção BI possa merecer, manifestam e são mais um eco de um fenómeno perturbante: o divórcio de um país pouco letrado (ainda recentemente afundado nos mais baixos lugares das estatísticas mundias da alfabetização) e em permamente dificuldade económica com o formato e o tipo de livro mais barato e acessível, esse mesmo “livro de bolso” associado a uma ideia de fraca qualidade e baixos padrões culturais e que passa quase por “falso” quando exibe características de qualidade.

E isto é tanto mais extraordinário quanto, como qualquer thirtysomething nascido ou vivido em Portugal pode lembrar-se, há uma tradição de boa edição de bolso ou de “capa mole” (com ou sem badanas) com que nos deparámos nos primeiros contactos com os livros, vinda dos anos de 1940 até à década de 70, e que continuou em projectos pontuais nos anos de 1980. A ideia de que a edição de bolso possa ser sinónimo de má qualidade é-me, pessoalmente, estranha, tendo em vista essa mesma tradição, sobre a qual escreveu eloquentemente João Bicker, e que volto a citar:

“A edição em livro de bolso tem uma tradição em Portugal de que esta iniciativa é devedora, com exemplos tão notáveis como a colecção ‘Três Abelhas’ iniciada nos anos quarenta por José Cardoso Pires e Victor Palla, a coleccção Unibolso, com um catálogo notável e que, em tempos bem mais difíceis para a cultura do que o nosso, fez chegar a grande literatura nacional e internacional a uma faixa muito alargada da população. Como fez a colecção Miniatura, de Livros do Brasil, que editou 400 títulos. Como o fizeram as colecções Livros RTP, Livros de Bolso Europa-América (no seu início) e as colecções de bolso dos Estúdios Cor, e da Portugália, e da Ulisseia e ainda a Biblioteca Arcádia, para referir apenas algumas. Assim, a iniciativa vale porque se inscreve nessa tradição e não pela sua singularidade. Isso é que deve ser o seu motivo de orgulho.”

As “excepções”, as “singularidades” e as “inovações” podem, afinal, carecer apenas de uma ligeira afinação da memória, com o risco de parecerem o que possivelmente (pois que las hay…) serão: manobras de marketing.

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