“Nostalgic for the future”


Este é o número 9 (de 1974) da revista Science Fiction Monthly (SFM), publicada pela New English Library (NEL), uma editora de paperbacks criada em 1961 e especializada, sobretudo, em ficção científica. Bastam as dimensões para traduzir a importância que o género tinha na altura: 40 x 28 cm, num misto de revista glossy e jornal (as folhas não são agrafadas), sendo que o verso da capa servia de poster, exibindo uma obra do ilustrador entrevistado em cada número e que serviria, igualmente, de capa para uma das publicações da NEL ou de outras editoras.

Este é o único número desse revista que possuo, e a razão para isso compõe-se de duas palavras: David Pelham (cuja ilustração para Tiger! Tiger! de Alfred Bester adorna a capa). As duas páginas que lhe são dedicadas tinham como claro pretexto a reedição pela Penguin, nesse ano de 1974, das obras emblemáticas de J.G. Ballard da década precedente, com novas capas e uma caixa (Prova A) primorosamente ilustradas e concebidas por Pelham, que era à altura o director de arte da grande editora inglesa.

Prova A

O interesse da entrevista aqui publicada (apesar do título algo pomposo: “The artist in Science Fiction”: para vê-la e lê-la na íntegra, ir aqui e aqui) estende-se, contudo, para além da inegável importância deste designer no panorama da edição inglesa desses anos. Não sendo um ilustrador exclusivamente dedicado à fantasia e à FC, como todos os outros entrevistados pela SFM, e não tendo apenas, dentro do género, ilustrado as capas de Ballard (são suas muitas das capas da série de FC da Penguin dos anos 70, bem como a icónica capa de A Clockwork Orange, e já na Panther em finais dos anos 60 se encontram capas suas para obras de FC), ele é aqui apresentado quase como “o” ilustrador de Ballard, uma simbiose que teria a sua justificação no conhecido apreço que o autor manifestou por essas capas da Penguin de meados da década. O curioso é que a simbiose se traduz a um nível extra visual: se Ballard sentiu que as ilustrações de Pelham “cristalizavam algumas das suas mais poderosas imagens literárias”, este, por seu lado, parece pensar e exprimir-se em uníssono com aquele.

O que torna o interesse desta entrevista realmente duradouro é, creio, uma tensão surda que subjaz ao simples facto de ela ter ocorrido. Apesar de trabalhar numa editora modelo e de usar a ferramenta da moda na altura (o aerógrafo) e se inscrever numa linha estética devedora da Pop, as ilustrações de FC de Pelham não eram obviamente “ortodoxas” no sentido comercial que a NEL ou as outras editoras do género defendiam e promoviam. Pelham pensa e trabalha como um designer e um director de arte, recorrendo a bancos de imagens, procurando cruzamentos entre o sentido do texto e o zeitgeist. A força motriz do conceito de “colagem” é nítida. A sua aportação heterodoxa à iconografia do género era já, em 1974, um trabalho solitário de resistência, herdeiro da pesquisa iconoclasta da New Wave inglesa (materializada na revista New Worlds), numa altura em que o próprio Ballard dava os primeiros passos para fora da FC. No cerne, a questão era: que imagem nova pode a FC ter, ou então, quanto da imagem e da estética do presente e do passado recente contamina a visão de futuros mais ou menos remotos?

Essa “nostalgia do futuro”, assumindo o futuro como a imagem decadente, sob a acção das forças da entropia, das novas tecnologias do presente, é o programa de Pelham nestas ilustrações genuinamente “ballardianas”. A suavidade das gradações dada pelo aerógrafo e a obsessão pelo acabamento perfeito (que contrariam de certa forma a “brutalidade” e “selvajaria” que Pelham vê nelas) não retiram às imagens uma profunda melancolia e uma malaise que era, ao mesmo tempo, alheia à estética da FC ilustrada por então e muito contemporânea aos anos pós-1968.

“Pelham describes his illustrations as ‘uncompromising, brutal and savage’: machines appear starkly and incongruously against a background of frightening simplicity –  and present a philosophy of the future in picture form. To Pelham these machines are the debris of our society: ‘I’ve a big thing about machines and their subsequent breakdown. I love the idea of all this work going into making a machine and then it not working or being left redundant.’
Pelham explains his outlook in terms of a simple analogy: as many people find romance in viewing previous epochs, so he finds romance in seeing the future as if it were already the past – in visualizing ruins created from the artifacts we are manufacturing now.” (SFM, nr. 9. vol. 1, 1974, pp.6-7)

In English soon.

2 Comments

Filed under Capas, Livros, Revistas

2 responses to ““Nostalgic for the future”

  1. I have that poster image on a tatty old Alfred Bester ‘Tiger! Tiger!’ paperback. Lovely stuff.

    By the way, did you ever get my email re the magazine?

  2. Hi James! Yes I did! Thank you so much. And I’ll send you the next issue of that magazine, with my piece on Terry James on it, as soon as it comes out.

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