Écrire l’espace, de Pierre Faucheux

livrofaucheux1
Título
| Title
Écrire l’espace

Autor e Designer | Author and Designer
Pierre Faucheux

Edição | Publisher
Robert Laffont (1978)
215 x 140 mm, 448 páginas

Descrição | Summary
De novo, a arca mágica do ebay permite-me o acesso a um livro, de outra forma, difícil de encontrar e a preços muito altos. Graças a um vendedor belga que achou que “les livres doivent vivre et circuler”, pude contornar a sua inicial relutância em vender para fora do espaço franco-belga e receber este exemplar de um livro tão estranho e tão fascinante.

Faucheux (1924-1999) viveu e arrancou como graphiste (muito antes da adopção internacional do anglicismo designer) na charneira entre dois mundos. A II Guerra Mundial arrasou o terreno do grafismo francês e forçou-o a uma abertura às inevitáveis influências americanas e a novas formas de criar e comercializar algo tão tradicional como o livro. Nesse momento de tabula rasa do pós- guerra, com um misto de rigor normativo da tipografia tradicional e de ímpeto intuitivo, Faucheux, herdeiro das tradições tipográficas francesas (a sua formação foi, de facto, a de um tipógrafo), foi o homem certo na hora certa na resposta a encomendas de um “novo” tipo de livro. Quando os clubes do livro arrancam em finais da década de 1940 (primeiro o Club Français du Livre, depois o Club des Libraires de France), é das mãos dele que começam a sair as maquettes dos sucessivos títulos (mais de 500 ao longo dos anos, segundo o próprio). Apesar de possuir ajudantes (um dos quais, Robert Massin, igualará o “mestre” mais tarde), é em Faucheux que se centram todas as decisões quanto ao design e acabamento dos livros, muitas vezes recorrendo aos últimos materiais e técnicas e a novas máquinas: percorrendo pessoalmente todo circuito das gráficas que servem a produção dos clubes do livro, ele é, de facto, o portador de uma nova forma de conceber e produzir livros durante a década seguinte. Esta (e parte da década de 1960) terá sido mesmo o seu pico, continuado na revolução dos livros de bolso, sendo suas muitas das capas dos Livres de Poche nos anos seguintes (e seu o desenho da grelha da colecção Points da Seuil nos anos de 1970). Faucheux conta mesmo um episódio em que, à conversa com Henri Filippachi, o editor da colecção Livre de Poche, o tema se dirige para as capas:

Au cours de l’entretien, il avait eu le malheur (le bonheur?) de me dire avec son bel accent corse: “Vous comprenez, une couverture de livre, c’est comme un paquet de nouilles…” Il ne me revit jamais. (p. 147) (Fillipachi morreu em 1961).

Esta intransigência não é, felizmente, norma em Faucheux. Este é, afinal, o homem que rompeu o esquema tradicional das páginas de abertura do livro ao introduzir sequências ritmadas de vários spreads consecutivos, em que a tipografia assumia toda a sua beleza e preparava a entrada no texto (tal como se vê em Les Chants de Maldoror, para a edição CFL de 1949, um dos seus trabalhos mais conhecidos); o homem que usou livremente rabiscos infantis e uma tipografia oitocentista de altos contrastes para a edição de Tom Sawyer; o homem a quem Raymond Queneau confiou a ilustração tipográfica dos Exercices de Style. A norma em Faucheux, se podemos usar a forma e o conteúdo deste seu livro como prova, era a da inovação formal sem limites, quase lúdica, sobre uma rigorosa grelha mental composta pela sua paixão pelas proporções matemáticas e pela arquitectura (outra das suas inovações foi a do design de stands e exposições temáticas de literatura nos anos 1950).

O livro (cujo título se poderia traduzir por “Escrever o espaço”), publicado mais de 30 anos após essas primeiras aventuras profissionais, é um misto inclassificável de autobiografia, manual de preceitos normativos, ensaio sobre arquitectura, reflexão estética em estilo ora coloquial, ora soliloquial e, apesar das limitações do preto (única cor do livro), portfolio. É nítida a propensão pela liberdade compositiva que a fotocomposição permitia, e em certas páginas Faucheux parece atrevidamente disposto a subverter as mesmas regras pelas que se guiou durante 2 décadas: conjugado com imagens quase sempre fora da grelha ortogonal, o texto é alinhado à esquerda e, mais do que um corpo contínuo e fluido, caracteriza-se por uma série de segmentos discursivos, que a fotocomposição permite, por vezes, também arrancar à grelha e dispor livremente. Eco da sua intensa relação com os Surrealistas (colaborando na montagem de 2 exposições organizadas por André Breton), este layout é também a perfeita metáfora, no plano do livro, da mesa de trabalho do grafista, essa arena em que os elementos se dispõem e colidem em tensão, para se chegar à síntese final: o layout é, pois, e ao mesmo tempo, uma janela para e um espelho do processo de criação tipográfica.

