Wishful thinking

Definitivamente sem o mesmo entusiasmo de há quase um ano, quando escrevi um post sobre a primeira edição dos Prémios de Edição LER/Booktailors, e fazendo-o, desta vez, apenas como um mero observador do evento e já não como um concorrente, aqui ficam algumas palavras sobre o que pude apreciar desta segunda edição.

Dado que muito pouco mudou no figurino do evento – fora a inclusão de um ou outro Prémio Especial (de atribuição directa, não sujeita a escrutínio) e a remissão dos vencedores para o Prémio Best Book Design From All Over The World atribuído pela Stiftung-Buchkunst – posso manter tudo o que escrevi há um ano no que toca a “sugestões”. A razão para essa falta de entusiasmo acima referida ficou já expressa num primeiro texto postado há dias no blogue da Livros de Areia, e a maior causa da preocupação que aí manifestei acabou por ser confirmada em alguns dos resultados finais, anunciados na noite de 6.ª-feira na Póvoa de Varzim.

Na resposta de Nuno Seabra Lopes (NSL) dos Booktailors (co-organizadores, com a LER, dos Prémios) e seguintes comentários ao post na Livros de Areia, apercebi-me de uma relação deficiente entre as 2 entidades quanto à sustentação financeira do projecto. Sabe-se das dificuldades por que passam as empresas aglutinadas no grupo Bertelsmann em Portugal (das quais a Quetzal faz parte), mas daí a que a LER (sustentada pela Fundação Círculo de Leitores) não tenha sequer os meios de, como sugeri há um ano, produzir e publicar um pequeno volume, um suplemento (formato A5, agrafado, sem luxos) que funcionasse ao mesmo tempo como lista dos projectos a concurso e como um anuário de design editorial, é de espantar.

Mas a verdadeira razão do meu cepticismo face a esta edição e, sinceramente, ao futuro dos Prémios, prende-se com algo mais simples do que financiamento: credibilidade. Já o expus no post de há dias, por isso quanto mais directo melhor: que credibilidade pode ter um Prémio quando, na sua base, existe um flagrante conflito de interesses, e a vários níveis, entre as funções de presidente do júri (por inerência do cargo de director da LER) e director de uma das editoras na corrida aos prémios (falo, claro, de Francisco José Viegas e da Quetzal), e entre membro(s) do júri e responsável(/eis) pelo design ou a direcção de arte de 3 das capas na corrida, todas da mesma Quetzal (falo da empresa RPVP Designers)? A pergunta saiu longa, pelo que vou refazê-la em sentido prático: algum editor pagaria os portes do envio de 3 exemplares por cada título a concurso sabendo que estaria a enviá-los não a um júri “neutral” mas para as mãos de 2 ou 3 concorrentes directos? Numa questão de ética elementar (como me parece ser esta), é-me completamente indiferente saber se, como afirma NSL, o presidente do júri Francisco José Viegas pediu “escusa de voto” ou não. Se o fez, então o seu lugar no júri estava imediatamente esvaziado de qualquer significado, e deveria 1) ter abdicado em favor de outro representante da revista e 2) ter-se assumido, desde o início, como um dos editores na luta pelos prémios (o regulamento destes dita que são os editores que concorrem, e não os designers, o que poderá bem ser outro dos seus problemas).

O mesmo creio que se pode apontar aos RPVP designers, que, além do seu trabalho para a Quetzal, são colaboradores da própria Booktailors (é, aliás, nesse papel que estão no júri). O regulamento é omisso no que toca à previsão e resolução de conflitos de interesses (outro problema a resolver), mas ser membro de um júri que escolhe, à porta fechada, os projectos para as shortlists, e ser, ao mesmo tempo, responsável pela autoria (como editor, designer ou director de arte) de projectos que acabam nessas shortlists (logo, concorrentes directos aos prémios), parece-me ser simplesmente inaceitável.

Parte da culpa destas confusões de identidade dos Prémios deve ser assacada directamente à Booktailors. Entendo o desejo de “fazer crescer” o projecto, mas esse desejo fez com que aos Prémios se associassem entidades como, além da “institucional” DGLB, a Câmara da Póvoa de Varzim (que detém e paga o evento Correntes d’Escritas) e, durante o evento, (mais uma vez) a Quetzal, que “publicou” com os Booktailors um número “especial” da revista digital destes. Creio que os prémios beneficiariam com uma maior independência da empresa que os lançou face a estas “tangentes”, e uma maior transparência no alinhamento do júri, identificando todos os seus membros pelo nome e uma curta biografia profissional. E se a LER, pelos vistos, pouco faz pelo projecto, para quê mantê-la na designação oficial e dar-lhe um lugar no júri?

Há dois anos, em conversa com um designer que trabalha para uma das editoras de “referência” no mercado, perguntei-lhe se iria concorrer, ou convencer os seus patrões a fazê-lo. A resposta foi um rotundo não, ao qual não faltou uma sombra de desconfiança irónica sobre os Prémios. Desde aí, sei de pelo menos mais dois ou três editores que se interrogam sobre a validade de gastar dinheiro e tempo a enviar livros para concurso, não tendo nenhum deles enviado nada nestas duas primeiras edições. Quanto a mim, apenas posso assegurar que vou tentar manter o mesmo sincero entusiasmo com que recebi o anúncio dos Prémios. Como com tudo o resto em Portugal, isso passará por largas doses de wishful thinking e uma gradual e voluntária cegueira a algumas evidências. Mas a isso já vamos ficando todos habituados.

2 Comments

Filed under Eventos, Soltas

2 responses to “Wishful thinking

  1. Rui A. Machado

    Caro Pedro Marques,

    Não dê mais a esta questão uma importância que não merece. Está perante os olhos de todos a irrelevância destes prémios criados por uma entidade privada que é paga para servir de consultora aos clientes que premeia. Parece-me que um bom editor saberá quando se deve afastar de meios infestados de todo o tipo de interesses pouco éticos e duvidosos.

    Dedique-se antes a continuar o excelente trabalho que tem desenvolvido neste blogue, e a favor de várias editoras, em prol do design gráfico.

  2. Rui, obrigado pelo seu feedback.
    Tudo o que diz respeito ao design editorial por cá me interessa, e tenho de confessar que quero ainda ser optimista quanto a estes Prémios. Mas questões de ética são muito importantes em design (são-no para mim, pelo menos), e continuo a achar que, no caso de concursos públicos ou privados e de prémios, estes conflitos de interesses devem ser apontados, mesmo no meio do desinteresse ou do cinismo geral.

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