Cinco escolhas de Paulo da Costa Domingos

Poderão conhecê-lo como poeta. Poderão apenas conhecê-lo como o homem por trás do projecto editorial Frenesi. Os que viram o filme de Cláudia Clemente sobre a &etc e Vítor Silva Tavares lembrar-se-ão do seu depoimento apaixonado mas objectivo sobre os primeiros anos dessa editora. Outros conhecerão já a sua loja alfarrabista online (que não passou despercebida ao incontornável blogue Journey Around my Skull). No que me diz respeito, acho que Paulo da Costa Domingos é um verdadeiro divulgador de livros, no mais nobre e útil sentido: foi graças aos excertos que publicou no seu blogue que descobri o Shock Doctrine de Naomi Klein e, sobretudo, o Business of Books de André Schiffrin. Eis, pois, e em resposta a um repto meu, cinco escolhas suas. De notar, em especial, a capa de Grifo, que trai um olho atento do editor/grafista Vítor Silva Tavares ao que de melhor então vinha de França, no caso o alfabeto criado por Roman Cieslewicz para o Guide de la France Mysterieuse das edições Tchou, em 1964.

Um livro – e, mais exactamente, um documento tornado impresso – suscita a minha atenção apenas quando algo nele vem alterar o que está dado como senso comum ou por via de lei instituído. No resto, com melhor ou pior fortuna, melhor ou pior embalagem, melhor ou pior mercado, tenho para mim de que se trata de entretenimento. Alguns dos tais outros documentos impressos – que não estes últimos – até poderão ser livros de ensaio ou de estudo: os géneros, não os tenho por excluintes. Nem os movimentos culturais, nem as tendências. Claro que a primeira impressão que se colhe reside no isco gráfico exibido. Mas a minha decisão só vai para aquilo que consegue ultrapassar, pela riqueza interior, essa primeira leviandade de superfície.
Dito isto, e depois de depurar escolhas mais óbvias, reparo em cinco diversas publicações que, diversas ou no tempo, ou na intenção, ou no acabamento gráfico, ou noutro sinal de que foram portadoras, de algum modo marcaram a minha relação com o o Mundo e, por inerência, com o mundo editorial. São elas, pois:


A LANTERNA – FOLHA POLÍTICA
Editada em Lisboa, de 1868 a 1873

Melhor do que eu, fala-nos da sua atribulada vida editorial Inocêncio Francisco da Silva no Dicionário Bibliográfico Português, e que nos conta como umas exíguas folhecas panfletárias deram origem a «violentas polémicas na imprensa política do tempo, e a um notável processo, em virtude do qual esteve preso o dono da tipografia, [Joaquim Germano de] Sousa Neves, por não querer denunciar quais eram os responsáveis pelos vigorosos e revolucionários escritos desta folha, considerados abusivos da liberdade de imprensa e ofensivos das autoridades constituídas […]. Em todo o caso, revelou no seu autor um escritor talentoso e enérgico argumentador. O primeiro redactor, que não oculta a paternidade da sua obra, foi o sr. António Augusto da Silva Lobo, desde alguns anos estabelecido no Rio de Janeiro com uma empresa literária, e empregado na redacção das sessões das câmaras legislativas brasileiras. Seguiu-se-lhe, ostensivamente, Francisco Luís Coutinho de Miranda, que era seu amigo íntimo e companheiro inseparável do primeiro.»
As capas – o folheto aqui reproduzido até constitui o exemplo menos significativo – eram sempre de grande iluminação…


