Cabeças e ombros

Nixonfold1

Alguns apontamentos  sobre uma visita rápida ao “novo” MUDE da baixa, para ver a exposição “Ombro a Ombro” (tradução estranha e pouco apropriada para “Head-to-Head”, sendo estas “cabeças”, obviamente, as dos políticos representados nos cartazes expostos; os ombros nem sempre lá estão…).

1) Não sei quem terá lançado a moda (terá sido a Buchholz no fim do ano passado?), mas isto de abrir ao público espaços ainda em obras começa a ser irritante.
2) Uma área dedicada a Arnold Schwarzenegger em que a esmagadora maioria dos cartazes eram os dos seus filmes pareceu-me a confirmação dos meus receios expressos aqui. (Porque não fazer essa ligação com Ronald Reagan, cuja carreira de cinema cria uma tensão muito maior e bem mais interessante, pelo desnível acentuado, com a sua carreira política?)
3) Na memória: pela simplicidade e pelo design límpido, 2 cartazes de Willy Brandt do SPD dos anos 60.
4) Estava à espera de ver o “Che Si” de Roman Cieslewicz, mas talvez o Museu de Design de Zurique não o possua na sua colecção (a reprodução dele no livro da Trisha Zieff é a partir de um exemplar de um museu de LA). Tenho a Opus em cuja capa essa imagem apareceu pela primeira vez e confirmar que esse impacto passou para um formato maior seria realmente um regalo para os olhos. O “Che Radiante” de Rostgaard (1969) também não estava lá, ou o de Rafael Morante de 1982 (de que escrevi aqui). Mas estava o cartaz de Kenneth Dearoff (sobre pintura de Paul Davis) para o número de Fevereiro de 1968 da Evergreen Review de Barney Rosset (cartaz muito belo, raro pela sua opção pela via mais pictórica – as referências aos Primitivos italianos são óbvias – e que competiu, nos EUA, com outro cartaz divulgado na Europa por outro editor, Giangiacomo Feltrinelli, cartaz este que não se encontra na exposição).
5) Entendo que os 4 ou 5 pequenos cartazes de Yulia Tymoshenko tenham sido usados como comic relief, mas também aí se perdeu uma oportunidade de tentar perceber e relevar as raízes dessa estética kitsch, através da sua colocação em contexto com outros cartazes ou documentos visuais soviéticos ou nacionalistas ucranianos.
6) Nem um cartaz de Berlusconi. Por falar nisso, nada da política italiana dos anos 60 para cá.
7) Nixon, todos estes anos depois, ainda é um eye catcher, muito mais do que o seu mítico adversário de 1960, JFK. As sombras, na política, dão esse chiaroscuro que molda uma figura histórica, uma personagem. E a sua contribuição – involuntária, claro – para a história do cartoon e do cartaz político corrosivo é inigualável: 1972-74 foi um período e peras para ambos. (A imagem que encima este post é a de uma pequena maravilha de Alfredo Rostgaard, um poster desdobrável anti-Nixon de 1972 [não presente na exposição] que reserva uma surpresa aos curiosos – ver aqui).
8) A América Latina está quase invisível, para além os ícones “obrigatórios” do Che e da Evita: onde estão os cartazes do Brasil pré-1964, os de Allende, os de Collor de Mello, os de Carlos Menem, os do PRI mexicano?

[A completar com uma segunda visita.]

HEADS AND SHOULDERS
Some notes on a short visit to the new Museum of Design and Fashion (MUDE) in downtown Lisbon, to see the Museum fur Gestaltung‘s poster exhibition “Head to Head” (which became, in Portuguese, literally “Shoulder to Shoulder”).
1) A recent fad in Lisbon: opening cultural exhibition spaces while still under construction. A bit annoying.
2)  A whole area dedicated to Arnold Schwarzenegger in which most of the posters shown were from his movies was the confirmation of my fears (here). Why not dedicate it to Ronald Reagan instead, whose film career allows for a greater and far more interesting tension with his political one, given the disparity between both?
3) Two beautifully simple and direct posters from Germany’s SPD party showing Willy Brandt‘s face in the 1960s got in my memory.
4) I was expecting to see Roman Cieslewicz’s “Che Si” poster, but maybe it’s not in the MFG’s collection (Trisha Zieff, in her book on Che, uses a reproduction from an LA museum). I’ve got the 1967 issue of Opus in the cover of which that image first appeared and being able to check if that visual impact transferred to the bigger format would certainly be a feast to these eyes. Rostgaard’s “Radiant Che” (1969) was not there as well, and neither was Rafael Morante’s poster (1982) of which I have written previously (here). But Kenneth Dearoff and Paul Davis’ poster for the February 1968 issue of Barney Rosset’s Evergreen Review was, and what a sight! A huge, beautiful poster, rare for his painterly approach to its subject – Davis was clearly aiming at Italian Primitive painting for the tone – and one of the two Che posters most widely distributed in the Western world in 1968, the other being Giangiacomo Feltrinelli’s printing of the “crucial” crop of Alberto Korda’s original photo (which was not shown either).
5) I (think I) get it: Yulia Tymoshenko‘s 4 or 5 small posters may have been shown as a sort of comic relief. But showing them in context with other posters or visual sources from the USSR or nationalist Ukraine that could have explained and bring closer the roots of those kitsch aesthetics (and its appeal to the voters) could have helped.
6) Not a single poster with Berlusconi‘s mug. Now that I mention it, not a single poster from the Italian political arena in the past 40 years or more.
7) Nixon, even after all these years, is still an eye catcher, much more so than his mythical opponent of 1960, JFK. In politics, shadows seem to endow certain men with that chiaroscuro that shapes and gives depth to a historical figure, a character. And his contribution – although involuntary – to the history of political cartoons and corrosive posters is still unmatched: 1972-1974 was one hell of a period for both of those fields. (The image that illustrates this post is from a marvellous little piece by Alfredo Rostgaard, an anti-Nixon fold-out poster from 1972 [not shown at MUDE either] which has a surprise in store for the curious eye and the diligent hand – see here).
8) Latin America, beyond its “mandatory” icons like Evita and Che, is almost invisible: where are the Brazillian pre-1964 posters, the PRI posters from Mexico, or the ones showing Allende, Collor de Mello, Carlos Menem?

[To be completed after a second visit.]

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Filed under Cartazes, Eventos

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