Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (III)

CAIS DAS BRUMAS
Pierre Mac Orlan
tradução de Freitas Leça
capa de Bernardo Marques
Livros do Brasil, s/d

OS HOMENS E OS OUTROS
Elio Vittorini
tradução de Elena Ricci Pinto e Wilson Pinto
capa de Vítor Palla
uma ilustração de Renato Guttuso (retrato do autor)
Gleba, Os Livros das Três Abelhas, s/d

Sobre a Lisboa do pós-guerra, contava-me a actriz Glicínia Quartin, no filme que realizei sobre ela: “Foi quando começámos a ver o cinema francês, sempre com uma carga poética muito grande. Era uma estética nova, poética, eram os temas, os conteúdos, a maneira como eram apresentados, os grandes sentimentos e também a sua humanidade, eram pessoas como nós. Foi a primeira corrente estética descoberta pela nossa geração, a geração do pós-guerra, estávamos todos pelos vinte anos.  E os realizadores, o Carné, o Cocteau… Fui muito tocada por essa visão poética. Os franceses fugiram do naturalismo, era outra coisa, mais criativa, era uma fuga para a poesia e para a fantasia.”

Ora, este breve e lindo romancinho de Pierre Mac Orlan está na origem do belo filme de Marcel Carné: brumas, candeeiros, gabardinas, um pouco de jazz. “É Nelly, e é a única mulher naquela sala cuja cabeleira não está cortada pela nuca. Ela reina no dancing como uma divindade da rua, mas da rua esquecida pelas mais loucas prodigalidades de quantos escaparam ao massacre. O perfume secreto do dancing, como o de 1919, é ainda o odor enjoativo do sangue.”, etc.  Não me fica nada bem, mas nem sabem como eu gosto deste naturalismo tardio – a que chamaram populismo ou, na fotografia, “humanismo”, dancings, portos, cais, hotéis – e Jean Gabin, o proletário!

Não sei de quando é esta edição portuguesa, comprei-a em 1964, numa papelariazinha ao pé do Marques de Pombal, subindo do metro até casa. Eram livros baratos (custavam 12$50), lindos, lacrados com cola (o receio do contágio da tuberculose ainda durou pelos anos 60 dentro), e desenhados por Bernardo Marques, edições perfeitas. Marques é o capista delicado, leitor bem atento , o  homem que fez as capas dos Livros do Brasil, na Luz Soriano, mesmo ao pé de sua casa, ao dobrar a esquina, a primeira à direita, quando ia a caminho do SNI, para o qual também trabalhou e tanto – e com o “bom gosto” que defendia ( Panorama…). O homem que desenhou com quase nada as ramagens de Sintra e as personagens de Eça (e de Thomas Mann), não podia deixar de entender bem esta atmosfera fugidia e lúgubre, soturna, este Paris macambúzio e frenético: como é perfeita a linha de fuga da descoberta que se vê pela porta, como é “poética” a sombra da esquerda, como é extraordinário o copo com palhinha do refresco, mesmo à esquerda da mesa… Estes livrinhos da Miniatura eram todo um mundo delicado, fim de um mundo até. Aquele de que falava Glicínia quando falava do cinema francês desses anos 45. Mas ainda durava, essa paleta, delicadamente melancólica pelos anos 60 de Bernardo Marques nesta colecção perfeita, ainda o entrevi. E Marques irá para a Gulbenkian, não esqueçamos, uma continuidade.

Mas, nesses mesmos anos do pós-guerra, na outra colina de Lisboa, na Rua da Madalena, à Mouraria, uns rapazes uns bons vinte anos mais novos (Aurélio Cruz, Victor Palla e Cardoso Pires lá pelo meio…) juntavam-se, criavam uma editora, a Gleba, inventavam uma colecção, os Livros das Três Abelhas (que mais tarde foi exportada para a Europa-América). E propunham uma outra literatura, a americana, a italiana, a grega da resistência (o grande André Kedros). E embora, nas duas colecções, surjam autores comuns, percebemos que a Miniatura se centrava sobretudo na delicada França racional de André Gide e sobretudo de Romain Rolland (é nela que surge o Jean-Christophe de todas as iniciações adolecentes) e vai, catálogo da Gallimard por ali fora, até Camus, já nas 3 Abelhas, passamos à luta politica tal qual: Miller (o Caixeiro), Lorca (a Bernarda, traduzida por José Gomes Ferreira…),  Manuel da Fonseca, o extraordinário contista, o Vittorini marxista deste admirável Homens e os Outros.

E as capas são desse homem multímodo, exigente, inesperado, multi-talentoso que foi Vítor Palla. E Palla é imbatível: aprendeu com as grandes artes gráficas alemãs (a Neue Sachlickeit e o seu gosto pelos contrastes agressivos), devorou os princípios do realismo social americano (a colecção das Três Abelhas – “os melhores livros para os melhores leitores” –  nasceu ecoando os populares Signet Books, papel grosseiro, grandes tiragens, cores fortes…), conhecia bem os italianos marxistas (neste livro há uma reprodução do retrato de Vittorini por Guttuso). Esta capa (e Palla terá feito mais de uma centena de capas, antes e depois desta e outras tantas por assinar…) é todo um programa depois de Auschwitz: arame farpado, o vermelho e negro, as letras em todas as direcções. E o surpreendente logo da colecção (ao que parece, uma parodia ao emblema da Mocidade Portuguesa Feminina, disseram-me).

E dizia-me ainda a Glicínia Quartin (que foi amiga de ambos, do delicado Bernardo Marques, “muito bem educado”, e do intempestivo Palla, sempre vibrante nas polémicas e nas convicções): “Foi nos cineclubes que descobrimos o cinema italiano, que surgiu um pouco depois do cinema francês. Era mais combativo, mais rebarbativo, mais social, no fundo.”

Ambas estas edições – em data, as duas – comprei-as em papelarias normais por onde passava, vindo do liceu (63?, 64?), a pé para poupar na semanada – papelarias onde a exposição dos livros durava tempo,  não apenas os quinze dias desta nossa vergonha de hoje.

E os meus anos 60 eram feitos destes livros que vieram dantes. Diria eu agora: destas duas capas contemporâneas mas onde podemos ver dois mundos, dois tempos, dois programas – e até, quem sabe, pensar  na “luta de classes”.

Jorge Silva Melo

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