Um livro, uma capa: as escolhas de Jorge Silva Melo (VIII)

MORITURI TE SALUTANT
Joao César Monteiro
Capa de João Vieira
&etc, Lisboa, 1974

Querem saber uma coisa? À  excepção do primeiro (Quem Espera Por Sapatos de Defunto) e do último filmes (Vai e Vem), nunca me convenceu o cinema de João César Monteiro. Em contrapartida, tenho-o como um dos maiores prosadores da segunda metade do século XX, elegante, soturno, tremendo. Podíamos filiá-lo em muita literatura francesa que terá lido nos livres de poche mais baratos (e se é fácil pensar em Sade, Céline ou em Bataille, pensemos em Soupault ou até no mais negro Bernanos); mas a prosa, a prosa rigorosa, sinuosa, interminável, essa é única, filha de Camilo, mas dele. E tantas vezes lhe disse, ao João César: você é um escritor preguiçoso, porque é que não escreve mais?, o cinema para si é um trabalho que não o interessa. Interessava, sim: no cinema, nas rodagens, aparecem as raparigas, pode-se até pedir-lhes que abram um pouco mais o decote – as raparigas que raramente enchem a maldita página branca do escritor. E, se se pode namorar filmando, é mais difícil escrevendo. E o César queria era namorar. Este seu livro é uma obra-prima: de graça, malícia, contundência, sinuosidade, liberdade. E, claro, ódio. Do mais venenoso, sem nenhum amor. Vem dos grandes solitários (que o João César preferiu não ser, atraído pelos cafés e pelo convívio), vem da noite mais funda (que o João César conheceu e enfrentou – mas de que quis, com graça infinda, escapar-se com um bom fatinho e um bom sapatinho). E, claro, editado em 1974, marca os alvores de uma editora insólita, a editora do Vítor Silva Tavares (nosso amigo de Montes Carlos e Saldanhas), crítico de cinema, organizador dos ciclos da Casa da Imprensa, jornalista, homem dos livros e dos grafismos. E a capa, como as dos primeiros livros & etc, é do João Vieira, artista das letras, artista imprecativo dos do café Gelo (todos mais velhos do que eu, mas a todos tratei por tu). A &etc continua, insólita, crucial, pertinente, angustiante, serenamente. O Vítor é o Vítor e fica-lhe bem o reconhecimento agora mítico que tem: ele é o nosso off-off, está deliciadamente na margem, no esconderijo, vive numa Lisboa (subterrâneo 3) que felizmente ainda existe, em que se anda a pé e se levam uns livritos na mala. Quem viu começar a editora não lhe daria mais do que cinco anos, seis. Qual quê! É, neste momento, das editoras mais antigas que por aqui anda, imbatível, exigente. E já morreram tantos dos nossos amigos, tantos. Mas tantos se sucedem, com estes livros lindos, raros, malditos, cheirando a enxofre e a liberdade. Mas eu nunca mais fui ao Saldanha – que era onde se sabia que saíam estes livros.

Jorge Silva Melo

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