Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VII)

O TEXTO DE JOÃO ZORRO
Fiama Hasse Pais Brandão
Capa de Armando Alves
Desenho de Ângelo de Sousa
Editorial Inova, Porto, Fevereiro de 1974

E o mundo editorial subiu para o Porto, naqueles anos 70 mesmo antes do 25 de Abril. A Afrontamento, por um lado, com o seu impressionante catálogo de livros de história e de política (orientados pelo primeiro José Pacheco Pereira, aquele que foi meu amigo então, reeditando textos de anarquistas -o Alexandre Vieira, que eu tanto admirei –, falando das lutas operárias, editando o César de Oliveira…). Mas, com a inabalável iniciativa de Egito Gonçalves, congregando artistas plásticos (os Quatro Vintes: Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues) em torno daquele mundo que ia do café Ceuta até ao Orfeu, passando pela inclassificável livraria Leitura. A Inova foi a editora desses tempos, publicando Stendhal (traduzido pela Luiza Neto Jorge) ou Kleist (Egito Gonçalves) e até Rodrigues Miguéis e Fitzgerald. Este terceiro volume da colecção “Coroa da Terra” é a primeira antologia de um dos maiores poetas da segunda parte do século XX, Fiama Hasse Pais Brandão: radical, lírica, intelectual, sensível, meta-textual, na sua poesia (aqui reunida a que vai de 61 a 74 – a posterior está no enorme volume da Assírio) está muito do que viria a ser a literatura que se lhe seguiu (a melhor). E o desenho em que a capa se baseia é do Ângelo de Sousa – que fez muitas capas  (para Helga Moreira na &etc, para Álvaro Lapa na Estampa mas também hors texts para Eugénio, Natália Correia ou José Emílio Nelson). Aqui estamos em plenos anos 70: o grafismo da capa, com o seu verde cintilante, atropela a delicadeza do desenho de Ângelo, há uma contradição sem solução, como se o gráfico tivesse feito a capa deixando apenas um lugar para um desenho que não vira: e este escapa-se, pela delicadeza. É um dos mais belos livros de poesia – e um dos mais belos desenhos, intrincados, subtis de Angelo: mas a capa esmaga-o, e é pena. Mas foram assim muitos dos anos 70, ideológicos e não sensíveis.

Jorge Silva Melo

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