Arte em tempos de crise

Eric Gill entrou no domínio público este ano, cumpridos os setenta anos sobre a sua morte. E que melhor ano para isso do que este 2010 em que a onda da crise de 2008-09 parece ganhar força e prometer mais devastação? A obra ensaística de Gill, dominada pelo estudo dos efeitos do capitalismo sobre a produção artesanal e artística (uma obsessão da geração que procurou manter os princípios do Arts and Crafts pelo século XX dentro) pode assim, em pleno cenário de crise capitalista, ter direito a um novo fôlego editorial.

Esta edição de Art, em particular, é, em rigor, uma reedição de 1946 da Bodley Head (fundada por Jonh Lane, o tio do fundador da Penguin) de um título seu publicado pela primeira vez em 1934 na mesma editora (Prova A), uma série de ensaios sobre a produção artística europeia desde a Idade Média, aos quais não falta um Art and Holiness, reflexão sobre a possibilidade do divino como fonte de inspiração, tema recorrente neste autor. Seis anos depois da morte do artista e ensaísta, e um ano apenas após o fim da Guerra Mundial, em plena era de racionamento e contenção, a capa desta segunda edição parece estar a séculos de distância da dos anos 30.

Prova A

A Gill Sans impera em ambas (como imperava já, por essa altura, nos livrinhos da Penguin), mas a segunda cor, a ilustração e a serenidade classicista deram lugar a um minimalismo radical e ao grau zero em valores de produção: apenas o título e nome do autor em caixa alta bold e um filete curto mas imponente, com impressão a preto sobre um papel de cor amarela. O mais espantoso nisto é que é o design desta capa, concebida depois da morte de Gill e composta, forçosamente, por outrém que não ele (ao contrário, certamente, da capa de 34), que consegue transportar a sua estética para o nosso tempo, que lhe dá plena garantia de imunidade à obsolescência dos estilos e das modas, mais do que qualquer outra capa feita por Gill ou sob sua orientação directa. O minimalismo do design, e em particular a importância do filete divisor e do recurso exclusivo à Gill Sans em caixa alta, poderão derivar da popularidade do esquema dos livros de bolso da Penguin, e a cor amarela em fundo sob a tipografia a negro remete um pouco para as capas da Gollancz desses anos, mas até essas soluções à epoca consideradas tão radicais parecem frívolas em comparação com esta capa da Bodley Head. Até a pequena estrela de cinco pontas que separa título e autor na lombada parece remeter para a iconografia militar, e quase parece pedir desculpa por ali estar. Vindo de anos dominados pela sinalética (e pela estética) militar, o rosto desta edição continua a servir, com precisão e eficácia, de sinal de atenção imediata. (Creio até ser para esta capa que a da edição de Design em tempos de crise de Mário Moura remete).

E se o design não chegasse para nos impor a ideia de urgência e contenção, teríamos apenas de retirar a sobrecapa e virá-la. Na face oposta, encontraríamos impressa a composição tipográfica de “outra” capa para “outro” livro, que é, no caso desta edição que possuo, The Works of William J Locke, Vol. XISimon the Jester (edição possivelmente dos anos 20 ou 30 – Prova B). Sendo o racionamento de papel em Inglaterra muito apertado, com as únicas excepções sendo livros produzidos no interesse da propaganda ou das forças armadas, a Bodley Head recorreu a velhas sobrecapas para a impressão desta edição de Gill. Não sei se o esteta exigente que ele era teria gostado, mas tenho a impressão de que um outro autor inglês por esses anos teria adorado o design e o aproveitamento de papel para a primeira edição de um dos seus livros: Nineteen-Eighty-Four de George Orwell teria tido, nesta forma espartana, a sua capa mais perfeita (mas em 1950 o aperto do racionamento já seria menor). Em consonância com esse contexto original e actual de crise, este livrinho (17 x 11 cm, 148 páginas) pode ainda ser encontrado por menos de 5 euros numa das livrarias da Amazon.

Prova B

In English soon.

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Filed under Capas, Livros, Tipografia

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