Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (II)

AGOSTINHO
Alberto Moravia
tradução de Gomes Ferreira
capa de Sebastião Rodrigues sobre fotografia de Sena da Silva
Ulisseia, Lisboa 1959

Terá sido editado antes, mesmo no final dos anos 50, mas eu só o vi nalgumas montras (ou só mesmo na 111, por trás do balcão?) em meados dos anos 60, a edição tivera problemas com a censura (como outras desta editora fantástica). E só o comprei há meses, nos alfarrabistas da Rua Anchieta. São os anos de início do trabalho gráfico de Sebastião Rodrigues e, na colecção “Sucessos Literários” da Ulisseia, ele marcou o tempo usando as extraordinárias  fotografias (em altíssimo contraste) de Sena da Silva (seu amigo e meu, mestre do design nesta terrinha). Havia um romance de Faure da Rosa em que a capa era uma fotografia da actriz Isabel de Castro, nessa altura cunhada do Sena da Silva, mas eu perdi o livro (De Profundis, creio). Agostinho é um breve relato de uma adolescência, a descoberta do sexo, dos corpos – e eu creio que o li, pela primeira vez, em inglês, na Penguin, numa edição muito baratinha com mais outras novelas de Moravia. Rápido, breve (não é a mesma coisa), é um relato maravilhoso (e um tema a que os italianos tanto ligaram, do Pavese de A Praia à maravilhosa Morante da maravilhosa Ilha de Arturo). Esta é uma capa perfeita: reparem no uso que Sebastião Rodrigues faz dos cabos, da sombra que aumentou no interior dos barcos (sombra na alma das personagens?), reparem na leveza das letras, em como tudo é claro, meridiano, simples como a vida deveria ser. Na mesma Ulisseia, Sebastião Rodrigues, o génio, haveria de aventurar-se na aventura (sim: pleonasmo intencional) extraordinária do Almanaque, noutras capas mais gráficas ainda, para depois marcar a imagem da Gulbenkian dos anos 60. Ainda ontem vi o programa do Piccolo Teatro di Milano em Lisboa, só grafismo e que maravilhoso programa!  Sebastião Rodrigues ainda irá criar a BAB (a Biblioteca Arcádia de Bolso) mas começa a sair dos livros – e a Ulisseia, daí a pouco (e com Vitor Silva Tavares), passa para as imagens criadas por Espiga Pinto e logo depois Rocha de Sousa (belíssima capa, a do Gadda, O Conhecimento da Dor). Eu tenho particular carinho por estes primeiros trabalhos de Sebastião Rodrigues: porque adorava o Sena da Silva (o homem, a delicadeza, o artista, o convívio…), e adoro as suas fotografias. E gosto deste mano-a-mano que, modernos, eles conseguiram.

Jorge Silva Melo

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