“We insist on being fresh”: o Pequeno Livro Vermelho da Irmã Corita

“Encontrei-a”, se assim se pode dizer, há quase 10 anos, ao folhear uma Eye na Leitura do Porto. Se o tema do artigo era já suficiente para prender a atenção (uma freira que fazia design gráfico), a qualidade do trabalho aí reproduzido era realmente boa. O livro Come Alive!, escrito pela autora desse artigo, Julie Ault, poderia ser e será certamente uma boa porta de entrada no universo gráfico de Frances Elizabeth Kent (1918-1986), conhecida como Sister Corita Kent. Mas optei por procurar algo original, algo de época, e este Footnotes and Headlinesa playpray book (Herder and Herder, 1967) é simplesmente perfeito como portfolio do seu trabalho desses anos.

Trabalhando no espírito de liberdade e experimentação saído do Concílio Vaticano II, a irmã Corita viveu e fez o seu trabalho na Comunidade do Imaculado Coração em Los Angeles. A abertura aos novos tempos reflectiu-se nas suas colagens e serigrafias, que levavam a Arte Pop a um nível de frescura e candura que estava vedado aos artistas mais “cínicos” e “críticos” do mundo secular: para ela, Jesus estava também e de facto no brilho do néon e nas cores e letras dos milhares de cartazes e anúncios de revistas que ela via nas suas saídas e usava como inspiração. Talvez mesmo só o Warhol da fase pré-Valerie Solanas, anterior a 1968, pudesse partilhar um tal deslumbramento ingénuo face ao brilho multicolorido dos novos tempos. Forçadas a optar entre essa visão mais “mundana” da espiritualidade cristã e a ortodoxia defendida pelo conservador Arcebispo de LA, as irmãs optaram pela cisão com a hierarquia da Igreja Católica em 1969.

Não tão famoso como Yes (publicado em 1969 pela Comunidade, no seguimento da sua histórica ruptura) ou Damn Everything but the Circus (um tour de force técnico e visual publicado pela Holt, Reinhart and Winston em 1970), livros consideravelmente caros já para um bolso mediano, ou ainda o mais tardio Learning by Heart (1982), este é um livrinho mais acessível e cuja forma segue à risca o título: uma explosão de colagens e manipulações tipográficas com base nas manchetes de jornais e revistas ou cartazes nos três quartos superiores do plano, e pequenas anotações de texto em baixo (versos livres, listas, recortes de dicionários, etc). Quase podemos sentir o choque que deve ter abalado as mãos do Arcebispo ao abri-lo: não era apenas a imagem da mensagem católica que estava em causa (e só isso daria motivos de muita indisposição), era, como deixaria bem claro McLuhan nesse ano de 1967, a própria mensagem. Tal como em The Medium is the Massage, o design gráfico (e aqui Corita é mais designer gráfica do que “artista”: o meio do livro condiciona visivelmente a apresentação de imagens e textos, com o confinamento destes aos limites do plano da página, por exemplo) está ao mesmo nível do conteúdo escrito, quando não o substitui até. Tal como Quentin Fiore, Corita é autora do livro porque é a originadora da sua forma visual.

(Como não lembrar-me de que os meus primeiros gatafunhos feitos fora de casa o foram numa creche/externato de freiras em Luanda, ali por 1974-75, onde nunca me forçaram qualquer imaginário cristão, e os meus desenhos de Kalachnikovs e para-quedistas eram aceites com bonomia? Estaria ligado à mesma veia “liberal” da Comunidade da Irmã Corita? Pouco provável, naquele local e naquele ano.)

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