A sorte de James Dickey

Imagine-se um poeta consagrado, que apenas tivesse publicado poesia e desse aulas numa calma universidade do estado onde nascera. Imagine-se que esse poeta decidia publicar um romance, e que esse romance, o seu primeiro, se tornava não só num fenómeno de vendas como atraía as atenções de um estúdio de Hollywood e de um dos melhores realizadores. Imagine-se que a adaptação para filme desse romance dava não só um dos melhores filmes jamais feitos na América, como também que o nosso poeta/romancista conseguia um pequeno mas impactante papel no filme.

Tudo isto aconteceu a James Dickey (1923-1997), que, por 1970, ano em que a Houghton Mifflin publicou Deliverance, era já um poeta consagrado (vencedor do National Book Award em 1965, nomeado Poet Laureate em 1966). O romance tornou-se rapidamente um best-seller e atraiu a atenção de John Boorman, que em 1972 lançou a sua adaptação do livro, um dos filmes que mudou Hollywood e um sucesso financeiro, hoje considerado uma obra-prima indiscutível. Nesse filme, Dickey revelou-se, para surpresa de todos, um actor dotado ao interpretar o Xerife Bullard (Prova A), cujos olhos se enchem de suspeita e melancolia quando, no final, pede a Ed/Jon Voight que “não volte mais ali” (para mim, sinceramente, uma das personagens secundárias mais inesquecíveis de que me lembro em filmes, e tudo graças ao rosto e ao olhar de Dickey nessa cena).

Prova A

Como se isso não bastasse, a sua sorte nesses anos cruciais estendeu-se à forma das edições do romance, pois teve o serviço de um designer inspirado a criar as capas das edições de hardback e depois paperback. Paul Bacon era, por esses anos, a referência na edição comercial, o criador “não-oficial” do estilo “big book look”, com capas onde a síntese gráfica e a relevância tipográfica dada ao nome do autor dominavam. O seu nome não aparece em histórias do design gráfico, mas no excelente By Its Cover (Ned Drew e Paul Strenberger, Princeton A.P., 2005) podemos encontrar alguns fabulosos exemplos do seu portfolio e um texto que faz despertar a sede de saber mais sobre este designer (que era um amante do jazz antigo e tocava “pente” e kazoo numa banda com amigos).

Prova B

Possuo um exemplar da edição paperback da Dell de 1970 (logo, anterior à avalanche das horríveis capas das edições tie-in posteriores ao filme), e não se encontram aí referências à autoria da ilustração, mas as suas semelhanças com a ilustração da 1.ª edição de capa dura da Houghton Mifflin (Prova B) são óbvias. Adoro a contenção da paleta de cores nesta edição da Dell, o verde “doentio”, dessaturado (que se estende à tintagem das arestas do papel, Prova C), o uso das capitulares condensadas. É um misto muito inteligente de comercialismo puro e sofisticação, com uma aura surrealista naquele olho no céu. Mais interessante ainda é a variação de estilo do hardback para o paperback, de uma solução mais plana e bidimensional, com o uso generoso dos vazios e o impacto do contraste do verde sobre o negro, para uma ilustração mais pictórica, quase fotográfica, com os ramos muito realistas a convergirem em círculo para o olho central. Como verdadeiro jazzman, Bacon  soube criar duas excelentes versões de um mesmo tema.

Prova C

O única monografia sobre Bacon que encontrei é um catálogo de uma exposição na Sordoni Art Gallery em 1999 (The Graphic Art of Paul Bacon, Prova D), mas continuo a achar as 4 páginas dedicadas a ele em By Its Cover imprescindíveis como referência (e, pelo design,  superiores).

Prova C

JAMES DICKEY’S GOOD FORTUNE
Imagine a well known poet, who had published nothing but poetry in his life and who was a teacher in a quiet college of his home state university. Imagine that he decided to write a novel and that that novel, his very first, became not only a best seller but attracted the attention of a Hollywood studio and one of the best filmmakers. Imagine that the resulting film would not only turn out to be one the best ever made in the US, but that our poet/novelist would have in it an acting role of striking impact.

All this happened to James Dickey (1923-1997), who, in 1970 when Houghton Mifflin published Deliverance, was already a famous poet (winner of the National Book Award in 1965, designated Poet Laureate in 1966). The novel quickly became a bestseller and caught the interest of John Boorman, who in 1972 released his film version of the book, one the films that changed Hollywood forever and a huge financial success, considered today a true masterpiece. In that film, Dickey showed an unsuspected talent for acting, playing the part of Sheriff Bullard (A), whose eyes fill with suspicion and sadness when, at the end, he tells Ed/Jon Voight “don’t come back here” (trully, to me, one of the most unforgetable supporting characters I can remember in any film, due to Dickey’s eyes and voice in that scene).

As if all of that wasn’t enough, his good fortune extended to the design of the novel’s cover, for he was given the services of an inspired designer for the hardback and paperback first editions. Paul Bacon was, in those years, the reference in commercial publishing, the unofficial creator of the “big book look”, with covers where the graphic synthesis and economy and the typographic relevance to the author’s name prevailed. His name is absent from graphic design history tomes,  but in the excellent By Its Cover (Ned Drew and Paul Sternberger, Princeton A.P., 2005) terrific samples of his portfolio can be found and a text that makes one want to know more about this designer (a lover of traditional jazz who played comb and kazoo in a band with his friends).

I have a copy of Dell’s 1971 1st paperback edition (preceding the awful tie-in editions paperback covers that came after the film), and, to be sure, there’s no reference anywhere to who was the designer of the cover, but its similarities to the illustration on Houghton Mifflin’s 1st hardcover edition dustjacket are too obvious to ignore. I just love the wisely limited color range in this Dell cover, the sickening desaturated green (that extends to the staining of the trimmed edges, C), the strong condensed uppercase. It’s a shrewd mix of full-out selling power and sophistication, with a surrealist aura to that eye in the sky. More interesting is the change in style from the hardback to the paperback in presenting, basically, the same theme: from a flat color illustration, with generous use of space and the impact of green on black, to a more realistic, almost photographic image. Like a true jazzman, Bacon was able to create two excellent and different renditions of the same theme.

The only monograph on Bacon I could find so far is a catalog from an exhibition at the Sardoni Art Gallery in 1999 (The Graphic Art of Paul Bacon, D), but I still find the 4 pages dedicated to him in By Its Cover essential reading (and, design-wise, quite better).

3 Comments

Filed under Capas

3 responses to “A sorte de James Dickey

  1. Pingback: “Omertá” ao estilo japonês? « Montag : by their covers : resgate do fogo

  2. Pingback: Amargo Pesadelo – A Epopéia de Boorman e Dickey « Um pouco de tudo

  3. Pingback: Design gráfico na ficção: o caso de Deliverance de James Dickey | Montag : by their covers : resgate do fogo

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s