MARQUÊS DA BACALHOA
António de Albuquerque

Livro editado no início de Janeiro de 1908, a escassas semanas do regicídio. A indicação da Imprimerie Liberté em Bruxelas era pura mistificação para iludir as perseguições policiais ao impressor. Documento de imediato proibido e perseguido, mas que nunca parou de circular clandestinamente. Foi num contexto histórico de revolta popular armada generalizada contra a ditadura do ministro monárquico João Franco que surgiu este romance panfletário; e, no dia 1 de Fevereiro, o inevitável regicídio, assumido por Manuel Buíça e Alfredo Costa. Fossem os deputados António José de Almeida, Egas Moniz, Afonso Costa, etc., ou o escritor Aquilino Ribeiro, as prisões enchiam-se então de presos políticos, enquanto esquadras e quartéis iam sendo assaltados ou meramente destruídos à bomba. Timor, Moçambique, Angola, por exemplo, eram então autênticos viveiros de deportados… Só para se fazer uma ideia da influência ravacholista (a «poesia da dinamite») entre a população comum: a Carbonária, segundo o historiador Borges Grainha – que nem é único a dar à posteridade um tal retrato –, contava com algo como quarenta mil aderentes. «O lisboeta medroso foi substituído pelo lisboeta que dá tiros nos cafés…» (nas palavras de Raul Brandão). Deste mesmo modo, certos escritos da época, por seu turno, saíam dos entrefolhos da Literatura, descuidados na confecção estilística, respondendo à urgência do momento: consolidar uma opinião pública, legitimando d’avance a acção directa dos revoltosos.
Nunca se terá visto unanimidade mais geral, como a que os raros dicionários que se lhe referem patenteiam quando põem a sua garra sobre este autor: «escritor medíocre». E quando é Júlio Dantas, com a sua Ceia dos Cardeais, quem recolhe o elogio de «correcção formal», está tudo dito! Todavia, viviam-se dias pródigos em jornais de caricatura agressiva, e, entre o traço grosso e a reportagem de costumes, são esses os mais óbvios inspiradores da pena do nosso Albuquerque.
A caricatura na capa, de autor mantido anónimo, representa a grosseria do poder.


GRIFO
1970, Lisboa

Com fecho tipográfico a 30 de Abril de 1970, é uma antologia de inéditos organizada e editada pelos autores: António Barahona da Fonseca, António José Forte, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Manuel de Castro, Maria Helena Barreiro, Pedro Oom, Ricarte-Dácio e Virgílio Martinho. O objecto, graficamente foi concebido pelo futuro editor da casa & etc: Vitor Silva Tavares. Volume colectivo que, para nem chegar a ser proibido, e apesar do corajoso distribuidor Quadrante, circulou clandestinamente de mão em mão. Até hoje. O poema com que António José Forte participa dá o tom, de uma época em que as vagas revolucionárias do Maio de 1968 talvez ainda pudessem levar tudo à frente. A Portugal, haviam chegado a Coimbra no ano anterior. A capa é um mimo surrealista.


RECTROMERDÁRIO
Anónimo, 1975

Publicação com proveniência anónima, difundida em Lisboa apenas por mão de ardinas anarquistas no chamado Verão Quente de 75. Aparentemente impressa com meios técnicos rudimentares, mas dando especial relevo à articulação selvagem das imagens com texto, trazendo portanto o modernismo para a rua.
A capa recupera, cinicamente, o significado do libertador príncipe Valente (banda desenhada que Harold Foster criou para um público consumidor lumpen), cujas chaves para soltar os prisioneiros da Segunda Guerra Mundial apareciam agora substituídas pelas toleradas mocas de Rio Maior, num contexto revolucionário português em que bastantes militantes da esquerda radical haviam sido presos pela junta militar. Aliás, o artigo de abertura é especialmente depreciativo para qualquer exército do mundo.


