Design gráfico na ficção: o caso de Deliverance de James Dickey

Há tempos Mário Moura referiu uma lista de livros de ficção onde o design gráfico (ou os designers gráficos) fosse parte essencial ou importante da narrativa. A essa curta lista lembro-me de lhe ter sugerido, como acrescento, The Learners de Chip Kidd (sobre o qual já escrevi aqui). Estando agora a ler Deliverance de James Dickey, descubro, no seu capítulo inicial (uma espécie de prólogo em que ficamos a conhecer a personagem principal e narrador da acção), que Ed Gentry (interpretado no filme de Boorman de 1972 por Jon Voight) dirige uma pequena agência de publicidade em Atlanta.

O prólogo é quase todo construído à volta de umas horas pouco produtivas na sua agência, na tarde que precede a ida para a fatídica aventura do fim-de-semana. Quando regressa do almoço, Ed tem à espera o layout de uma campanha publicitária para uma linha de lingerie chamada Kitt’n Britches. O cliente é, como todos os que sustentam a sua agência, local e com um nível de exigência que se traduz na descrição que Ed faz do comercial da empresa: “an incredible countrified jerk”. Apercebemo-nos de que Ed se vê sobretudo como um “mecânico” do design, alguém que se sente satisfeito com um certo nível de proficiência (sobretudo na montagem de layouts para os anúncios de imprensa) e reconhece o seu nicho num mercado local medíocre (“I had won a couple of modest awards for art direction around town, where admitedly the competition was not of the first class”). Ed passou dos 40 anos mas o seu percurso no design, e por própria admissão, parou há muito num porto seguro: sabe que não passará daquilo.

Trata-se de um retrato muito curioso, e cheio de detalhes, do mercado das agências publicitárias de “província” (leia-se, fora da Madison Avenue) e aí aproxima-se de The Learners de Kidd, com a sua meticulosa descrição de uma agência na costa Leste no início dos anos 60 (a acção de Deliverance passa-se certamente pouco depois), sobrevivendo com as velhas receitas ao mesmo tempo que de Nova Iorque chegam as novidades da Creative Revolution, que irá tornar essas receitas obsoletas antes do fim da década (uma das linhas de tensão narrativa da primeira temporada da série Mad Men reside precisamente neste ponto).

Resta a pergunta: porque decidiu James Dickey atribuir à sua personagem principal esta profissão? Dickey tinha trabalhado como copy numa agência de Atlanta nos anos 50, e tinha odiado a experiência. Ed é apresentado com alguém que perdeu o contacto directo com a vibração sensorial do mundo, alguém que medeia o contacto com esse mundo através de “layouts”: o mapa da região onde vão passar o fim-de-semana que Lewis lhe mostra é apenas uma “representação” gráfica (“I looked down at the map again but now as though it were a layout. It was certainly not much from the standpoint of design.”), e a sua fugaz atracção pela modelo da foto para a campanha de lingerie é sublimada no trabalho com os elementos no estirador, “bringing the girl forward and moving her back, until I thought I had what was a good compromise, with the type centering around the girl’s hips”.

O design gráfico parece ser aqui uma metáfora para o grau de evolução cultural da espécie em que a acção directa sobre o mundo se diluiu em representações de representações, em que objectivo financeiro da actividade se sobrepôs completa e definitivamente às suas ligações com a expressão de uma individualidade, com o que mais assusta Ed: a assunção do design como uma forma paralela de expressão artística (ele conta como teve de despedir uns anos antes um designer que insistia numa ligação do design à arte, em procurar inspiração na tradição artística modernista). Na sua afirmação de masculinidade na meia idade, associar o seu trabalho à “arte” é quase uma admissão de feminilidade.

Será Ed que cumprirá a libertação dos instintos primordiais que o título do romance promete, mas para o fazer terá de se desfazer desses recalcamentos culturais, dessa “pele” de civilização, e dessa mentalidade a que a sua prática de designer o confinou.

E resultou? No final do romance, vemos que Ed mudou, que o prazer voltou ao seu trabalho na agência. Mais importante: deixou de recear as associações lúdicas e criativas do design à arte contemporânea, e readmitiu o funcionário que despedira. Já não tem receio de cortar,  moldar, deformar as imagens fotográficas nos layouts. As colagens (“full of sinuous forms”) são agora o seu meio de expressão favorito. (Ed não refere quaisquer nomes de designers que pudessem influenciá-lo antes da sua libertação, mas é notório que, depois dela, o seu espírito está mais aberto ao diálogo com a vanguarda e com formas novas).

Dado que a função de designer gráfico funciona aqui como um véu diáfano sobre a de escritor (ambos vivendo da produção e reprodução de signos e afastados em vários graus da essência da “vida”), é algo irónico saber que Dickey não obteve qualquer libertação e iluminação com o sucesso de Deliverance, antes pelo contrário: a sua criatividade e vida pessoal, tal como a sua saúde, não resistiram aos apelos da fama e entraram em lenta decadência. O seu último acto terá sido a sugestão do título da sua biografia ao seu autor, um título que trai a genuína e dura vitória que Ed Gentry, o designer gráfico de Atlanta, conseguira no romance: The World as a Lie.

In English soon.

(Deliverance, James Dickey, Dell, 236 pp, 1.ª edição paperback, 1.ª impressão, 1971)

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