Reflexões sobre um Prémio

Não será despiciendo, antes da reflexão propriamente dita, começar por afirmar que a criação dos Prémios de Edição LER / Booktailors, no ano passado, se reveste de uma inegável importância, quanto mais não seja pela pura e simples ausência de algo remotamente semelhante até aí. A imprensa, que se desunha nas últimas 2 semanas de cada ano a escolher os “melhores” livros do ano a findar, jamais ocupa uma linha sequer com o processo que medeia entre a escrita e o contacto com o público leitor do livro já produzido, com a excepção dos erros da revisão ou da tradução. Tendo, nestes dois últimos anos, o espaço nos jornais e revistas dedicado à exegese da produção editorial (dos que ainda o têm) ficado substancialmente reduzido, é de esperar que este estado de coisas permaneça e se agrave. Neste contexto, a existência de qualquer coisa que procure dignificar e premiar os artesãos do livro é positiva, seja qual for o ângulo pelo qual se a aborde.

Mas vamos a esses ângulos. Muito simplesmente: creio, por observação feita ao longo da segunda metade de 2008 junto das livrarias, indagando directamente os livreiros sobre os Prémios e sobre a articulação destes com a agenda daqueles, que, se a intenção dos seus organizadores era transpor os limites estritamente mediáticos do evento (a LER é uma revista e os Booktailors são uma empresa que se faz representar através de um blogue) e levá-lo junto da comunidade mais alargada (e vital) dos compradores de livros e dos que os vendem, dever-se-á concluir que algo terá falhado nesta primeira edição dos Prémios. Até Dezembro de 2008, posso contar uns 2 livreiros (em lojas independentes e de cadeias) que tinham uma vaga ideia de “um Prémio de edição”, mas de resto era a completa ignorância sobre o assunto, comprovada na ausência de quaisquer indicações gráficas no local (digamos, um equivalente impresso dos gifs que alguns blogues ostentaram apoiando os Prémios). Este panorama manteve-se após o anúncio das long lists. Sei que a intenção seria apenas envolver as livrarias por altura do anúncio dos prémios. Ora está aí precisamente a base do meu argumento: porque não envolvê-las já por altura das long lists, expondo numa área especial todos os livros listados, criando uma sinergia com os pontos de venda diária dos livros e, sobretudo, alargando a base de votos (através de “boletins de voto” ou folhetos com as capas envolvidas e as respectivas memórias descritivas enviadas pelos editores)? Trata-se, afinal, de um prémio com o apoio da revista LER, apoiada por seu lado pela Fundação Círculo de Leitores, entidades para as quais a divulgação activa do mesmo nos pontos de venda de livros seria algo perfeitamente (e financeiramente) exequível.

Não me lembro igualmente de uma secção especial ou um destacável na LER por altura das long lists, o que terá sido outro erro, limitando a um único local (um blogue) a acesso à informação sobre o Prémio e ao voto. Também o blogue pecou pela falta de informação sobre as diversas capas a concurso: na ficha de inscrição era pedida uma curta memória descritiva, que infelizmente não foi usada na divulgação dos projectos a concurso, privando os potenciais votantes de informação útil.

Um bom exemplo para edições futuras será a simplicidade com que Andrew Howard montou aquele que foi o maior acontecimento de 2008 no que toca ao design de livros em Portugal, a exposição GATEWAYS e a edição do seu catálogo. Funcionando também através de fichas de inscrição, a importância, no produto final, foi dada ao testemunho do designer através da memória descritiva, tanto na exposição como no catálogo: desta forma se dá deveras a palavra a quem faz e produz os livros. Um dos problemas da divulgação de eventos como a Gateways ou os Prémios LER/Booktailors é a absoluta iliteracia da nossa imprensa “especializada” no que toca ao design gráfico e/ou editorial. Nem um jornal ou revista possui uma coluna, mais ou menos regular, sobre o design dos livros ou das capas, usando, contudo, a reprodução destas de forma intensiva: na prova mais visível da existência de um livro, a capa, opera-se o milagre da invisibilidade quando se lê os textos que ladeiam a sua reprodução. Efeito da influência francófona há umas décadas (os franceses eram lendariamente pouco dados à importância das capas – apesar de um dos mais revolucionários designers de livros de sempre, Robert Massin, ser francês), essa iliteracia do design parece agora mais difícil de explicar numa imprensa que lê, se inspira e cita os jornais e revistas inglesas e americanas de referência, dada a perfeita consciência que os ingleses e os americanos sempre tiveram da importância do design dos livros. (Esse estado de coisas fez com que, ironicamente mas sem surpresas, a imprensa portuguesa quase ignorasse a exposição e, sobretudo, a excelente edição do Gateways, o único livro produzido e publicado em Portugal no ano passado a receber um prémio do Type Directors Club de Nova Iorque).

Estas palavras partem de quem participou neste processo e, participando como editor e designer de um micro projecto, não esperava sequer ter 1 capa seleccionada, quanto mais 4, pelo que não são movidas por acinte, despeito ou ressabiamento: são apenas uma forma de lançar a discussão entre a comunidade. A produção gráfica de livros em Portugal é um trabalho ingrato (sujeito, quase sempre, a “propostas” em competição), sujeito a várias violações dos mais elementares princípios da ética e do direito do trabalho (escrevo com conhecimento de causa), anónimo para além da uma linha na ficha técnica, mal pago (o império do mais baixo orçamento) e totalmente ignorado por quem escreve sobre a edição, pelo que eventos como estes Prémios serão a única oportunidade presente de a nobilitar e lhe conceder um discurso próprio e articulado. Esperemos que o façam na sua segunda edição, que as livrarias sejam mais envolvidas desde o arranque (e, com elas, o público leitor que as frequenta) e que a imprensa dilua o transe autoral em que ainda vive e comece a conceber uma edição como um fruto de vários “autores”, entre os quais o designer.

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Filed under Capas, Eventos, Soltas

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