EX.º SR. DR. ARNALDO DANTAS DA GAMA. CARTA INÉDITA A PROPÓSITO DE
“A CALDEIRA DE PERO BOTELHO”
Camilo Castelo Branco

E por último, não sendo por assim dizer uma publicação, mas um estojo para uma carta autógrafa de Camilo Castelo Branco e para o volume da sua edição em livro, criado pelo encadernador Vasco Antunes, é de referi-lo como modelo da compreensão gráfica de um artista perante a diversidade dos materiais postos ao seu dispor. Peça única, em pele gravada, papel de fantasia, cartão e mica, contendo a citada carta e o exemplar n.º 1 da tiragem de 250 exemplares mandada imprimir, em 2006, pela Frenesi. Não sendo exequível por meios tipográficos industriais, por isso mesmo a tenho como modelo daquilo que derradeiramente se perdeu no mundo editorial.
O texto em Exórdio dá a nota e confirma o desgosto: “Os leilões são uma torrente de conhecimento e aventura pela nossa humanidade passada. Ao invés do que, ciúme ou ganância, afirmam certos colegas editores, são, actualmente, os antiquários e os alfarrabistas os únicos negociantes de livros com interesse iniludível e feliz surpresa… Já que os mais, editores e livreiros de novidades estabelecidos, fraca mercadoria exibem nas suas quitandas. […]” Etc., etc., etc,…

Paulo da Costa Domingos

6 Comments

Filed under Capas, Livros, Revistas, Tipografia

6 responses to “Cinco escolhas de Paulo da Costa Domingos

  1. Respeito muito, e tenho mesmo uma grande admiração pelo trabalho de Paulo Domingos e da Frenesi – a edição por eles feita do «Discurso Patético» do Cavaleiro de Oliveira é sublime, tanto no conteúdo como na forma (grafismo). Mas devo dizer algo sobre uma das escolhas dele aqui… a do «Marquez da Bacalhôa». Este livro, obra puramente difamatória e insultuosa, não foi mais do que um dos muitos «panfletos» que reclamava, directa ou indirectamente, o assassinato de D. Carlos. E podia haver uma «revolta armada» contra a suposta «ditadura» de João Franco, mas não era nem popular nem generalizada – era a apenas a dos republicanos que, com menos de 10% do eleitorado, queriam assumir o poder e proibir e prender todos os outros… o que, aliás, fizeram depois de 5 de Outubro de 1910, em que, aí sim, se viu bem a verdadeira «grosseria do poder».

    • Paulo da Costa Domingos

      Sim, mas a verdade é que, quanto à monarquia, o povo gostava tanto dela que nem durante a vigência republicana, nem durante o fascismo salazarista, nem após a abrilada houve espaço para o seu regresso.
      Paulo da Costa Domingos

      • Meu caro Paulo, não houve, até agora, «espaço» para o regresso da Monarquia… porque os republicanos nunca o quiseram, nunca o deixaram. Sempre tiveram medo de fazer um referendo que legitimasse (ou não) o regime – como, por exemplo, foi feito em Itália a seguir à Segunda Guerra Mundial, que instaurou lá a República. E ainda hoje a constituição impõe, nas revisões, a «forma republicana de governo».

      • Manuel B.

        Oh meu caro Octávio, venha de lá esse referendo! Pelos vistos, o historial do PPM nas urnas não serviu ainda para lhe indicar qual seria a tendência de voto no referendo que o senhor afirma assustar tanto os republicanos.

        Infelizmente, há assuntos mais importantes exigindo a nossa atenção do que o derrocar dos sonhos de meia dúzia de gatos-pingados. Se o Octávio prometesse ao menos ficar calado durante uns tempos caso Portugal desse um Não à monarquia, ainda seria caso para pensar, mas tenho dúvidas que essa realidade tivesse poder de penetração na casca grossa que envolve muita mentalidade monárquica.

      • Ó «Manuel B.» (é o medo ou é a «ética republicana» que o impede de se assumir por inteiro?): como qualquer pessoa minimamente informada sabe, em Portugal há muitos mais monárquicos do que os votantes (no passado ou no presente) no PPM.
        E quanto ao «ficar calado durante uns tempos»… não, não lhe posso prometer isso. Não sou, não somos, adeptos da censura, mesmo que seja «auto». Isso é mais característica dos «verdes e vermelhos».

  2. Pingback: Quando o Che de Roman Cieslewicz foi também de Armando Alves « Montag : by their covers : resgate do fogo

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