Viagens de João Barreiros (III)

JEM
Frederik Pohl
Gradiva, 1986
Capa de José Eduardo Rocha

Todos nós já sabemos que não se deve julgar um livro pela capa. Mas infelizmente é isso que sempre acontece. Em tempos que já lá vão, os críticos do jornal Expresso recusaram-se a fazer referência a dois livros excelentes por mim escolhidos para a colecção “Limites” da Clássica, precisamente porque não “apreciaram” as ditas capas. Estou a referir-me ao Império do Medo do Brian Stableford (parabéns à Saída de Emergência que se saiu bem melhor na imagem para a 2.ª edição) e a O Brilho Escorre do Ar da James Tiptree. Duas obras fundamentais para o desenvolvimento do género que assim mergulharam na mais absoluta oclusão. Contudo, se recuarmos mais dez anos, quando precisamente eu dirigia a colecção “Contacto” para a Editora Gradiva, as coisas não corriam melhor.

Desenhadores de capas pertencem a uma espécie em vias de extinção. Ou já completamente extinta, se considerarmos este tristonho cantinho onde vivemos. Visitem uma livraria. Eis capas de livros (dezenas e dezenas delas) com fotografias de rostos de mulheres rodeadas de flores. Ou ampliações de pinturas clássicas de mulheres rodeadas de caracteres góticos. Ou imagens de mulheres orientais com um aspecto mais ou menos oprimido. E se não forem elas, serão “photoshopping” de jovens adolescentes vestidas de negro, com boquinhas escancaradas a revelar dentolas de vampiros, num doce anúncio ao angst adolescente. E, por último, jovens tatuados, remanescentes de um passado celta, a mostrarem a musculatura a quem ainda não se decidiu se havia ou não de sair do armário.

Ok. Estamos em 1986. Prestes a publicar o admirável livro do Frederik Pohl, JEM, admiravelmente traduzido pela Maria de Lurdes Medeiros. Em versão integral. Um dos grandes clássicos de então. Sabendo eu, quase intuitivamente, e ainda bastante ingénuo nestas lides, como as coisas podiam facilmente dar para o torto, parti do princípio que não haveria desenhador disponível capaz de visualizar as três espécies alienígenas que compartilhavam a ecosfera do planeta JEM. Uma delas teria a forma de um balão, outra a de um caranguejo e ainda outra a de uma toupeira. Sugeri então que, na capa, aparecesse em letras grandes o titulo “JEM”. E que essas letras poderiam ter o aspecto cristalino de uma jóia. Só isso. Às vezes o menos é mais.

Mas não foi essa a posição do editor-chefe, que disse conhecer desenhadores competentes, capazes de levar esta árdua tarefa a bom termo. Mas para isso, insisti eu, o desenhador teria de ler o livro por inteiro, doutro modo… “Não se preocupe, João, tudo será feito como manda o figurino.” E posto isto, confiante nos deuses e no destino, fiquei à espera como as proverbiais nêsperas, do que iria acontecer.

Surpresa, surpresa: o que aconteceu foi a capa que podem ver no final desta crónica. A parte traseira ainda pior do que a frontal, como se o desenhador se tivesse cansado a meio. Cadê JEM e as suas criaturas? Qual o sentido do desenho e a sua relação com o texto? Vim mais tarde a saber que o desenhador apenas lera metade do primeiro capítulo e achou por bem representar nela um fragmento de uma estátua de um herói do povo de um extinto país socialista. Sim, sim, ainda se pode ver os braços da criatura a emergir da zona central. E ponto final. Tal como estava, a capa parecia ter sido desenhada por um aluno do ciclo, razoavelmente autista e com sérios problemas cognitivos. Estava horrível. Ninguém são de espírito iria comprar o livro. O amarelo eléctrico da paisagem lembrava alguém a sofrer de uma grave crise de sinusite. Os rostos humanos surgiam toscos, mal trabalhados, sem nariz, sem boca, sem expressão. Uma dor de alma, enfim.

Mas foi assim mesmo que o quiseram publicar, sem apelo nem agravo, indiferentes aos meus pedidos de clemência. Não faço ideia de quantos exemplares se venderam. A maior parte do pessoal da época fugiu do livro de cruz alçada, a clamar “vade retro”: infelizmente, a capa assustou mais leitores do que os que atraiu. E é uma pena. JEM e Pohl não mereciam isto. Assim morre a FC em Portugal…

João Barreiros

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