Luiz com zê

A (re)leitura recente de alguns textos das edições originais dos Textos de Guerrilha (compradas a preço de chuva na papelaria/livraria Ler ao Campo de Ourique, outrora a mesmíssima Ler que os publicara), complementada por um volume de crónicas publicado pel’O Independente em 2004 (agora já oportunisticamente aumentado para 15 Euros e que se encontra por aí nas Feiras do Livro das estações de metro e comboio) onde está uma obra-prima da “critiquístisca” literária portuguesa, Um poeta muito famoso em Massamá (publicada em 1971, e que devia ser de leitura obrigatória), fez-me procurar por mais livros de Luiz Pacheco. Difícil tarefa agora, em hora de “canonização” na Biblioteca Nacional (que, apesar de Nacional, ou seja, de todos nós, contribuintes, não consegue fazer publicar um catálogo de exposição mais barato do que 30 Euros – valores mais altos se “leyavantaram”…), e em que os preços das suas edições originais disparam por esse mercado alfarrabista agradecido.

Foi essa busca que me fez regressar a um blogue que encontrei há uns anos e que, noto com satisfação, continua activo. Trata-se do arquivo online das edições Afrodite, no qual se continuam a encontrar verdadeiros tesouros da que foi uma das mais loucas aventuras da edição em Portugal, tendo ao leme Fernando Ribeiro de Mello, um misto e émulo devidamente excêntrico de um Maurice Girodias, um Jean-Jacques Pauvert, um Eric Losfeld ou um Barney Rosset. As comparações não são desmedidas: pelo que se pode ver, os livros da Afrodite tinham uma qualidade gráfica ímpar, que emparelhava com as ambições (essas sim, algo desmedidas, ainda que corajosas) do seu editor.

Pacheco fora colaborador pontual da Afrodite, coisa que lhe trouxera amargos antes da Revolução, pelo que esta edição de 1977 dos seus Textos Malditos (com “arranjo gráfico” do próprio editor, e onde se inclui o “infame” Libertino) parece, talvez uma devida recompensa, certamente uma prova da possível consagração que por então gozava o autor “marginal”. Surpresa para mim foram as excelentes ilustrações de Henrique Manuel (mais amostras aqui e aqui), a começar na icónica capa: é-me difícil acreditar que Pacheco tivesse algo a apontar a tanto esmero (terei de confirmar). Um daqueles livros já quase inacessíveis e que vai a caminho do panteão da edição em Portugal (não o “outro”, porque os ossos de Jorge de Sena* não iriam certamente gostar da companhia…).

* Nota: pela vigilância atenta do autor e tradutor Octávio dos Santos fui informado que, de facto, a trasladação dos restos mortais de Jorge de Sena teve como destino o Cemitério dos Prazeres (cá estamos de novo em Campo de Ourique) e não o Panteão Nacional.

LUIZ WITH A ZED
Luiz Pacheco (1925-2008) was the rebel-rouser of Portuguese literature for more than 30 years. A publisher as well as author and critic, he was continuously censored, persecuted and imprisoned during the last two decades of the Salazar/Caetano regime. A self proclaimed “neo-abjectionist”, surviving in almost squalor, battling with alcohol addiction and asthma, he became an iconic figure in Lisbon, the “dirty old man” (with the proverbial thick lenses and grubby overcoat) with the most witty (and feared) verve this side of Pecos, which he put on paper whenever he was paid to in some of the most riotously funny prose ever written in Portugal. The 1974 Revolution caught him with his dignity still intact and gradually he was rediscovered and published, free of censorship. This 1977 edition of his Textos Malditos (the “damned texts”, the ones whose publication had been totally forbidden) is, perhaps, the flashiest item on his bibliography, with exquisite (and quite bawdy) drawings by Henrique Manuel (for more samples, go here and here), published by Afrodite editions, run by another rebel rouser on his own right, Fernando Ribeiro de Mello, the Portuguese match for the likes of Girodias, Pauvert or Rosset. Pacheco had become a cult figure way before his death, and now he’s being honoured at the National Library (which will no doubt make him laugh his head off up – or down – there where he might be). The first editions of his books are now rising in price by the minute (and there he goes laughing again).

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