“Rien a changé depuis son départ”: mais Cieslewicz

Sou um coleccionador, entre o moderado e o compulsivo, de quase tudo o que foi feito por Roman Cieslewicz e a que a minha modesta bolsa me permita chegar. Estes são 6 exemplares da sua extensa bibliografia que adquiri no último ano e meio.

Desde que folheei o artigo/entrevista sobre ele na longínqua Eye n.º 9 em 1993, na livraria Leitura do Porto, que não me sai da cabeça. O nicho que Cieslewicz criou está ali entre as duas grandes explosões culturais do século XX, as vanguardas pictóricas do(s) modernismo(s) dos anos 20 e 30 e a chegada das lições desse modernismo à cultura de massas nos anos 50 e 60, ao qual ele juntou o “aroma” gráfico da vanguarda polaca. Acima de tudo, mesmo nos trabalhos mais “difíceis” ou menos acessíveis, o que ele conseguia operar era uma poderosa alquimia visual à qual não tenho conseguido resistir: podia chamar-lhe o “império da trama”, dada a assunção quase sensualista da textura de pontos quer nas suas séries serigráficas, quer nas suas imagens produzidas em offset, trama/rede que as ligava, no fundo, ao universo de imagens “comuns” retiradas dos jornais e revistas, esse vasto repositório de detritos da cultura impressa massificada e do qual as imagens de Cieslewicz eram ecos com um timbre muito próprio, ou, nas palavras de Pierre Restany no catálogo da Bienal de Cartazes de Varsóvia de 1974, uma “linguagem dos nossos tempos” estruturada a partir desses elementos díspares. Esses “nossos tempos” não se limitaram, no trabalho de Cieslewicz, e felizmente, a esses anos pós-1968 dominados pelo pós-estruturalismo e pela incandescência da teoria e da praxis políticas: a sua beleza estranha, quase altiva, liberta-o das amarras do contexto histórico e continua a fazer dele uma fonte de deleite e desafio.

De um vendedor na Polónia de “artefactos dos anos Pop” do outro lado do Muro, consegui três números da Ti y Ja (“Tu e Eu”), revista cultural para “jovens” urbanos (uma espécie de Twen polaca) aparecida na “Primavera” de Gomulka, no início da década de 60, da qual Cieslewicz foi o director de arte entre 1960 e 1963. Com o fim dessa Primavera política, regressou a censura mais agressiva à Polónia e saiu Cieslewicz para França, mas isso não o impediu de compor algumas capas até ao final da década. Estas duas, de 1967 e 1969, são exemplo disso. Gosto do cabeçalho da revista com a Cooper Black (sinal dos tempos) devidamente aparada e “encaixilhada” numa grelha rígida: um excelente contraste de escala e tom.

Já em França, e para este Guide de la France Mysterieuse (1964) das recentemente criadas edições Tchou do sino-francês Claude Tchou, Cieslewicz compõe um alfabeto (em rigor: as capitulares que marcam os separadores de cada área alfabética do livro) com base na sua técnica favorita de então: a colagem a partir de ilustrações de revistas do século XIX (tinha feito algo no género ao ilustrar o Tratado dos Manequins de Bruno Schulz pouco antes de sair da Polónia). Além desses separadores alfabéticos, compôs ainda pequenas colagens que aparecem dispersas pelo livro e que se conjugam com as muitas dezenas de imagens de “almanaque” que o pontuam. (Este alfabeto tornou-se um dos primeiros grandes sucessos gráficos de Cieslewicz, largamente reproduzido e adaptado, até em Portugal, como demonstra este exemplo de uma capa composta, nem mais, pelo editor Vítor Silva Tavares em 1970). Trata-se de um enorme (um tijolo de mais de 1000 páginas) e muito curioso guia histórico, lendário e algo “esotérico” de pontos de visita por toda a França, com um aspecto rétro (moda do momento) perfeitamente conseguido e um charme antiquado no qual Cieslewicz se consegue encaixar perfeitamente. É também um livro muito barato.

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Já consagrado internacionalmente, Cieslewicz partilha com Shigeo Fukuda e André François este catálogo de 1974 da Bienal de Cartazes de Varsóvia. Edição bilingue em formato quadrado, impressão a preto com 3 extra-textos a cores, papel couché, é uma ocasião para ver muitas das suas fotomontagens simétricas de meados da década de 70 (escolhidas para este catálogo pelo seu monocromatismo), um portfolio mais experimental e agressivo, e que anuncia o seu trabalho interventivo dos anos seguintes. Vendido a um preço bem aceitável no ebay alemão, fonte de muitas descobertas “cieslewicianas”.

Um bom complemento ao já incontornável catálogo publicado pelo Centro George Pompidou em 1993 e editado por Margo Rouard é este catálogo em edição trilingue de uma exposição no Kunsthalle de Darmstadt em 1984. Cobrindo a produção de cartazes na Polónia e em França e todo o restante portfolio de Cieslewicz até meados dos anos 80 (e acertando em cheio na capa, ao escolher para ela uma das suas colagens mais brilhantes), este é, sobretudo, um excelente guia visual, pela qualidade das reproduções a cores e pelo formato A4. Notáveis também as fotografias de arquivo do próprio Cieslewicz, em vários momentos da sua carreira. A procurar no ebay ou na Amazon alemães.

“Rien a changé depuis son départ”. A entrevista de Margo Rouard a Cieslewicz na Eye de 1993 (adaptada do volume publicado pelo Centro Pompidou) era ilustrada por uma amostra da colagem com este título, provinda de um “cahier special” de 36 páginas publicado em 1987 pelas Editions Magik aquando de uma exposição de Cieslewicz na galeria Jean Briance em Paris. Essa imagem (que aparece na página 8 do livro) foi, portanto, uma das minhas portas de entrada no universo do grafista e um motivo forte para a procura, ao longo dos anos, deste volume, que acabei por encontrar a um excelente preço num site francês. A escala da reprodução das colagens face ao plano da página é menor do que eu imaginava, mas a tensão criada pelo espaço branco não deixa de acrescentar à leitura daquelas. É uma sequência ininterrupta de imagens implacáveis, mesmo chocantes, com pequenos rectângulos vermelhos a pontuar o negrume geral, e com pequenos títulos de uma ironia amarga (“Mémoire Kurt”, sobre a descoberta do passado nazi do então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim), e alguns alvos recorrentes, como o casal Reagan (“Je fais tout ce que dit mon Ronnie”, confia-nos Nancy Reagan junto à carcaça de uma criança africana). Muito do seu tempo, mas também, como quase tudo o que Cieslewicz fazia, suficientemente intemporal para aceitarmos este portfolio como do “nosso” tempo ainda.

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Filed under Cartazes, Livros, Revistas

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