Lolitas tantas

Acabo de escrever (para um projecto que ainda está sob o segredo da sua editora) um texto cauteloso (e talvez algo pretensioso) sobre a proximidade entre as duas mais famosas ninfetas da literatura dos últimos 200 anos, heroínas de outras tantas obras que redefiniram a forma de escrever: Alice (Liddell) e Lolita, a.k.a Dolores Haze. A ideia é a de que Alice poderia ter encontrado outra toca de coelho, ter entrado nela e ter saído 100 anos depois e do outro lado do Atlântico, com apenas mais 2 anos de idade, os 12 anos de Dolores quando Humbert Humbert fez dela a “sua” Lolita. E de que, se tivesse havido um encontro e um entendimento entre Vladimir Nabokov e Ralph Steadman, o genial ilustrador de Alice durante os anos de máxima fama de Lolita, o ponto de contacto entre as duas seria perfeito.

A radical aversão de Nabokov a qualquer tipo de ilustração para a capa das edições de Lolita (e muito menos, hélas para Steadman, a qualquer projecto de edição ilustrada) era sobejamente conhecida durante as duas últimas décadas da sua vida, que corresponderam à sua fama mundial, mas este filmezinho mostra que, como em muitas coisas da sua vida, a ambiguidade era de esperar. Vêmo-lo aqui (talvez em meados da década de 1960) num raríssimo momento de descontracção, longe do frenesi que o abalava na discussão dos mais pequenos detalhes das capas de cada nova edição.

A capa da primeira edição turca de 1959 arranca-lhe uma gargalhada sonora perante uma Lolita de lábios pintados e que parece mais velha do que o seu sedutor (que diria ele mais tarde da inenarrável capa turca de 1974?), mas guarda elogios para as edições holandesa, alemã e italiana. A sua admiração está contudo reservada para a edição francesa de bolso (Livres de Poche). Acho a sua escolha curiosa, porque contraria todas as recomendações escritas aos editores que se conhecem dele sobre o que não se devia pôr nas suas capas, e porque a ilustração dessa capa (de autor desconhecido) é, das que conheço, aquela em que Alice e Lolita mais se aproximam (como se Alice tivesse feito tranças, agora que já tinha 12 anos).

É tentador procurar saber se, ali na sua estante, estariam as edições da Olympia Press de Maurice Girodias, o primeiro editor de Lolita em 1955 (em 2 volumes, de cujo segundo possuo um exemplar) e a quem Nabokov não perdoou nunca tê-lo publicado na sua série de livrinhos pornográficos de capa verde “The Traveller’s Companion”, um ódio que não se dissipou com uma posterior edição integral em 1961 com uma capa interessante, de que tenho também um exemplar (um misto abstracto de borboleta com teia de aranha – afinal Humbert compara-se a uma aranha que tece a teia sobre a sua presa…), e nem com o facto de a primeira e brilhante tradução francesa (para a Gallimard) ter sido feita por Eric Kahane, o irmão de Girodias. Este, uma figura com uma vida extraordinária à espera de um filme (e que lutou valentemente em tribunal contra a violenta censura ao livro de Nabokov, sem qualquer ajuda do autor que não queria prejudicar o seu posto em Cornell), não merecia estar fora daquela estante.

In English soon.

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