O cinema do outro lado do Muro

DDRposters_handschick1970

Segundo Karlheinz Borchert, os melhores cartazes de cinema da República Democrática da Alemanha foram de Erhard Gruettner (alguns exemplos do seu trabalho, com um fabuloso cartaz para Serpico Prova A), mas foi este cartaz de 1970 de Heinz Handschick que me fez licitar num desses leilões online. Mais do que o seu baixíssimo preço, foi a visível qualidade tipo+gráfica que me atraiu (no fundo, o que nos faz ainda gostar de cartazes – acabei por não conseguir ficar com ele).

Prova A
DDRposters_gruttner1967

DDRposters_gruttner1983

DDRposters_gruttner1977

Durante anos, o que nos chegava graficamente da RDA eram os cartazes políticos, através, sobretudo, da Festa do Avante!, mas nada que me lembre do que pude ver nesses anos finais da década de 80 se aproximava da enorme riqueza gráfica que agora se pode redescobrir online. No seu melhor, o estilo destes cartazes da Alemanha de Leste parece-me ser um misto do lado mais pictórico dos cartazes polacos (tipografia desenhada, pintada ou feita a partir de papel rasgado e influências expressionistas na representação da figura humana, a que talvez não fosse estranho o facto de, por exemplo, Jan Lenica ter trabalhado na RFA) com a escola de foto-montagem e colagem dos alemães ocidentais. Saídos do mesmo contexto de baixo orçamento para promoção mediática (desnecessária no caso dos países de Leste, onde a competição comercial era inexistente) e sua compensação através de alta concentração de talento visual, há curiosas semelhanças no modo de produção destes cartazes de cinema da RDA e os que as pequenas distribuidoras independentes do lado ocidental, como a Atlas, encomendavam, e alguns deles não ficariam mal no porfolio de um Hans Hillmann, por exemplo. Com ambas as escolas, estes artistas da RDA partilhavam uma mestria evidente e considerável na criação do que Philip Meggs chamou de “imagem conceptual”.

Tal como na Polónia, na Checoslováquia ou em Cuba, também da RDA um regime duro e pouco propenso a liberdades individuais parecia não ser obstáculo ao cosmopolitismo estilístico e à variedade “autoral” nas artes gráficas. Eis alguns inspirado(re)s exemplos deste vasto portfolio, todos posteriores à erecção do Muro em 1961 e anteriores à sua queda em 1989. No sentido descendente, os autores são Ruddigkeit, KummertGottsmann, Schallnau, Schulz, Wongel, De Maizieres e desconhecidos (últimos 4). E mais (muito mais!) pode ser encontrado aqui ou aqui.

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DDRposters_wongel1977

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DDRposters_1967

DDRposters_1970

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FILMS ON THE OTHER SIDE OF THE WALL
According to
Karlheinz Borchert, the best film posters of the German Democratic Republic were done by Erhard Gruettner (some samples of his work, with a terrific poster for Serpico – A), but it was this 1970 poster by Heinz Handschick that made me bid on one of those online auctions. More than its very low starting price, it was its remarkable typo+graphic quality that attracted me (basically the stuff that still makes us like posters – I ended up not getting it).

For many years, what got here from the GDR were mainly political posters, through the Avante! festival (organized by the Portuguese Communist Party), but nothing I remember seeing in those last years of the 1980s came close to the surprising graphic richness one can now rediscover online. At its best, the style of these East German posters seems to be a mix of the more painterly side of Polish posters (hand drawn, brush stroked or paper cut-and-ragged typography along with an Expressionist mark in the depiction of human figures, to which the fact that Jan Lenica worked in Germany for many years may not be irrelevant) with the West German school of photo montage and collage. Coming out of the same context of low budget for marketing (unnecessary in the Eastern countries, where free market competition was nonexistent) and its compensation via a high concentration of visual talent, there are curious similarities in the way these GDR film posters were produced and the manner in which the small, independent film distributors in the West, like Atlas, produced their own posters (and some of the former would not be out of place in, say, Hans Hillmann‘s portfolio). With both schools, the GDR graphic designers shared an evident and considerable mastery in the creation of what Philip Meggs would later call the “conceptual image”.

As in Poland, Czechoslovakia or Cuba, so in the GDR a though regime, unfriendly to the concept of personal freedom, didn’t seem to stand in the way of stylistic cosmopolitanism and visual “authorship” in the graphic arts. Here are some quite inspired/inspiring samples of that vast portfolio, all created after the Wall’s erection in 1961 and before its fall in 1989. In descending order, the authors are Ruddigkeit, KummertGottsmann, Schallnau, Schulz, Wongel, De Maizieres and unknown (the last 4). E more (much more) can be found here and here.

Ruddigkeit, Kummert,  Gottsmann, Schallnau, Schulz, Wongel, De Maizieres

2 Comments

Filed under Cartazes

2 responses to “O cinema do outro lado do Muro

  1. Hugo Jorge

    Grande, Pedro, pensava que os cartazes de cinema eram só os polacos…

    • Olá, Hugo. E se é o mesmo Hugo Jorge em que estou a pensar, antes de mais um abraço! :) Já há muito tempo! Apesar de tudo, bons tempos os do eixo Miraflores-Algés. ;) Ainda no outro dia estive a ver algumas das revistas e, caramba, até fizemos um trabalho bem bom no meio daquela confusão.
      Obrigado pela visita!

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