O estilo do texto de Faucheux é também, à imagem da temática do livro, algo errático, mas nos capítulos em que procura ser sintético sobre o processo de design editorial consegue-o de uma forma completamente objectiva. Não há aqui o rigor explanativo e em profundidade de um Tschichold no que toca ao “bom uso” da tipografia, mas a confluência de saberes e a energia vital de Faucheux tornam este texto num complemento excitante (e muito raro) a esse tronco mais canónico da ensaística do design gráfico.

livrofaucheux4

livrofaucheux5

Addendum: possuo um exemplar da edição do CLF de 1956 de Mémoires d’Hadrien de Marguerite Yourcenar, e nele se pode ver o cuidado com o acabamento e a atenção ao detalhe tipográfico de Faucheux. A página dupla de abertura não é tão arrojada como alguns dos seus outros trabalhos, mas todo o livro concorre para a sensação de serenidade e antiguidade, com a impressão do tipo Trajano metálico sobre pano cru. (Prova A)

Prova A
hadrien1
hadrien3

Again ebay’s magical trunk allows me to get an otherwise hard to find and quite expensive book. Thanks to a belgian seller who decided that “books should live and circulate”, I could overcome his initial reluctance in selling outside the Franco-Belgian area and got this fascinating and strange item.

Faucheux (1924-1999) lived and became a graphiste (long before the international usage of the english term designer) in the threshold between two worlds. World War II took the ground from beneath the traditional French graphic scene, and forced it to open itself to the american influence and to its new ways of creating and marketing something as old as books. At that moment of post-war tabula rasa, with a mix of normative rigour of the traditional typography and an intuitive drive, Faucheux, who had trained to be  a typographer, was the right man at the right time in delivering the solutions to the demand of this new tipe of book. When book clubs were launched at the end of the 1940s (first the Club Français du Livre, then the Club des Libraires de France), his were the maquettes (layouts) for the more than 500 books that would eventually be published in the following years. Although he had assistants (one of whom would eventually become a master in his own right: Robert Massin), it was around Faucheux that all the decisions regarding the design and production of the books were centered,  using many times untested new materials and technology: going personally to all the print shops that served the book clubs, he was trully the bearer of this new way of bookmaking during the 1950s. This and the following decade witness his peak, in which the pocketbook revolution also had his mark: his were many of the covers for the Livres de Poche (pocketbooks) collection, as was the layout for the Points collection for Seuil in the 1970s. Faucheux tells of a meeting he had with Henri Fillipachi, Livres de Poche‘s publisher, in which the conversation turned to book covers:

During the talk, he had the misfortune (or should I say the good fortune?) of telling me, with his beautiful corsican accent: “You see, a book cover is like a package of noodles…” He never saw me again. (p. 147) (Fillipachi died in 1961).

Fortunately, this inflexibility is not the norm in Faucheux. After all, this is the man who broke the traditional scheme of opening pages in books by introducing rythmic sequences of various consecutive spreads, in which type was allowed to show its visual beauty while preparing the coming of the text (as in the CFL edition of Les Chants de Maldoror, in 1949, one of Faucheux’s best known works); the man who used freely children’s doodles and overblown XIXth-century type for an edition of Tom Sawyer; the man to whom Raymond Queneau trusted the “typographical illustration” of the Exercices de Style. The norm in Faucheux, if we can use the form and content of his book as evidence, was boundless, almost game-like formal innovation over a rigorous blueprint made out of his twin passions: mathematical proportions and architecture (in the 1950s he was at the forefront in the design of temporary and thematic exhibitions).

This book (whose title translates as “Writing space”), published more than 30 years after his first professional adventures, is an unclassifiable mixture of autobiography, handbook of normative precepts, essay on architecture, aesthetic rambling in a style between the coloquial and the soliloquial and portfolio, despite the limitations of the black-only printing. The freedom allowed by phototypesetting reigns in these pages, in some of which Faucheux seems almost wickedly determined to overturn the very same rules he had applied for two decades: articulated with images in permanent diagonal tension with the orthogonal grid, the text is flushed left and more than a continuous and fluid body, it is atomized in small paragraphs, discursive segments that phototypesetting allows to be taken out of the grid, cut out and pasted freely. A distant echo of his affinities with the Surrealists (having worked in 2 exhibitions in close collaboration with André Breton), this layout is also the perfect metafor, within the boundaries of the book, of the designer’s working table, that arena where elements are organized and collide in tension before the final synthesis is achieved: here the layout is, at the same time, a windows to and a mirror of the process of typographic creation.

Faucheux’s style is also, like the book’s contents, somewhat erratic, but in the chapters strictly about editorial design he does achieve a completely objective and pure synthesis. The reader will not find here the deep levels of explanatory and theoretical rigour regarding the “good use” of type one finds in, say, Tschichold, but the confluence of masteries and the vital energy of Faucheux make this book an exciting (and quite rare) supplement to that more canonic and central stream of graphic design writing.

Addendum: I have a copyof CFL’s 1949 edition of Marguerite Yourcenar‘s Mémoires d’Hadrien, and in it one can see Faucheux’s  care with binding and finishing and typographic detail. The opening spread is not as bold as some of his best known ones, but the whole book gives a striking feeling of serenity and antiquity, with the Trajan metal type pressed over the raw cloth.

2 Comments

Filed under Capas, Livros

2 responses to “Écrire l’espace, de Pierre Faucheux

  1. Pingback: Massin à Lisbonne – I « Montag : by their covers : resgate do fogo

  2. Pingback: “Os livros devem viajar” « Montag : by their covers : resgate do fogo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s