Na cabeça do lobo

“I was waiting to collect some blocks of a new design
for the
wolf’s head that McKnight Kauffer has done. […]
If we are going to have a new wolf’s head we ought to
make a splash.”

Richard Kennedy, A Boy at the Hogarth Press
(Heinemann, 1972)

Apesar de faltarem ainda monografias sobre alguns designers editoriais de referência (a de Alvin Lustig chegou só no ano passado, e nada há ainda sobre um Roy Kuhlman ou um Keith Cunningham ou um Eugénio Hirsch – neste descontando-se as excelentes páginas sobre ele em O Design Brasileiro dos Anos 60 – por exemplo), creio que a maior lacuna nisto de livros sobre design de livros está nas monografias sobre as editoras conhecidas pelo seu particular cunho visual, ligadas ou não de forma continuada a um designer gráfico em particular. Lustig e Kuhlman, por exemplo, são indissociáveis da New Directions e da Grove Press, mas uma monografia sobre qualquer uma destas editoras não se limitaria às capas destes designers, podendo oferecer-nos um portfolio mais vasto e quase com a mesma qualidade homogénea de um porfolio individual (ou então fazendo da heterogeneidade uma vantagem).

Qualquer pesquisa no ebay por “New Directions”, por exemplo, dá-nos dezenas de capas soberbas que não foram concebidas por Lustig, sendo certo que esta editora trabalhou com muitos outros designers, fotógrafos e ilustradores na produção das suas capas. (Em troca de mensagens com os gestores da conta de twitter da editora, soube que se planeava uma monografia precisamente sobre o design gráfico da “casa”, mas é possível que a passagem de Rodrigo Corral para a Farrar, Straus and Giroux tenha atrasado esses planos). Outras pesquisas aleatórias por editoras como, por exemplo, a argentina Jorge Alvarez (activa nos anos de 1960), a italiana Feltrinelli, a polaca Iskry ou a “nossa” Ulisseia (sobretudo a dos anos 50 e 60) revelam portfolios  que dariam monografias muito excitantes. E autobiografias como a de Jean-Jacques Pauvert (La traversée du livre) revelam que editores conhecidos pelas suas colaborações esporádicas com designers (Pauvert trabalhou de perto com Pierre Faucheux) eram, também eles, designers “em causa própria”, controlando todos os detalhes da produção gráfica de muitos dos seus livros, fazendo-o muito bem e orgulhando-se disso.

O caso da Hogarth Press é, mais do que paradigmático, lendário já. Criada em 1917 nos moldes de uma “private press”  por Leonard e Virginia Woolf como “terapia de trabalho” para combater as crónicas depressões desta, tornou-se uma das mais importantes pequenas editoras inglesas do século, ao que não foi alheio o facto de ser, até à sua morte, a editora exclusiva da Sra. Woolf. Este belo catálogo (com design de Lara Minja /Lime Design) publicado em 2009 pela Universidade de Alberta, no Canadá, para acompanhar uma exposição aí montada, é uma das ilustrações possíveis dessa linha de monografias: um livro sobre design editorial cujo eixo é a editora e os editores e não o ou os designers/ilustradores. Apesar da inegável importância da aportação de Vanessa Bell, a irmã de Virginia Woolf, o que transparece destas páginas é a importância de editores com personalidades fortes e de um poderoso desejo de “publicar” para a “imagem” de uma editora. Das capas iniciais “artesanais” comp0stas pelos Woolf (como a dos célebres Poems de T.S. Elliot de 1919) a outras feitas por artistas como William Nicholson (uma das minhas favoritas: a de The Feather Bed de Robert Graves, de 1923) ou McKnight Kauffer (Words and Poetry de George Rylands, 1928), é de uma admirável história pessoal, editorial e cultural – traduzida num portfolio necessariamente heterogéneo, mas muito aliciante por isso mesmo – que se trata. As introduções e as muito boas legendas das imagens dão-nos precisamente a ideia de um projecto complexo e “in progress”, onde o grafismo foi apenas mais um dos muitos elementos constituintes, e em que o acaso e as circunstâncias (“anátemas”, de certa forma, numa exegese centrada unicamente no design e na suposta responsabilidade dos designers) tiveram papel determinante.

Um dos melhores contadores dessa história, ainda que de um ponto de vista mais limitado (e muitos anos após os eventos), foi Richard Kennedy, num curioso livro de memórias (ou diário “retroactivo”) publicado em 1972. Kennedy entrara como “aprendiz” na Hogarth Press em 1928, quando tinha 16 anos, com secretas aspirações a poder impressionar os Woolf com a sua habilidade no desenho e conseguir assinar as almejadas capas. A presença de Vanessa Bell e da miríade de talentos que orbitavam em torno da editora e do grupo de Bloomsbury deu-lhe a primeira lição de realismo e humildade na vida. Apesar disto, Kennedy conseguiu, contudo, a proeza de fazer uma capa para a editora poucos meses antes de ser despedido, em 1929. Ela não consta do catálogo, o que é injusto para o “rapaz da Hogarth Press.” Ei-la em baixo, para o romance C.H.B. Kitchin Death of My Aunt. Kennedy tinha, pois, 17 anos quando a fez.

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Filed under Capas, Editoras, Livros

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