Metamorfoses

Publicado em 1915, o texto de A Metamorfose (Die Verwandlung) de Franz Kafka é uma das pedras de toque do Modernismo literário e um dos textos saídos dessa vaga que melhor resistiu ao tempo. A Portugal chegou em 1962, com a chancela da Livros do Brasil e uma tradução de Breno Silveira, ostentando esta bela capa e quatro ilustrações de Álvaro(?) Infante do Carmo (1929-1982). Descobri esta edição recentemente, esquivando-se nas montras de alguns (poucos) alfarrabistas mas com um preço curiosamente acessível. Trata-se, sem dúvida, da graficamente mais sólida edição deste texto essencial no nosso país, onde não teve, aliás, um percurso gráfico digno da sua importância (veja-se esta lista cronológica ilustrada).

Quem foi adolescente nos anos 80 do século passado, não pôde evitar a ubíqua edição da Europa-América, com uma capa embaraçosa pela tipografia apoplética e uma imagem vulgar, a procurar o efeito de choque (ver aqui). Foi essa a edição que li, suportando a capa talvez pela remota associação ao grande filme de David Cronenberg The Fly (A Mosca), que por essa altura vi e que fazia furor. Mas era esta edição da Livros do Brasil que deveria ter tido nas mãos, apesar de não ter a certeza de que o adolescente que era então teria gostado deste visual “antiquado”. Na verdade, a Livros do Brasil reeditou em 1971 e 1986 o livro com o mesmo design da edição de ’62 (como se lê aqui), pelo que até teria sido possível que ela me tivesse chegado às mãos. Chegou agora, e da edição da Europa-América não guardo memória nem prova.

Este exemplar que possuo apresenta-se sem data, mas as suas condições físicas levam-me a remetê-lo sem problemas para a primeira edição, no mínimo para a de 1971. As ilustrações (onde se inclui uma representação do Gregor Samsa antes e depois da metamorfose) são extremamente elegantes, com um uso dextro das linhas cruzadas na criação dos volumes e chiaroscuro. São, por isso, muito distantes de um possível pastiche do estilo dominante na vanguarda gráfica contemporânea da novela, o Expressionismo, sobretudo o praticado nas xilogravuras dos artistas alemães do grupo Die Brucke, em especial Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein ou Ernst Heckel, e distantes também do estilo de um George Grosz, que fundiu o ímpeto expressionista com gosto do grotesto e o pendor crítico da caricatura de imprensa nos anos posteriores ao fim da I Guerra Mundial.

É na capa que creio que Infante do Carmo tenta essa aproximação “historicista”, numa composição quase totalmente tipográfica (com a excepção de um motivo circular em fundo) e com recurso exclusivo às não-serifadas: uma “grotesca” condensada e de factura manual para o nome do autor (usando os ângulos do K e do A para produzir uma intersecção poderosa) e a Gill Sans para o resto. O jogo de inversão vertical do título, criando um puzzle tipográfico cuja leitura se facilita pela tintagem do “duplo” invertido, é particularmente notável. Poderia ser uma capa da Malik-Verlag de Berlim (dirigida pelo irmão de John Heartfield, Wieland Herzfelde, a partir de 1916) ou da Odeon de Praga nos anos de 1920.

A página de rosto reproduz esse belo jogo tipográfico com o título, mas quebra a uniformidade com o uso de uma cursiva no primeiro nome do autor. Na numeração dos capítulos e nas capitulares é usada ainda outra cursiva mais encorpada, numa segunda cor, o que faz com que a uniformidade de estilo prometida na capa se dilua de certa forma.

A capa parece-me tão mais extraordinária quanto a Infante do Carmo se associam sobretudo capas pictóricas, onde, para além da paleta rigorosa e contida, impera o desenho e a sua textura, cabendo à tipografia um papel mais discreto (em baixo, no sentido descendente: capa de O Livro da Selva de Rudyard Kipling, s/d; capa de Almas Danadas de Joaquim Lagoeiro, Minerva, 1970; capa de O Vestido Vermelho de Stig Dagerman, Estudios Cor, 1958; capa de A Aventura nos Campos Gerais de João Guimarães Rosa, Livros do Brasil, s/d).

1 Comment

Filed under Capas, Ilustração, Livros, Tipografia

One response to “Metamorfoses

  1. Ana

    Álvaro Infante do Carmo, sim. Homem fantástico. Pai maravilhoso.

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