Atribulações da memória

Gailivro_capa

Na capa do livro As Atribulações de Jacques Bonhomme de Telmo Marçal (edição da Gailivro – Leya, 2009) vemos um homem de meia idade num cenário que, sabendo de antemão que o livro se enquadra no género da Ficção Científica, poderíamos considerar “pós-apocalíptico”. Uma imagem curiosa, certamente adequada à temática dos contos publicados, mas não extraordinária, para quem acumula alguma memória visual há perto de 30 anos.

Ora é precisamente essa memória que lança o alarme: a imagem não nos parece extraordinária por uma razão, e essa razão é a sua familiaridade. É uma imagem que, apesar de suficientemente “genérica” para passar como quase “anónima”, apresenta traços suficientemente específicos para gerar uma busca imediata nesse banco de memória visual. E não são precisos muitos segundos para concluir, sem grandes margens de dúvida, que essa imagem tem uma fonte inegável: a série televisiva The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), produzida pela CBS. Uma busca mais afinada traz-nos a confirmação: trata-se de uma foto de Burgess Meredith no famoso episódio Time Enough at Last (um bancário amargurado e míope queixa-se da falta de tempo para a sua única paixão – a leitura – quando um cataclismo nuclear faz dele o único humano sobrevivente e lhe dá, finalmente, todo o tempo para ler), emitido em 20 de Novembro de 1959 durante a 1.ª época da série. É, apenas, um dos episódios mais famosos de uma das mais famosas e lembradas séries de Ficção-Científica e Fantástico. Eis alguns frames desse episódio (que pode ser visto aqui):

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Para a minha geração (os nascidos no início dos anos de 1970), a série foi vista pela 1.ª vez na RTP2, à hora do jantar, pelos anos de 1988/89 (graças a uma sucessão de telenovelas portuguesas desastrosas na RTP1 que permitiu a milagrosa mudança de canal), mas outras reposições certamente se deram entretanto, tal como teria acontecido desde a sua estreia (houve mesmo, nos anos 80, uma “actualização” da série, além de um filme). E o VHS, a internet e o DVD vieram depois reforçar o estatuto de referência e a familiaridade com a iconografia da série para o público conhecedor ou curioso pelo género.

É justamente este público que a Gailivro, chancela da todo-poderosa holding editorial Leya, procura atingir com a sua colecção 1001 Mundos, onde este livro se insere. Acontece que, apesar da fama da série e do episódio, a editora “optou” por ocultar qualquer referência a ambos: badanas, contra-capa e, mais grave, ficha técnica são completamente omissas quanto à origem da imagem (à boa maneira das edições de FC da Europa-América dos anos 80, a indicação da autoria do design da capa esquece a autoria da imagem que está na base desse design – Prova A, clicar para ver com detalhe). Para um leitor não informado, tal como para um adolescente há mais de 20 anos ao comprar esses velhos livros de bolso da E-A, a autoria da capa é, de facto, unicamente da “Mor Design”, incluindo essa fotografia.

Prova A
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Mas não é. A imagem em questão (retirada daqui)  é de um still promocional da CBS (Prova B, clicar para ver com detalhe), que aqui aparece com o autógrafo do actor.

Prova B
meredith

Pondo os critérios estéticos de parte, pelos quais posso até concordar com a escolha da imagem, o que me incomoda neste caso nem é o possível desrespeito pelos direitos do seu uso (pertencentes à CBS, que não aparece mencionada como detentora desses direitos em qualquer parte do livro), sendo que, para além de uma pequena alteração no seu canto inferior esquerdo (um quadro que emerge do entulho?), não é sequer dado um tratamento à imagem que a subtraia da sua origem fotográfica e a eleve (através de colagens ou de qualquer tipo de distorções ou intervenções gráficas) a um nível de quase independência dessa fonte, aproximando-a do que ela deveria ser: uma recriação, ou seja, uma nova imagem por direito próprio. O que me incomoda é a constatação de que uma estrutura milionária como a Leya não consegue fornecer às suas chancelas os serviços, por exemplo, de pesquisadores ou arquivistas de imagens (e, já agora, de advogados que advirtam a tempo para a necessidade de mencionar os detentores do copyright das imagens, ou apenas os seus autores no caso de elas já estarem em domínio público).

Mas o que mais me incomoda talvez seja pensar que alguém, na Gailivro ou acima dela, considerou que pôr na capa de um livro uma foto promocional quase inalterada de um famoso episódio de uma ainda mais famosa série televisiva sem qualquer menção à sua origem seria aceitável e legítimo e que passaria completamente despercebido pelo seu próprio público-alvo. Uma editora tem, entre várias, a obrigação de ser um agente cultural, e a informação prestada na ficha técnica ou em qualquer parte do livro sobre tudo o que diz respeito à sua produção (desde o nome do revisor ao nome das fontes usadas) faz parte dessa obrigação cultural. É assim que um público leitor se cultiva e se torna mais exigente.

