Três portfolios em busca de um livro

Há tempos descobri o blogue Book Worship, em que o seu autor Shawn Hazen fotografa e mostra cópias de paperbacks dos anos 60 e 70, invariavelmente ou ensaios na área das ciências ou edições de FC. Num dos posts em que se mostra uma das muitas capas de Roy Kuhlman, o grande designer da Grove durante quase 20 anos, a filha de Kulhman, Arden Kuhlman Riordan, veio dar algumas informações interessantes à volta da questão que quem conhece o trabalho desse designer naquela editora não pode deixar de fazer: porque é que nunca foi publicado um livro sobre todo esse fabuloso portfolio?

Quando há tempos pude ver Obscene, o documentário sobre Barney Rosset e a sua Grove Press, pensei que pudesse descobrir mais sobre este designer e o seu trabalho nessa editora. Mas nada do que ali se contava, pela boca do próprio Rosset, acrescentava algo ao que Drew e Sternberger tinham escrito no essencial By Its Cover, onde, aliás, o nome de Kulhman me despertou pela primeira vez a atenção. O design desse livro fora de John Gall, o “herdeiro” de Kuhlman na nova encarnação da Grove quando esta foi comprada pela Atlantic, e que tivera oportunidade de prestar o devido tributo ao seu “antecessor” num artigo na Print, disponível online no site da Evergreen Review (revista da Grove, que permanece nas mãos de Rosset). Pelo que a filha de Kulhman escreveu no Book Worship, Gall mantém até hoje o interesse em fazer o “tal” livro sobre o designer e parece estar a trabalhar nisso com os seus herdeiros.

Ao que parece, e por estranho que pareça, a memória dos designers que moldaram ou deram personalidade a editoras independentes mais ou menos lendárias não pode ser confiada aos seus editores. Na hora da fixação dessa memória para a posteridade, ou há a mera repetição da “lenda” (o caso de Rosset, que em Obscene se limita a repetir a história da primeira entrevista que teve com Kulhman, já sobejamente conhecida desde, pelo menos, a publicação de By Its Cover) ou há uma completa omissão.  Trata-se de um curioso caso em que a preservação da memória bem como a produção de textos reflexivos e explicativos sobre esses portfolios está quase e apenas nas mãos de outros designers. (Devo dizer, em abono da Grove, que espero ainda a chegada de uma cópia da volumosa antologia da década 1957-1967, publicada em 1968 e onde espero ainda encontrar algo de interessante sobre ou mesmo de Kuhlman, que era então ainda o designer da editora.)

Essa sensação de omissão tive-a há pouco ao descobrir o catálogo de um editor inglês ferrenhamente independente desde 1951, Peter Owen. Na sua edição comemorativa dos 50 anos de actividade, em nenhum momento, nem mesmo no prefácio de Owen, se refere o designer e artista plástico australiano Keith Cunningham (nascido em Sidney em 1929 mas radicado em Inglaterra desde o fim dos anos de 1940). Não fosse a reprodução de 4 capas suas dos anos 60 para a editora de Owen em Communicate (Lawrence King, 2004, coordenado por Rick Poynor), e eu não saberia sequer quem foi Cunningham e, sobretudo, o que ele tinha feito. Tal como o artigo online de Gall sobre Kuhlman, é na net e no site da própria editora que encontramos uma possível referência (há também um bom texto de Kit Maude no Financial Times). Tal como Kuhlman fizera na Grove, o que se vê neste porfolio é a personalização de uma editora através de um estilo gráfico (ao qual não eram estranhos os imperativos de contenção financeira na produção, incorporando-os até na sua identidade – Mike Dempsey dá mesmo ao seu texto o título “The Graphic Economist”, inicialmente publicado no “Design Week” e também publicado no seu blogue com mais reproduções), numa sucessão de capas brilhantes onde a Helvetica impera, pelo menos naquelas feitas nos 60. Aqui ficam algumas que pude encontrar no Ebay (a capa de Collages foi retirada do site da Peter Owen Publishers).

A excepção a esta série de editoras independentes históricas que não publicaram os portfolios dos designers que para elas trabalharam durante décadas poderia ser a New Directions. Como já aqui referi,  a atenção dada à relação com o designer dos seus livros pelo editor James Laughlin é já um facto indesmentível na história do design gráfico e editorial. Os seus testemunhos sobre o trabalho de Alvin Lustig datam já dos anos 40, bem antes da fama e do consenso sobre a sua qualidade na década seguinte, e a brilhante edição de The Way It Wasn’t em 2006 mostrou a paixão de Laughlin pela identidade visual da sua editora, com a reprodução de várias capas do catálogo histórico da New Directions. Acontece que esta não se limitou ao brilho de Lustig e continuou, até hoje, a produzir um sólido portfolio de capas (empregando nomes como Elaine Lustig-Cohen, a viúva de Alvin, Warhol, Chermayeff, Geismar, etc). Foi, pois, com algum espanto que notei que, apesar do excelente designer em cujas mãos a New Directions se entrega hoje, Rodrigo Corral, e do modelo perfeito criado já por The Way It Wasn’t, não parece estar nos planos próximos da editora a publicação de uma história desse marcante grafismo, que precedeu até o contributo de Lustig e – quando este ascendeu ao panteão modernista – continuou marcante após a sua fase.

In English soon.

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