Design em tempos de crise, de Mário Moura

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Título
Design em tempos de crise

Autor
Mário Moura

Design
Pedro Nora e Isabel Carvalho

Edição
Braço de Ferro, 2009
170 x 125 mm, 96 páginas

Descrição
Aparentemente inserido na onda de livros “retirados” de blogues, este pequeno volume (preciosamente desenhado e impresso) consegue assumir uma identidade própria que ultrapassa esse contexto devido ao editing inteligente dos seus textos em unidades temáticas, em que os posts (ou outros textos publicados em blogues que não o do seu autor, ou mesmo em revistas) se relacionam de uma forma que a rígida diacronicidade dum blogue não pode alcançar. Dessa forma, por exemplo, no capítulo Design depois da Revolução, podemos comparar lado-a-lado dois textos separados por 4 anos de distância sobre a apropriação e o esvaziamento ideológico da iconografia revolucionária em duas campanhas publicitárias, comparação que nos permite também avaliar a evolução do pensamento do seu autor durante esse lapso de tempo. O livro ganha, pois, uma espessura acrescida de leitura face à sua fonte nessa montagem temporal, tal como um documentário o faz face às suas fontes telejornalísticas.

Saído durante o pico da escalada da crise na agenda quotidiana (e em Janeiro ela era já mais um facto do que uma iminência), o livro de Mário Moura ganha pontos pelo seu design discreto e muito certeiro quanto às referências (a Gill Sans em caixa alta do título e a linha descendente de um gráfico económico que se opõem na capa e contra-capa remetem-nos para as capas da Penguin nos anos de chumbo do pré-II Guerra Mundial ou para o trabalho desses mesmos anos de Otto Neurath, ambos dominados pela necessidade de tornar a linguagem do design permeável a uma certa ideia de imperativa economia de meios), e o aspecto de pequena agenda reforça o seu carácter de urgência, e denota o objectivo de lançar a premente discussão (que vem já da década anterior, desde o manifesto First Things First de 2000, em si mesmo uma renovação do manifesto homónimo de 1964) sobre a relação dos designers gráficos com o sistema de produção capitalista para o qual (mais do que “no qual”) trabalham. A composição do texto nunca destoa dessa linha, o que se nota logo na beleza austera do seu índice, digno de figurar em The Next Page: 30 Tables of Contents, publicado pelo colectivo do blogue Design Observer e um dos mais surpreendentes livros expostos na Gateways (Prova A).

Prova A
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Talvez por razões dessa mesma economia de meios que assume como programa (e pelo seu contexto de produção: pequena tiragem, pequena editora “de nicho”), nota-se a falta de uma iconografia que acompanhe e ilustre alguns dos seus textos (ausência que se lamenta, por exemplo, no caso dos textos do capítulo acima mencionado, dada a ligação íntima do sentido dos mesmos a imagens muito específicas). Ainda assim, o livro abre com uma bela trouvaille visual (Prova B), tão subtil e tão clara para a compreensão do sentido do texto que essa ausência quase se desculpa, e a compensação, globalmente, é mais do que atingida pelo efeito cromático (o cinza prateado da flexicover em contraste com o vermelho da tintagem das arestas do miolo, mais um delicioso e muito justificado toque retro) e táctil deste volume, tornando-o um objecto realmente irresistível.

Prova B
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Mas nem só de alimento dos olhos se trata aqui, claro. Há textos certeiríssimos, e se há lugar a um destaque, permito-me dá-lo a Bartleby, o Designer (p. 57), em que o autor faz radicar o presente status do designer não nos “tipógrafos, [nos] publicitários , [nas] vanguardas do início do século XX”, mas nos escrivães de Oitocentos, como o Bartleby de Melville;  como eles, os designers gráficos limitam-se a emprestar uma bela “caligrafia” a um conteúdo empresarial que não dominam, não subscrevem muitas das vezes e que acabam, invariável e inconscientemente, por representar. É uma ideia forte, que consegue enquadrar a reflexão sobre o design no seu contexto literário, e que tem o condão das ideias novas: produzir a faísca que Herbert Read dizia ser vital ao avanço do pensamento nas artes.

Num país que ainda não tem (alguma vez terá de novo?) uma revista sobre design gráfico, em que as 2 ou 3 revistas e jornais que se dedicam à produção e edição de livros ignoram teimosa e olimpicamente qualquer referência a quem desenha, monta e imprime livros, e em que nenhuma instituição, museu ou fundação, parece valer a este estado de coisas, eis chegada a hora de personagens marcantes na blogosfera assumirem, em livro, o seu papel de críticos e exegetas do que se produz por aí, sem a quase proverbial (e obrigatória, no que diz respeito, por exemplo, à crítica literária) “benção” da imprensa de “referência”. Mário Moura tem tudo para o conseguir, e esperemos que, passada a fase da sua tese de doutoramento, ele cumpra o que este livro promete e pede: mais, mais, mais.

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