Viagens de João Barreiros (I)

João Barreiros é divulgador e autor de FC em Portugal há mais de 30 anos. Para quem está dentro do “meio” (vulgo, “fandom”), é um nome que dispensa apresentações. Mesmo quem está fora do meio (ou meio dentro), como eu, tem alguma referência ao seu nome no banco de memória. As minhas primeiras são já dos distantes anos ’80 do século passado, quando o ouvia, de vez em quando e às noites,  no programa Imaginário da Antena 1. E, claro, quando em 1988 descobri numa (ou melhor, na) livraria de Viana do Castelo um exemplar dum livro fascinante (ainda hoje é), o catálogo do ciclo de cinema de FC de 1984 publicado pela Cinemateca. Visitei a sua biblioteca e lancei-lhe o desafio de algumas “viagens” a capas mais ou  menos distantes, quer de livros seus ou a que tivesse estado ligado, quer de livros que considerasse relevantes. Eis a primeira de dez viagens/capas, que incluem alguns achados irresistíveis. (Aviso: contém linguagem directa e franca).

A VERDADEIRA INVASÃO DOS MARCIANOS
João Barreiros
Editorial Presença, 2004

Com a minha provecta idade já devia saber que o menino Jesus não existe. Erro meu. Neste caso, esperar que a capa de um livro respeite especificamente, com um rigor inquebrantável, todos os conteúdos que lá dentro, muito bem escondidos, olham para nós com olhinhos piscos e esperançosos. Estou a falar, claro, das minhas aventuras com a Editora Presença e a capa do meu livro marciano Não estamos divertidos.

OK. Abram os olhos de espanto e pasmem-se.

O resumo da contra-capa. Perguntei ao responsável da época se haveria alguém capaz de o fazer, ou seja, sintetizar um texto hiper-complicado em 25 linhas apelativas. “Oh, João”, exclamaram, de mãos erguidas aos céus. “Claro que somos. A nossa equipa editorial é das mais competentes que existem. Acha que vamos ter dificuldades em resumir o seu livro? Nunca! Confie em nós”.

OK, tudo bem. O menino Jesus existe, e os epifenómenos ocorrem mais vezes do que aquilo que pensamos. Correcto?
Brincamos! Dois dias depois, um telefonema. Uma voz melífica do outro lado: “João, oh, João, não seria melhor ser você a escrever o texto da contra-capa? Já que foi o João a escrever o livro? Uhn? Importa-se? É que a nossa equipa de produção encontra-se de momento ocupada/doente/ausente em parte incerta… Anh? Quem é amigo, quem é? A poucos autores cabe este dilecto prazer de se resumirem a si mesmos… Concorda? Então queremos esse texto todo escritinho até ao final do dia…” Calei-me e cumpri ordens. Escrevi o tal texto. Ipsis verbis. Tal qual como aparece na contra-capa. Eivado de alguns spoilers, mas é assim mesmo. Para que os jovens leitores da colecção entendam que NÃO estou a falar de Fantasia, mas sim de FC steam/ciber/ribo/punk.

Quanto à capa propriamente dita, aquela que todos vós agora têm o duvidoso prazer de contemplar na imagem. “Ó João, claro que pode fazer sugestões para a capa do seu livrinho… Afinal ele é obra sua…”

OK. Quero uma cratera. Falésias de calhaus rolados. Ao centro, a pirâmide marciana com um canhão no topo e um olho desenhado numa das faces. Em volta, um parque de trípodes abandonados, patinhas para o ar como as aranhas. Na encosta da cratera, o cilindro naufragado, emaranhado na paravela, de portas abertas, rodeado de caixotes.
À volta do cilindro, de pé, cinco escafandros retro, daqueles que poderiam ter sido usados no século XIX. Fácil de executar, não acham?

Dias depois: “Ai João, ai João, os nossos desenhadores desconhecem o tipo de escafandros de que está a falar… Podia ser mais específico?” Tudo bem, repliquei, a espumar o visco da bondade compreensiva. Aqui vão eles. E enviei-lhes desenhos tirados da net de escafandros semelhantes ao que o Verne utilizou nas 20.000 Léguas Submarinas.

Dias depois: “Ai João, ai João, esta sua capa é muuuuuuuito complicada. Seria possível arranjar qualquer coisa, a modos que, mais fácil e acessível ao comum dos leitores?” Suspiro. O menino Jesus a agonizar no berço. OK. Aqui vai outra sugestão: que tal o famoso desenho do Percival Lowell sobre Marte, aquele onde se vêem os canais? Isto para demonstrar que estamos a falar de um outro Marte que não é o “nosso”. O que acham? “Ah sim, isso sim, vamos já comunicar os seus desejos à nossa competente equipa de capistas. Ufff…  Ainda bem que se resolveu o problema… Obrigado e beijamos-lhe as mãos…”

Fiquei à espera, junto ao berço de um menino Jesus já um tanto requentado.

E eis que surge a capa. Percival  Lowell, onde estás tu? Nope. Desapareceu do mapa. O que vejo é a fotografia inócua de um Marte SEM canais. Tirada por uma das muitas sondas. Ora toma. “Uhn? Linda capa, João… Não acha? Aqui está Marte por inteiro… Gostou?” E os canais, perguntei a medo. Onde é que ficaram? “Canais? Quais canais? Marte não tem canais, pois não?”

O menino Jesus tem agora o aspecto do proverbial zombie. E a mim resta-me o silêncio. Os braços caídos. Um suspiro inaudível.

João Barreiros

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