Viagens de João Barreiros (II)

O CAÇADOR DE BRINQUEDOS E OUTRAS HISTÓRIAS
João Barreiros
Caminho, 1994
Capa de Henrique Cayatte

Agora que a Caminho e o Grupo Leya resolveram “farenheitizar” todos os livros da colecção Azul de FC, dela restam apenas cinzas e pequenos átomos de carbono a circular pela atmosfera do planeta Terra. Não é necessário esperar pelo futuro e por um bombeiro chamado Montag com um lança-chamas na mão. Muito antes disso os Nazis fizeram o mesmo. Parece que a moda pegou. A Caminho respeitou os protocolos da reformatação da História à la Orwell. “Apagou” do mapa todos os volumes por ela publicados de Ficção Científica e Policial. Estes géneros marginais tornaram-se politicamente incorrectos. A partir deste momento só as literaturas Africanas contam.

E na véspera da destruição, será que os autores portugueses de FC por ela publicados foram avisados deste eminente e quase criminoso “auto-de-fé”? Nope. A queima aconteceu pela calada. E nenhum de nós ficou com um único exemplar. Por isso, no meu caso, digam adeus para sempre à colectânea O Caçador de Brinquedos e ao mais extenso livro de FC portuguesa, Terrarium. This is the end, my friend…

Resta a memória da elaboração da capa… Bom, para já fiquem sabendo que a maior parte dos desenhadores são “almas sensíveis”, dedicadas à arte e que nunca na vida irão ler o texto original que eles pretendem ilustrar. “Ler lixo? Nem pensar! Façam-me um resumito do que querem e a ver vamos se isso me apraz”.

Bom, como ninguém se mexeu, lá tive eu de fazer um pequeno resumo sobre a capa que gostaria de ver estampada no meu livro.

O Urso Fozzy. Um biobrinquedo com menos de 50 cm de altura. Podia dar pelo joelho de um adulto. No conto, o urso, assim como todos os biobrinquedos, foi contaminado por um vírus de wetware soviético. (Lembrem-se que escrevi isto antes da queda do Muro). O vírus enlouquecia os brinquedos e obrigava-os a matar todos os adultos. Assim, Fozzy, o urso fugido, mune-se de um Colt 45 e começa o massacre. Insisti, insisti e insisti na desproporcionalidade do desenho. A pistola deveria ter quase o tamanho do brinquedo. Esta era a desproporção que geraria o choque visual. Um doce brinquedo munido de uma arma letal. Até disse, na bondade típica do meu coração de autor, que essa arma poderia ser substituída por uma moto-serra, mas que a desproporção deveria ser mantida.

“Fixe, João. Boa ideia. Vamos já enviar as suas sugestões a quem de direito!”

E ali fiquei eu à espera, com as orelhitas levantadas e a cauda a dar a dar.

Quando o livro saiu, horror, horror, horror. Cadê a moto-serra? Cadê o Colt 45? Ná. O simpático ursinho aparece munido de uma minúscula espingarda absolutamente proporcional ao seu tamanho…

“Gostou, João, gostou? Está giro, não está?”

Engoli em seco, com o universo a quebrar-se em mil vidrinhos à minha volta. “O urso é um urso assassino!” clamei com os braços erguidos a um céu indiferente. “Como é que ele vai matar gente armado com uma espingarda de brinquedo? Em nenhum lado do meu conto eu falo de uma espingarda. Nunca. Como é possível? O conto passa a ser ridículo, não estranho, não horrível como pretendia ser. A capa passou a ser uma ilustração para um livro infantil. Perdeu todo o carácter adulto!”

Mas claro, o artista é quem manda, o autor deve calar-se e acatar o génio dos outros, e agora, em qualquer caso, já é tarde demais e o livro O Caçador de Brinquedos, pois que queimado, deixou de existir para sempre e mais um dia…

João Barreiros

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