Passaporte, de Fernando Bonassi

passaporte2
Título
Passaporte

Autor
Fernando Bonassi

Design
Rico Lins

Edição
Cosac & Naify, 2001
14 x 9 cm, s/ num. páginas

Descrição
Durante muito tempo, do Brasil chegavam-nos apenas os comics, e quase invariavelmente apenas as edições da Abril. Mesmo quando, nos anos 80 e 90, chegaram as boas surpresas dos comics “independentes” de Angeli e Laertes e das edições da Martins Fontes, o livro brasileiro era um objecto distante e, quando encontrado nas estantes de ensaio de “ciências sociais e humanas”, muito caro e pouco apelativo graficamente. A edição brasileira parecia, de longe, um inegável triunfo da quantidade (não havia ensaio obrigatório que a Cultrix ou a Martins Fontes não tivessem publicado) sobre a qualidade.

Há uns meses notei o aparecimento de títulos de uma editora brasileira que desconhecia, a Cosac & Naify, nas estantes das livrarias, bem como no pavilhão da Contra Margem da Feira do Livro (a mesma empresa que importa as edições da Gustavo Gili). Lembro-me de ter ficado cativado pela edição sobre o Tropicalismo da C&N, mas, mais uma vez, o preço reflectia a real distância física e económica entre Portugal e o Brasil (distância que a Academia procura maquilhar com  “acordos” ortográficos).

E foi neste post no Bibliotecário de Babel que encontrei um dos livros deles que realmente me apetecia possuir. Comprei-o a um preço aceitável (14 euros, salvo erro), evitando a exorbitante quantia que implicava uma encomenda directa do site da editora.  Trata-se de um livro que aposta tudo na relação mimética com um objecto para que o seu título remete (um passaporte), e a nível táctil, pelo menos, é uma surpresa agradável. A textura de couro (ou de um convincente sucedâneo), com os cantos arredondados, faz deste um objecto apetecível, e a intervenção surrealista da figura de uma lâmina de barbear de uma gillete das antigas, bem no meio da capa, complementa essa boa surpresa com um design minimalista e apelativo, não deixando de remeter ainda para o universo do viajante.

É  no interior que vem a desilusão. Confesso que nunca vi um passaporte brasileiro, e daí não poderei afirmar se a escolha de um papel couché (com uma rede de finíssimas linhas verticais verdes que criam um efeito de  “palidez”) continua o mimetismo da capa, mas a excitação visual e táctil que a capa nos proporciona arrefece perante um miolo tão fraco (que me esteve quase a fazer desistir da compra, não fosse o preço convidativo).

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Os textos (em Franklin ou News Gothic condensada a verde)  são “colocados” nas páginas com a aleatoriedade de um carimbo, mas falta-lhes precisamente o contraste de cor e intensidade que os vários carimbos dão a um passaporte bem usado. As ilustrações (se lhes podemos chamar isso) são pequenos apontamentos ao estilo clipart em rede muito baixa desse verde omnipresente, criando pouca ou nenhuma interacção com as respectivas histórias. Percebemos que são pequenos apontamentos de “aeroporto” ou quarto de hotel, coisas escritas nesses não-lugares nas horas mortas, mas o que fica é a impressão de uma monotonia que não corresponde à boa qualidade e diversidade da prosa.

Na Gateways (e no respectivo catálogo) vi fabulosos exemplos de design de livros do Brasil; de Passaporte, contudo, tenho a dizer que as minhas mãos agradecem o tacto mas os meus olhos lutam para se agarrarem lá dentro. Um livro que só nos seduz quando fechamos a capa e que preferimos ler usando a memória.

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