Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (IV)

TECLADO UNIVERSAL
Fernando Lemos
com um prefácio de Jorge de Sena
colecção Circulo de Poesia
capa de José Escada
Livraria Morais Editora, Lisboa, 1963

Sempre foram especiais – e quase sempre muito belas – as colecções de poesia por cá, onde, ao contrário de outros lugares, a poesia não andou reduzida a editoras especializadas (excepção à beleza: as da Dom Quixote dos anos áureos, Cadernos de Poesia...com a cara do poeta em negativo, mais feio seria impossível).  Pelo contrário, quase todos os grandes editores (excepções: a Bertrand, a Livros do Brasil, e depois a Europa-América) quiseram, a certo passo da sua afirmação intelectual, ter uma colecção de poesia (para perder dinheiro e ganhar respeito crítico?), onde, como é natural ,”a marca” da colecção e a “garantia” da editora  será mais importante do que a especificidade daquele livro.  Possivelmente marcadas pela bela colecção da Ática dirigida por Luis de Montalvor, onde o cavalo alado de Almada surgia trazido pela brisa da poesia, muitas foram as colecções que quiseram mais um logotipo do que uma capa. E assim foram os trabalhos de  João da Câmara Leme para a Portugália, as capas da Guimarães, mais tarde, as de Armando Alves no Porto dos anos 70-80 (ah, o Ouro do Dia)… A Morais, editora fundada por António Alçada Baptista, congregando os jovens vindos da militância católica (e do jornalismo universitário, pois quase todos vieram do importantíssimo jornal Encontro, da JUC, dirigido durante os seus “esplendor na relva” por um João Bénard da Costa de 17-18 anos e já genial), quis, desde os primeiros meses, lançar colecções distintas (textos católicos no “círculo do humanismo cristão”, “cadernos de poesia”). E seria o muito jovem pintor (e militante católico) José Escada (articulista,crítico mas também paginador e ilustrador do Encontro e que já fizera singelas e muito belas ilustrações dos Fioretti  de São Francisco, na mesma Moraes) quem iria desenhar esta capa, (mais do que capa: este logo especial), pensar esta colecção belíssima; capa de linho, o título colado, sobrecapa de acetato duro nos primeiros anos. Vista agora, a colecção é menos interessante do que na altura parecia (o seu prestígio era mesmo enorme nos círculos universitários – e o preço alto para os nossos tostões), e muitos dos autores publicados  foram-se sumindo na areia do tempo. Outros são livros imprescindíveis, como Metamorfoses de Jorge de Sena, Livro Sexto de Sophia, a afirmação do grande poeta do grupo, Pedro Tamen, a breve poesia de Cristovão Pavia, a recuperação de Nemésio, esse nómada de génio. E este Teclado Universal de Fernando Lemos (que só consegui comprar há dois anos, nesse paraíso borgesiano que é a Rua Anchieta dos sábados de manhã, 1.ª edição, 15 euros… e acabei, logo a seguir, por pedir autógrafo ao Lemos!), prefaciado por Jorge de Sena, a segunda recolha de poesias deste artista multímodo que, logo nos anos a seguir ao MUD, se foi para o Brasil (onde ainda vive e de onde vem de vez em quando, para alegria intensa de todos os que, por cá, tanto o amamos).

De si próprio ele diz, como só ele sabe: Fui estudante, serralheiro, marceneiro, estofador, impressor de litografia, desenhador, publicitário, professor, pintor, fotógrafo, tocador de gaita, emigrante, exilado, director de museu, assessor de ministros, pesquisador, jornalista, poeta, júri de concursos, conselheiro de pinacotecas, comissário de eventos internacionais, designer de feiras industriais, cenógrafo, pai de filhos, bolseiro, e tenho duas pátrias, uma que me fez e outra que ajudo a fazer. Como se vê, sou mais um português à procura de coisa melhor. (Fernando Lemos)

Jorge Silva Melo

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