Como designer e editor (ainda por cima com um mini orçamento, senão mesmo um não-orçamento), sei da dificuldade de encontrar imagens de qualidade e adequadas, mas sei também que é necessário um certo esforço de adaptação e transformação e, sempre que possível, uma menção e creditação das fontes.  Ignorância ou desleixo podem ser desculpas de um leitor ou até de um editor impreparados; não podem sê-lo por parte de uma editora e de um grupo editorial líderes no mercado.

Adenda (28.10.2009): Ontem, num debate sobre a edição de FC e Fantástico em Portugal, ocorrido no auditório da SPA em Lisboa, tomando a “deixa” de uma pergunta de alguém do público sobre as capas de FC em Portugal, tive a oportunidade de confrontar o editor Pedro Reizinho da Gailivro com os factos expostos neste post. Numa resposta desportiva e sensata, ele reconheceu a falta.

9 Comments

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9 responses to “Atribulações da memória

  1. Great post, and very well argued. I’m in the same boat as you, as a designer with little or no money for various projects, looking for arresting images to use. This sort of thing just seems so foolish, because you’ll get caught!

    I must also thank you for the link to the Twilight Zone episode–I’d heard about it, and as a keen obsessive about post-apocalypse stories, really wanted to see it, but was unsure of the episode title. Now I can watch the whole thing!

  2. Did you go to Portuguese school? ;) You understood my text exactly (presumably with some help from the images…)! That Australian language method is a miracle! ;)

    What’s worse is that this publisher has loads of money (they belong to the most powerful publishing holding in Portugal) and yet not even a second to spare to add a line or two to credits page. I just find it incomprehensible.

    Twilight Zone was a marvel to discover 20 years ago. And when I first read Borges some 10 years later, the thing that made me like him so much was that I found him to be a sort of ultra-refined version of the series. It may sound silly, but that’s what made Borges work for me ever since.

  3. Ha! I WISH I could speak Portuguese! No, I had a lot of help from Google, which did a surprisingly good translation job.

    That Borges comparison really strikes a chord. Though he’s very “literary”, he does great fantasy/science-fiction/genre/strange tale stuff. A wonderful writer.

  4. Epá, agora tenho de ler o Borges 0_0
    Aliás, já o devia ter feito.

    Lembro-me desse episódio. Em 4 palavras: fa-bu-lo-so.

    Nessa época havia tv como deve ser – e a horas decentes. A TZ era uma das minhas séries favoritas.

  5. Dunya, é PRECISAMENTE por a série ser tão conhecida e lembrada (mesmo que os títulos dos episódios se percam na memória), que a Gailivro devia ter o máximo cuidado ao usar uma imagem dela sem a creditar. Presumo que tenham pago os direitos para o seu uso (para bem deles, espero que sim!), mas o mais importante, e o que me interessa aqui, é a displicência com que estas coisas são deitas por editoras “líderes de mercado”.

  6. Às vezes os “fortes” têm a mania de que podem fazer as suas próprias leis e regras :p

  7. Curioso que já tinha reparado na imagem da capa ser retirado da Twilight Zone. Vi esse episódio há umas meras três ou quatro semanas e quando vi a capa associei logo.

    Achei uma grande coincidência ver uma imagem de uma série tão antiga mesmo na altura em que me decidi a cultivar-me e, então, a vê-la. Não me sinto indignado nem nada do género com a utilização da imagem, pois sou adepto de um mercado totalmente livre, mas realmente não custava nada pôr lá a referência…

  8. Francisco, o mercado não é livre. Se fosse, TODOS nós poderíamos aceder aos bancos de imagens de Hollywood e não apenas as editoras de holdings milionários. Eu adoraria poder pôr numa capa o último fotograma do “Planeta dos Macacos”, a estátua da Liberdade enterrada numa praia, mas não posso porque teria de ter o orçamento de que a Gailivro dispõe. Paciência, tenho de ser criativo, e é na arena da criatividade que as editoras devem competir.

    O “custo” da referência pode ser uma questão literal, mas esse é um problema da Leya e da Gailivro. O que me choca é que uma editora deste nível se comporte desta forma com imagens alheias (a foto não é nem da Gailivro nem da Mor Design), porque se fazem isto a uma imagem que quase TODA a gente conhece, quem me garante que não começam a fazer o mesmo a qualquer imagem “jeitosa” que encontrem por aí numa pesquisa no Google?

    Bastaria terem feito algo de substancial na imagem (mudado a cor da gravata do actor, mudado o céu, posto a imagem em escala de cinzentos ou a sépia…), qualquer coisa que denotasse um esforço de recriação e adaptação, e eu nem me teria dado ao trabalho de escrever este post, e teria deixado as preocupações para os advogados da CBS.

    • Pensando melhor, terem posto a imagem em escala de cinzentos teria sido o equivalente a darem outro tiro… no outro pé: nesse caso, o reconhecimento da ligação à série seria quase imediato. É a cor (ainda que – pelo que se pode ver do still original – totalmente inalterada) que cria um afastamento em relação à memória visual da série.

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